Não quero que você me ame muito, quero que você me ame "direito"

Não quero que você me ame muito, quero que você me ame “direito”

7, maio 2017 em Emoções 2263 Compartilhados
Não quero que você me ame muito, quero que você me ame "direito"

Gostar muito, mesmo que seja difícil de acreditar, nem sempre é sinônimo de gostar direito, porque a quantidade, às vezes, não anda de mãos dadas com a verdadeira qualidade afetiva e de relacionamento. O amor não basta quando o respeito não se alcança, e nem tudo vale nem tudo deve ser perdoado em nome de uma paixão às vezes destrutiva.

Aaron T. Beck, um dos psiquiatras com maior peso dentro da terapia psicológica cognitivo-comportamental, explica isto no seu livro “O amor não basta”. Em cada uma de suas páginas podemos ver o reflexo de muitos de nossos próprios pensamentos e comportamentos: resumidamente, a maioria de nós continua preso à eterna ideia de que o amor tudo pode, que é uma energia incombustível que tudo cura e tudo resolve.

“O amor autêntico torna possível o paradoxo de dois que se tornam um sem deixar de ser dois.”
-Erich Fromm-

De fato, reconhecer que não é suficiente sermos “muito amados” para sermos realmente felizes é uma coisa bastante desanimadora, sem sombra de dúvida. Contudo, acontece a mesma coisa em outras áreas: o talento também não basta para alcançar o sucesso, nem o dinheiro é a chave e a ponte direta para a tão ansiada e sonhada felicidade.

A vida é cheia de nuances que às vezes nos desesperam e outras nos desorientam, e com frequência nos colocam em um estado de impotência absoluta. Amar muito nem sempre é reflexo de amar bem. Isto é uma coisa que precisamos entender o quanto antes para saber reagir, para deixar de lado tristes idealizações e sermos capazes de construir relacionamentos mais fortes, realizadores e maduros.

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Quando amamos muito, mas amamos errado

Muitos de nós escolhemos determinados parceiros porque dizemos a nós mesmos que “é a pessoa certa, a que me convém, a que pode me fazer feliz”. Contudo, a realidade é bem diferente, porque como a maioria de nós sabe, ninguém “escolhe” por quem se apaixona; o amor, como a paixão, não se escolhe. Chega e arrasa.

Pouco a pouco mergulhamos em um turbilhão de emoções, sensações e idealizações que tornam esse relacionamento uma coisa quase celestial, e dizemos a nós mesmos e aos outros que “nosso amor é mágico, avassalador e sem fissuras”. Quase sem perceber, vem a abnegação onde não existem fronteiras, somente o “vivo só para você” e a codependência feliz onde nos amamos muito, e onde o seu e o meu fica aniquilado para dar forma a um “nosso”, onde se dissolvem as próprias identidades.

É preciso considerar que esses amores supostamente celestiais, que não conhecem condições, são os mais perigosos. Porque o amor verdadeiro é terreno e precisa de condições, quer limites e fronteiras para proteger, quer espaços privados para respeitar e equilíbrio para manter em adequada harmonia.

Quando o amor se dá em excesso, pode se tornar tirano e podem surgir as seguintes dinâmicas que detalhamos abaixo:

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As 4 armadilhas do amor dependente e do amor nocivo

Os amores codependentes levam, cedo ou tarde, a uma série de práticas que precisamos saber reconhecer não apenas para saber nos defender delas, mas também para evitar praticá-las nós mesmos.

  • A armadilha do “tudo ou nada”. Amar muito e amar errado nos transforma, sem percebermos, em extorsionistas profissionais. A dedicação mútua (para muitos) precisa ser total e absoluta.
  • A armadilha do “deveria”. Sempre chega a hora em que um dos membros (ou mesmo os dois) começam a cair na obsessão de pensar constantemente no que a outra pessoa “deveria fazer e não faz”. Se não faz isto é porque não gosta de mim de verdade, seu eu faço aquilo ele deveria fazê-lo também por mim.
  • A armadilha da culpa. Esta estratégia é, sem dúvida, uma das mais comuns nestas teias de aranha dos relacionamentos. Projetar o sentimento de culpa no outro para fazê-lo se sentir mal e “descuidar” do outro ou machucá-lo sem perceber é algo muito comum.
  • A armadilha da imaginação catastrófica. O amor obsessivo, dependente e tóxico é muito propenso a imaginar coisas sem fundamento e a desconfiar. O seu receio de ser traído ou enganado pode se transformar em uma coisa persistente.

Me ame livre, mas com você

Existem pais e mães que adoram seus filhos, que os amam com loucura, com abnegada devoção e sem medida… Os amam muito, mas os amam do jeito errado. São amores asfixiantes que cerceiam asas, que frustram infâncias, apagam sonhos e inclusive a capacidade de alcançar uma maturidade segura e feliz.

“Quem sabe amar de verdade sempre ganha.”
-Hermann Hesse-

Nos casais acontece a mesma coisa. Não é preciso morrer de amor, nem sofrer por ele, não devemos permitir que abdique do nosso eu ou da nossa própria autoestima em favor do outro. Precisamos ser exigentes e dizer coisas como “não quero que você me ame muito, quero que você me ame BEM”.

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Por outro lado, uma coisa da qual todos nós somos conscientes é que poucas coisas são tão importantes e emocionantes quanto se sentir amado sem limites e de forma desmedida. É uma forma de reafirmar o “eu”, de se sentir injetado por uma energia transbordante que nos emociona e nos envolve. Contudo, precisamos ser cautelosos e manter sempre a cabeça fria, porque o amor tem limites e estes estabelecem a sua integridade, a sua dignidade e a sua felicidade.

Se em algum momento um desses pilares se tornar vulnerável, é hora de sair dessa jaula de barrotes dourados.

Imagens cortesia de Kenn Kim.

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