Medard Boss e a filosofia Dasein

agosto 30, 2019
Medard Boss foi um importante psiquiatra e psicanalista do século XX. Influenciado profundamente pelo pensamento filosófico de Heidegger, estava convencido de que existia um "algo" existencial.

Medard Boss foi um psiquiatra e psicanalista suíço que desenvolveu uma forma de psicoterapia com base na filosofia Dasein. Esse tipo de análise ligava a prática psicoterapêutica da psicanálise à filosofia existencial fenomenológica de seu amigo e mentor Martin Heidegger.

O termo Dasein, usado principalmente na filosofia, vem do alemão e significa “estar aí”. Este termo filosófico foi utilizado por vários autores alemães, mas está mais associado a Heidegger.

A ideia de combinar psicologia e filosofia pode parecer contrária à ideia da psicologia como ciência. No entanto, não devemos esquecer que o papel da filosofia foi fundamental para o posterior desenvolvimento da ciência.

Nesse sentido, a psicologia não deixa de ser uma ciência da mente que viu suas origens na teoria do conhecimento. Por sua vez, a relação entre a mente e as ideias é extremamente importante para o estudo psicológico.

A seguir, revelamos como a filosofia Dasein influenciou profundamente a psicologia e os estudos de Medard Boss.

O início da vida de Medard Boss

Medard Boss nasceu em St. Gallen, na Suíça, em 4 de outubro de 1903, mas cresceu em Zurique. Naquela época, os estudos psicológicos estavam em pleno desenvolvimento.

Recebeu seu diploma de médico em 1928, tirando um tempo para estudar em Paris e Viena e ser analisado pelo próprio Sigmund Freud. Mais tarde, ele continuou a análise através de sessões com o psicanalista suíço Hans Behn Eschenburg.

Após seu retorno a Zurique, continuou sua formação no Hospital Burghölzli, sob a supervisão do psiquiatra Eugen Bleuler. Mais tarde, fez um treinamento psicanalítico formal no Instituto Psicanalítico de Berlim (BPI), onde sua analista supervisora ​​era Karen Horney.

No BPI, estudou com Hanns Sachs, Otto Fenichel, Wilhelm Reich e Kurt Goldstein.

Medard Boss e Carl Jung

Maturidade profissional

Mais tarde, mudou-se para Londres, onde trabalhou com Ernest Jones durante seis meses no Hospital Nacional de Doenças Nervosas.

A partir de 1938, novamente em Zurique, Carl Gustav Jung convidou Boss para participar de um curso com outros médicos para estudar psicologia analítica. Essa experiência com Jung durou quase dez anos e ajudou Boss a ver que a psicanálise não deveria se limitar às interpretações freudianas.

Foi durante os anos 30 que Boss também conheceu Ludwig Binswanger. Através de Binswanger, Boss entrou em contato com o trabalho do filósofo Martin Heidegger, que desempenharia um papel crucial no desenvolvimento futuro da sua carreira.

Graças à influência de Heidegger, Boss se converteria para sempre à psicologia existencial. Seu impacto na terapia existencial foi tão grande que ele costuma ser mencionado junto com Ludwig Binswanger como seu cofundador.

Após quatro anos no hospital de Burgholzli, ele continuou seus estudos entre Berlim e Londres. Na Alemanha e na Inglaterra, seus professores incluíam várias pessoas no círculo íntimo de Freud, como Karen Horney e Kurt Goldstein.

A teoria com base na filosofia Dasein

Para Boss, o ponto existencial do mundo não é algo que interpretamos, é algo que existe além de toda interpretação. Assim, sua teoria apontava para esse algo que é revelado à “luz” do Dasein.

Essencialmente, Boss acreditava que o Dasein era um meio de abrir a mente, de trazer luz para uma situação. O simbolismo da luz desempenhou um papel importante no trabalho de Boss: “sair da escuridão”, “iluminar uma ideia” e, finalmente, “iluminação”.

Boss também afirmou que o humor desempenhava um papel decisivo na maneira como as pessoas reagiam ao seu ambiente. Uma pessoa com raiva, por exemplo, estaria sintonizada principalmente com elementos que criariam sentimentos de raiva.

O pensamento e a prática médica de Medard Boss foram influenciados por suas viagens para a Índia em 1956, 1958 e 1966. Lá, ele interagiu com o erudito indiano Swami Gobind Kaul.

Medard Boss e Heidegger

Boss e os sonhos

Boss estudou os sonhos mais do que qualquer outro existencialista e os considera importantes na terapia. No entanto, em vez de interpretá-los como fazem os freudianos ou os junguianos, ele permite que eles revelem seus próprios significados.

Assim, Boss postulou que os sonhos criavam suas próprias mensagens em vez de mostrar símbolos de sentimentos mais profundos.

De acordo com Boss, os sonhos mostram como estamos iluminando nossas vidas. Ou seja, se nos sentirmos presos, nossos pés estarão atados no sonho; se nos sentirmos livres, voaremos.

Em 1971, ele foi premiado com o Grande Prêmio Terapeuta, concedido pela Associação Americana de Psicologia. Por quase duas décadas ele presidiu a Sociedade Internacional de Psicoterapia Médica.

Os livros de Boss incluem Fundamentos Existenciais de Medicina e Psicologia, Psicanálise e Análise de Dasein e A Análise dos Sonhos. Medard Boss morreu em 1990, após uma vida cheia de sucessos acadêmicos e um interessante legado para a psicologia.

  • Jenner, F. A. (2006). Medard Boss’ Phenomenologically Based Psychopathology. In Phenomenology and Psychological Science (pp. 147-168). Springer, New York, NY.
  • Dolias, L. (2010). Bad dreams are made of this: Looking at distressing dreams in light of Heidegger’s Befindlichkeit and boss’ dream theories. Existential Analysis, 21(2), 238-251.
  • Boothby, R. (1993). Heideggerian Psychiatry? The Freudian Unconscious in Medard Boss and Jacques Lacan. Journal of Phenomenological Psychology, 24(2), 144-160.
  • Jonckheere, P. (2004). El cuerpo rehen de si mismo. Aspectos fenomenológicos de la anorexia mental. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, 7(2), 11-28.