Os neurônios das pessoas inteligentes são maiores

23 Março, 2021
De acordo com um estudo recente, os neurônios de pessoas inteligentes são maiores e têm mais conexões entre eles. Isso facilita a transmissão de informações com muito mais rapidez.

O tamanho do cérebro está relacionado ao QI? Até o momento essa hipótese não foi testada, mas a ciência revelou um fato que é, no mínimo, interessante. Agora, sabemos que os neurônios das pessoas inteligentes são maiores. Isso facilita a transmissão de informações com mais rapidez e o fluxo de ideias com maior agilidade.

Esses dados, por mais curiosos que pareçam, continuam a irritar uma parte da comunidade acadêmica. De alguma forma, relacionar “volumes” com “desempenho intelectual” parece um tanto reducionista e até simplista. Porque, no final das contas, a inteligência ainda é muito complexa para avaliar e até definir.

Apesar disso, os dados estão aí. Cientistas do chamado Human Brain Project descobriram que existe uma relação direta entre o tamanho das células cerebrais e o nível de competência cognitiva das pessoas. Isso também abre novas possibilidades, como expandir o limite da inteligência humana em laboratório.

Transmissão de informações entre neurônios

De acordo com a ciência, os neurônios de pessoas inteligentes são maiores

O estudo liderado pela Dra. Natalia Goriounova, da Universidade Livre de Amsterdã, foi o primeiro a mostrar que o tamanho das células cerebrais está diretamente relacionado aos níveis de inteligência de uma pessoa. Diante de uma maior densidade e conectividade, o potencial intelectual é mais significativo.

Até hoje, sabíamos que o cérebro possui cerca de 100 bilhões de neurônios e que cada um deles coleta, processa e envia informações graças a uma série de reações químicas e sinais elétricos. Conhecíamos sua mecânica, mas não tínhamos dados sólidos para associar o volume das células cerebrais ao desempenho cognitivo.

Tínhamos, por exemplo, dados da análise do cérebro de Albert Einstein, depois que o patologista Thomas Harvey o roubou após sua autópsia em 1955. Essa análise revelou, entre outros dados, que o seu córtex pré-frontal, responsável pela cognição espacial e pensamento matemático, era mais desenvolvido.

Além disso, as células gliais do pai da teoria da relatividade eram maiores do que a média. Portanto, de alguma forma, já tínhamos algumas pequenas pistas que antecipavam esses resultados…

Córtex frontal e lobos temporais: maior volume de neurônios

As análises obtidas no trabalho da Universidade de Amsterdã mostraram não só que os neurônios das pessoas inteligentes são maiores, mas também indicaram que as áreas onde se encontram grande parte das células cerebrais (córtex pré-frontal e lobos temporais) também apresentam uma maior ramificação.

Ou seja, eles não apenas apresentam um maior volume, mas também uma conectividade maior com muito mais neurônios ao seu redor. Tudo isso configura um cérebro com mais sinapses, em que a informação flui mais rapidamente. Da mesma forma, conforme evidenciado pelo cérebro de Einstein, tanto o córtex frontal quanto os lobos temporais têm uma maior densidade e tamanho nas pessoas mais inteligentes.

Por que os neurônios de pessoas inteligentes são maiores?

Olhando para esses dados, a pergunta que vem à mente é óbvia: por que os neurônios de pessoas inteligentes são maiores? Alguma coisa em particular é feita para ter um volume acima da média? Talvez algo semelhante ao tecido muscular? Ou seja, quanto mais você o exercita, maior ele fica?

O que o Human Brain Project aponta é que essa particularidade responde a fatores e processos genéticos ainda não totalmente esclarecidos. Algo interessante que a Universidade Livre de Amsterdam fez é proceder a uma análise detalhada de cada neurônio em estado ativo, ou seja, ainda “vivo”.

Para isso, foi estudado um grupo de pessoas que necessitaram de cirurgia devido a um tumor ou complicações epilépticas. Antes da intervenção, eles fizeram um teste de inteligência para identificar aqueles com maiores habilidades intelectuais. Posteriormente, durante a intervenção, pequenas amostras do córtex pré-frontal e dos lobos temporais foram extraídas.

O que se viu, além do tamanho maior das próprias células, foi um potencial de ação muito maior (a onda de descarga elétrica que percorre a membrana celular, modificando-a). Em seguida, foi feita uma tentativa de entender o que aciona as células cerebrais maiores que aparecem nas pessoas mais inteligentes.

Os resultados ainda não foram publicados e não temos dados totalmente conclusivos até o momento.

Crianças estudando

Que implicações essa descoberta tem para o futuro?

Já nascemos inteligentes ou nos tornamos seres brilhantes graças aos estímulos e ao ambiente? Esta é a eterna pergunta que a ciência se fez ao longo das décadas. Hoje, sabemos que existem dois tipos de inteligência: a fluida e a cristalizada.

Assim, enquanto a primeira vem da base no nascimento, a segunda é o resultado do aprendizado e da experiência. No entanto, elas não são exclusivas e nenhuma tem um limite estabelecido. Sabendo disso, o que a descoberta citada supõe? Que implicação esse conhecimento teria?

Michele Giugliano, coautora e professora da Universidade de Antuérpia, aponta algo profético. Talvez, em um futuro próximo, possamos criar células cerebrais maiores com células-tronco embrionárias e pluripotentes. Graças a isso, alcançaríamos algo esperançoso, algo que vai além de ser mais inteligente. Poderíamos restaurar o material cerebral e reduzir o déficit cognitivo associado a lesões ou a demências. Ficaremos aguardando esses avanços e mais dados sobre o assunto.

  • Goriounova NA, Heyer DB, Wilbers R, Verhoog MB, Giugliano M, Verbist C, Obermayer J, Kerkhofs A, Smeding H, Verberne M, Idema S, Baayen JC, Pieneman AW, de Kock CP, Klein M, Mansvelder HD. Large and fast human pyramidal neurons associate with intelligence. Elife. 2018 Dec 18;7:e41714. doi: 10.7554/eLife.41714. PMID: 30561325; PMCID: PMC6363383.