Leon Festinger: um experimento de dissonância cognitiva

julho 18, 2019
Através de um experimento, Leon Festinger testou o processo de tomada de decisões. 

A tomada de decisões foi colocada à prova em um experimento de dissonância cognitiva. Mas, o que é dissonância cognitiva? É uma sensação que surge derivada de um conflito entre as ideias, crenças e valores do indivíduo com o seu comportamento.

Assim, a dissonância cognitiva surge da incompatibilidade de pensamentos, que cria um estado de desconforto considerável nas pessoas.

Podemos, então, entender a dissonância cognitiva como uma tensão psicológica. Esse conceito foi introduzido por Leon Festinger em 1957.

Segundo o autor, essa tensão obriga o sujeito a criar novas ideias ou atitudes que aliviem a tensão e sejam complementares ao seu sistema de crenças.

Essa teoria tem sido relacionada à tomada de decisões; sempre que decidimos fazer algo que colide com as nossas crenças, são empregadas diferentes estratégias para aliviar essa tensão.

“Quando há dissonância, além de tentar reduzi-la, a pessoa evitará ativamente situações e informações que provavelmente aumentariam essa dissonância”.
– Leon Festinger –

Homem pensando na vida

Leon Festinger: o criador de um experimento revolucionário

Festinger foi um psicólogo social americano nascido em Nova York em 1919. A sua teoria sobre a dissonância cognitiva teve especial relevância na psicologia social, especialmente nas áreas de motivação e dinâmica de grupo.

Além disso, a teoria é baseada no fato de que o ser humano está consciente de suas ações e sempre que ele faz algo com o que não concorda, sente a necessidade de aliviar a dissonância gerada.

O experimento da dissonância cognitiva

O experimento de dissonância cognitiva foi projetado por Leon Festinger e seu colega Merrill Carlsmith em 1957. Ele foi realizado com estudantes e consistiu nas seguintes etapas:

  • Tarefas entediantes eram atribuídas somente a um estudante. Essas tarefas eram repetitivas, não despertando quase nenhum interesse. No entanto, o objetivo do experimento não era avaliar a execução dessas tarefas.
  • Em seguida, quando o aluno saía da sala, deveria convencer o próximo participante de que o experimento era divertido. Em suma, eles eram induzidos a mentir.
  • Era oferecida uma recompensa pela mentira. A metade dos estudantes recebeu vinte dólares para mentir, enquanto a outra metade apenas um dólar.
  • A pessoa que estava esperando para entrar no experimento (cúmplice dele) dizia aos estudantes que saíam que um amigo havia feito o experimento na semana anterior e que parecia entediante.
  • Os estudantes mentiam enquanto eram observados. A forma como justificavam essa mentira foi anotada.

A dissonância cognitiva ocorreu naqueles estudantes que concordaram em mentir em troca de um dólar. Eles tiveram que convencer  a si mesmos de que esse experimento foi divertido para aliviar o conflito gerado.

Por quê? Porque a recompensa não foi boa o suficiente para “se sentir confortável” com a mentira.

Quando se tratava de justificar as suas ações, eles pareciam especialmente tensos em comparação com o grupo que recebeu vinte dólares. Estes o faziam de forma mais natural e despreocupada.

O conflito da mentira

O experimento de dissonância cognitiva nos deixa várias conclusões. O grupo de recompensas de vinte dólares sabia perfeitamente bem que o experimento era entediante. Da mesma forma, o referido grupo também teve a justificativa necessária para dizer o contrário.

No entanto, não foi assim com o grupo de um dólar, onde pudemos ver como os sujeitos convenceram a si mesmos para aliviar a tensão gerada por uma recompensa insuficiente.

Conclusão do experimento

Na etapa final, depois de mentir, o pesquisador principal perguntava aos participantes se eles realmente achavam que o experimento era divertido. No entanto, no grupo de vinte dólares, os participantes expressaram sinceramente que o experimento não foi muito divertido.

Paradoxalmente, o grupo que teve que ser convencido pela inconsistência da recompensa reafirmou a mentira, e muitos disseram que participariam do experimento novamente.

Resultados da dissonância cognitiva

  • Evitação: as pessoas tendem a evitar qualquer estímulo que as faça retornar ao estado de dissonância original. Evitam situações, pessoas, ideias e lugares que os confrontem novamente com o conflito.
  • Busca de aprovação: como consequência das estratégias implantadas, busca-se a aprovação da história pelos demais ou as razões pelas quais o sujeito convence a si mesmo para justificar as suas ações.
  • Comparação: aqueles que sofrem de dissonância tendem a se comparar com outras pessoas para justificar o seu comportamento.

“O crente deve ter apoio social de outros crentes”.
– Leon Festinger –

Mulher enfrentando dissonância cognitiva

A dissonância cognitiva atualmente

Sessenta anos se passaram desde o experimento e ainda hoje a dissonância continua a levantar questões e debates. Ela foi proposta, por exemplo, como uma justificativa para os métodos de defesa que aparecem em várias patologias psicológicas.

Por sua vez, também tem sido utilizada na análise psicossocial de criminosos e pessoas que justificam as suas ações se escondendo no grupo ou seguindo ordens.

O poder do convencimento: o alívio da culpa

Além disso, o experimento também questiona a tendência do ser humano em encontrar alívio psicológico e mental. O contraste entre as normas sociais e as decisões do dia a dia nos faz passar por esse estado desagradável com mais frequência do que gostaríamos.

O problema aparece quando, por essa ânsia de nos libertar da tensão, acabamos gerando comportamentos desadaptativos.

Além disso, conhecer a dissonância poderá nos ajudar a identificá-la quando a sofremos. Poderá também nos ajudar a medir a influência que as informações que obtemos do nosso grupo de referência têm sobre nós, e observar como as normas que as constituem condicionam o nosso modo de agir, pensar ou sentir.

Finalmente, devemos ressaltar que a dissonância cognitiva nos confronta com os nossos valores, fazendo com que ocasionalmente os atualizemos, ou atualizemos o nosso modo de agir.

  • Tavris, C. y Aronson, E. (2007). Mistakes Were Made (But Not by Me): Why We Justify Foolish Beliefs, Bad Decisions, and Hurtful Acts. Harcourt Books.