Modelos neurais da linguagem

outubro 18, 2019
De um modo geral, dizemos que a linguagem é uma responsabilidade do nosso hemisfério esquerdo. Isso significa que só uma parte do cérebro está encarregada da linguagem?

A linguagem é um instrumento usado pelo ser humano para se comunicar e pensar. Está representada em diversas áreas do cérebro. Assim, as lesões cerebrais que afetam essas regiões podem provocar alterações da linguagem. É por isso que muitos autores se interessaram em estudar os modelos neurais da linguagem.

Algumas funções do cérebro, entre elas a linguagem, não se concentram em apenas um lugar do cérebro. Para que a linguagem seja produzida, ocorre a intervenção de todo um grupo de regiões corticais e subcorticais.

Cada uma dessas regiões leva ao resultado final, que será a produção e o desenvolvimento da linguagem.

Dessa maneira, se um componente for lesionado, todo o sistema será afetado. Os componentes principais da linguagem se encontram no hemisfério dominante (esquerdo) (1).

Assim, em relação aos modelos neurais da linguagem, podemos distinguir entre os modelos neurais clássicos da linguagem e os novos modelos da linguagem.

Antigos modelos neurais da linguagem

Em 1836, um médico francês chamado Marx Dax expôs seu trabalho científico no congresso da Sociedade Médica de Montpellier. Seu trabalho tratou sobre a relação existente entre os pacientes com afasias e as lesões produzidas no hemisfério esquerdo.

Foi assim que se chegou à conclusão de que a linguagem se encontra lateralizada (hemisfério esquerdo).

Hemisférios cerebrais

Um pouco mais tarde, o anatomista, médico e antropólogo Paul Broca deu sua contribuição para esse fato. O doutor apresentou um paciente com lesões no lobo frontal do hemisfério esquerdo. Este paciente apresentava problemas na produção da linguagem.

Outro neurologista reconhecido por seus trabalhos relativos ao desenvolvimento dos modelos neurais da linguagem foi Wernicke. Em 1874, este neurologista e psiquiatra descobriu uma relação entre a lesão na primeira circunvolução temporal esquerda (a área de Wernicke) e a perda da compreensão da linguagem.

Alguns anos depois, o neurologista norte-americano Norman Geschwind propôs um modelo neoconexionista. O cientista propôs, por um lado, que a habilidade linguística de nomear objetos envolve a confluência de representações semânticas de várias modalidades.

Por sua vez, observa que o lobo parietal inferior possui propriedades exclusivas à espécie humana. Sua conclusão é de que o lugar da habilidade de nomear objetos se encontra no lobo parietal inferior. (2)

Além disso, o neurocientista Roger Sperry, ganhador do Prêmio Nobel de Medicina por seus experimentos de lateralização cerebral, também trouxe contribuições para essa mudança.

Em sua pesquisa, Sperry demonstrou que os hemisférios são especializados. Ele também ressaltou o papel do corpo caloso na integração funcional. A partir dessas pesquisas, foi possível deduzir que a maior parte da população possui a linguagem localizada no hemisfério esquerdo.

Novos modelos neurais da linguagem

Conforme a pesquisa foi avançando, pareceu cada vez mais claro que a linguagem era um sistema complexo. O modelo clássico centrava a importância nas áreas cruciais de Broca, Wernicke, no giro angular e no fascículo arqueado.

Por outro lado, os modelos atuais compreendem um processamento da linguagem em diferentes níveis e segundo fluxos organizados em “vias”.

Modelo do processamento da linguagem de fluxo dual

Esse modelo é composto por um input (via ventral) e um output (via dorsal). Dessa maneira, a via ventral seria responsável por:

  • Analisar o som.
  • Determinar a origem.
  • Identificar o som e reconhecer a palavra com o léxico disponível.
  • Conectar a palavra conceitualmente (com o que sabemos dela).
  • Dar forma à palavra. Combinar elementos para gerar a estrutura (por exemplo: plurais).

Por sua vez, o output ou a via dorsal consistiria em:

Modelos neurais da linguagem

Neuroanatomia funcional da linguagem

A linguagem se encontra não apenas em um, mas em vários dos lobos do cérebro. Assim, cada lobo registra a informação em diferentes regiões seguindo uma estrutura de gradiente: primeiro, registra-se a informação fonológica nas áreas dorsais; depois, a informação sintática, e as representações semânticas na parte mais ventral.

Por sua vez, o lobo temporal é responsável por armazenar novas palavras e recuperar as palavras armazenadas. O lobo parietal é responsável pelo processamento mais analítico. O lobo frontal tem uma importante função sintetizadora, responsável pela compreensão e pela expressão.

Por fim, destacamos que, quando ocorre uma alteração na capacidade de utilizar a linguagem previamente adquirida, falamos de afasia.

Dessa forma, parece claro que, embora a linguagem esteja lateralizada no hemisfério esquerdo, para produzir, desenvolver e compreender a linguagem é preciso utilizar várias partes do nosso cérebro.

O resultado (a linguagem) ocorre graças à integração de várias áreas, todas elas essenciais para a correta produção e compreensão da mesma.

  • González, R., & Hornauer-Hughes, A. (2014). Cerebro y lenguaje. Revista Hospital Clínico Universidad de Chile, 25, 143-153.
  • García, A. M. (2012). La Teoría de Redes Relacionales: Correlatos neurológicos de un modelo lingüístico conexionista. Onomázein: Revista de lingüística, filología y traducción de la Pontificia Universidad Católica de Chile, (26), 221-257.
  • Castaño, J. (2003). Bases neurobiológicas del lenguaje y sus alteraciones. Rev Neurol, 36(8), 781-5.