Mostrar e demonstrar nas redes sociais

setembro 22, 2019
Se dermos muita importância a mostrar e demonstrar nas redes sociais, vamos acabar construindo um personagem virtual que pouco se parece com a pessoa que realmente somos. Quais são as consequências? Um maior risco de frustrações e uma identidade confusa.

O mundo virtual é um âmbito que nos convida a construir um ou vários personagens para interagir com os demais. Mostrar e demonstrar nas redes sociais é o pão de cada dia.

Estes espaços, em particular, são como uma vitrine que cada um decora de acordo com o seu gosto para representar um papel: o da pessoa que ela quer ser.

O oposto ao virtual não é o real, e sim o presente. Não há presença material de pessoas na internet. De uma forma ou de outra, cada um é livre para ocultar ou demonstrar somente o que deseja.

Isso também acontece na vida presencial, mas não pode ir tão longe como na internet. Quase qualquer coisa pode ser mostrada e demonstrada nas redes sociais.

Isto, que a princípio poderia ser imaginativo e lúdico, facilmente se transforma em um assunto problemático. Isso acontece porque, ao demonstrar que somos um determinado tipo de pessoa, também construímos vínculos sobre esta base e acabamos confundindo o que acontece na internet com a nossa identidade real.

“No passado, você era o que você tinha; agora, você é o que compartilha”.
– Godfried Bogaard-

O vício em redes sociais

É possível mostrar tudo nas redes sociais

A virtualidade tem uma característica que facilita uma certa falsificação da identidade. É possível dizer qualquer coisa para qualquer pessoa que estiver ali, em tempo real.

No entanto, essa pessoa não tem como comprovar se o que estamos dizendo é verdade. Acontece a mesma coisa com as publicações que fazemos.

Uma coisa é mostrar e demonstrar nas redes sociais e outra muito diferente é fazer isso no mundo real. A realidade virtual não permite acesso ao contexto no qual uma pessoa se encontra. Também não permite contrastar efetivamente o que alguém diz com a nossa própria percepção de realidade.

Assim, todas as condições são dadas para que o jogo da identidade se mova em uma estrutura extremamente flexível. Não nos damos conta, mas acabamos colocando em cena um personagem que representa o nosso eu ideal. Acabamos nutrindo e enriquecendo essa representação que criamos.

Aprovação e admiração

A identidade que construímos nas redes sociais e para as redes sociais tem os traços que valorizamos como “os melhores”. Recebemos uma retroalimentação com cada publicação que fazemos.

Algumas obtêm mais “likes” e outras passam despercebidas. Isso gera em nós um aprendizado que nos faz identificar o que é mais aprovado e admirado pela nossa rede de “amizades”.

Mostrar e demonstrar nas redes sociais também é uma forma de competir com os demais no “mercado social”. Quem está muito imerso nesse mundo virtual também sente que pode julgar os demais, às vezes demonstrando uma severidade que assusta. Dessa forma, são forjados vínculos muito artificiais e frágeis.

A aprovação e a admiração professadas nas redes sociais não são as que nascem do reconhecimento genuíno. Elas têm mais a ver com a soma de “likes” e a quantidade de seguidores de cada um.

É assim que nascem muitos “influenciadores”. Eles são os mais bem cotados nesse mercado da personalidade. Todos eles são facilmente substituíveis ou endossáveis.

A falsidade das redes sociais

O autoengano é o verdadeiro problema

As redes sociais são feitas por e para gerar ganância. Por si mesmas, eles não são ruins ou boas. No entanto, trata-se de um terreno fértil para que o efeito da pressão do grupo aumente e para “tendências” que nem sempre são construtivas ou enriquecedoras para as pessoas e para as sociedades.

As redes sociais também são espaços propícios para trivializar o relevante. Vemos que elas separam mais do que unem. Fomentam microditaduras de opinião, e para aqueles que não se sentem seguros de si mesmos ou não formaram um critério independente frente à realidade, levam à construção de identidades enganosas e inclusive fraudulentas.

Da mesma forma, exercem um grande poder de condicionamento. Mostrar e demonstrar nas redes sociais pode se tornar uma ação na qual mais expectativas e mais sentimentos são comprometidos.

Passar despercebido após fazer alguma publicação frustra algumas pessoas. E, por mais contraditório que pareça, é algo que também isola: de si mesmo e do entorno real.

Opinar e compartilhar nestes espaços é só uma das múltiplas formas que temos de estabelecer um vínculo com os demais. Se nos deixamos absorver pelas redes sociais, acabamos desfigurando quem somos e perdendo a valiosa oportunidade de ter experiências mais profundas de amizade, camaradagem e expressão do nosso ser.

  • Ruiz, V. R., Oberst, U., & Carbonell-Sánchez, X. (2013). Construcción de la identidad a través de las redes sociales online: una mirada desde el construccionismo social. Anuario de psicología, 43(2), 159-170.