Você sabe o que é murderabilia?

outubro 31, 2019
O mercado da morte e o fascínio pelos assassinos em série criaram uma legião de fãs e colecionadores de objetos relacionados com ocorrências trágicas. Hoje, falaremos sobre a murderabilia.

O novo filme de Quentin Tarantino voltou a aumentar o hype pela história dos assassinatos perpetrados pela seita de Charles Manson. Trata-se de uma ocorrência que emocionou Hollywood e que continua a fascinar os espectadores. Neste sentido, deu origem a uma infinidade de teorias que, com frequência, têm um denominador comum: uma morbidez nauseante sobre as condições da morte de Sharon Tate. Assim, nos referimos a um caso que disparou o frenesi sobre a murderabilia, tema principal deste artigo.

Felizmente, um Tarantino mais brilhante e maduro do que nunca soube como lidar com a situação. Ele transmitiu nas telonas toda a alegria e talento que a atriz tinha com seus amigos e em seu trabalho antes do seu assassinato. Com isso, conseguiu que a lembrança dela fosse associada a sua vitalidade, e não a sua morte trágica. As doses de sangue e violência são reservadas para quem merece (não vamos contar mais do que isso).

O mercado da morte e o fascínio pelos assassinos em série criaram uma legião de fãs e colecionadores de objetos relacionados com ocorrências trágicas. É o que conhecemos como murderabilia.

Assassinos em série

O que é murderabilia?

A murderabilia é a prática de colecionar objetos estreitamente relacionados com assassinos em série. Os documentários e outras obras que falam sobre a vida dos assassinos inundam as nossas telas e fascinam os espectadores. Alguns chegam inclusive a adorar estas figuras do crime.

As pessoas ficam fascinadas pelo macabro, pelo lado obscuro do homem. Há toda uma indústria baseada em uma palavra: assassinato. Para as famílias das vítimas ou sobreviventes, ver alguém adquirindo objetos da pessoa responsável pelos crimes é nauseante. Vivemos em uma sociedade capitalista, mas não deveria ser possível ganhar dinheiro com esse tipo de ocorrência.

Os vendedores se defendem com base na liberdade de expressão, ou melhor, liberdade de mercado. Para eles, se os produtos são vendidos, é porque há uma demanda a satisfazer.

O resultado de todo esse negócio é que os assassinos macabros passam a ser estrelas. Infelizmente, os corpos das pessoas assassinadas – especialmente se forem casos de mulheres estupradas e assassinadas – ficam para sempre estigmatizados e encabeçam relatos de terror para outras gerações de jovens.

O conteúdo dos assassinos, um conteúdo medíocre

As obras artísticas dos assassinos e criminosos norte-americanos mais “reconhecidos” costumam ser ordinárias e entediantes. Demonstram uma notável falta de espuma mental. Sua falta de arte diz mais sobre nós do que sobre eles. Como audiência, não estamos preparados para a mediocridade dos monstros. Para nós, o trabalho real empalidece ao lado da lenda.

As pinturas de John Wayne Gacy, por exemplo, não valeriam a pena se não tivessem nenhum vínculo claro com alguém tão notório. Ninguém as compra pela beleza da imagem.

A murderabilia parece similar ao nosso apetite quase religioso pelas lembranças da morte, desde as relíquias dos santos até o terrível eco das execuções públicas.

Onde surge a murderabilia?

Esse tipo de coleção pode ser uma “ponte” potencial entre a “pessoa comum” e o “assassino infame, insensível e antissocial”. A arte se transforma em um artefato da consciência, normalmente tão fugaz, através da qual é possível revelar o material reprimido, a escuridão de nossas vidas.

Em outras palavras, a arte pode servir como uma espécie de espelho entre artista e observador.

É verdade que esta teoria oferece uma das perspectivas mais animadoras. Supõe que o conteúdo encapsulado ou separado da mente de um assassino pode ser articulado significativamente através de um meio que não seja violento.

Por outro lado, a arte, cinema ou documentários nos colocam em contato com estes crimes e com a violência, despertando e, ao mesmo tempo, acalmando a nossa curiosidade.

O fascínio por esse tipo de história até chegar à murderabilia percorreu um longo caminho desde a normalidade do espectador até um encanto pessoal por um assassino ou crime.

Por que alguém compraria objetos de um assassino?

Os objetos do assassino podem simplesmente evocar associações positivas na mente do colecionador, transportando-o a um universo mental desejável. Naqueles para quem as notícias sangrentas são uma forma impessoal de “entretenimento”, isso poderia explicar a atração pelos assassinatos.

Os colecionadores também podem ser motivados por um raciocínio essencialista e por noções de contágio. Esperam que as características que atribuem às celebridades, boas ou ruins, de alguma maneira possam se contagiar uma vez que tenham adquirido estes objetos.

Em última instância, ao incorporar estes itens eles teriam um acesso específico à celebridade.

O que os colecionadores de murderabilia compram?

O perigo deste fascínio pela figura do assassino é a perversão da simpatia da murderabilia com elementos extraídos da vida de um assassino em série, desde mechas de cabelo até obras de arte originais.

Alguns dos objetos mais caros comprados pelos amantes da murderabilia são os envelopes BTK, o autógrafo de Albert Fish, as fotos dos irmãos Kray, a crina do cavalo de Jack Ruby, o cartão de Natal de Ted Bundy, uma mecha de cabelo de Charles Manson, o Ford Sedan de Ed Gein, e as ilustrações de John Wayne Gacy.

Os artigos que Ted Kaczynski deixou quando foi preso em 1996 constituem o leilão de assassinatos de mais alto perfil até hoje. Os itens à venda no leilão online de 2011 incluíram um moletom com capuz de Kaczynski, seus óculos escuros, uma máquina de escrever Smith Corona, a serra de madeira com arco na mão, as cartas a sua tia Frida e seu manifesto escrito à mão.

Embora Ted Kaczynski, conhecido como ‘Unabomber’, tenha sido um assassino como os outros, sua inteligência brilhante e os pontos de seu manifesto fazem com que os colecionadores se sintam muito mais atraídos por este personagem do que pelos assassinos em série cruéis e sanguinários.

Unabomber

Diferenças entre os sexos

As mulheres se sentem mais atraídas pelas histórias de estupros, sequestros e assassinatos. Os homens, se tiverem a opção, preferem histórias de guerra.

Além disso, quando os crimes são detalhados com precisão, eles são preferidos em comparação com histórias nas quais as perguntas escabrosas são tratadas de maneira mais evasiva.

Isso pode ser entendido confiando no fato de que, embora os homens sejam estatisticamente mais propensos a ser vítimas de delitos violentos, as mulheres têm mais medo de ser vítimas de estupros.

Quanto aos groupies de assassinos em série, as mulheres quase sempre estão envolvidas. Alguns investigadores argumentaram que estas obsessões femininas por homens atrozmente violentos podem ser explicadas como uma estratégia evolutiva anacrônica; pelo menos em nosso passado ancestral, a violência caracterizava os machos mais valorizados.

Finalmente, existe outra teoria. Uma mulher se sentiria atraída por um homem incapaz de curar suas feridas da infância, para que ela pudesse se mostrar capaz de fazer isso, como se fosse perfeita para “acalmar a fera” e curar “o menino maltratado”.