Neurônios do intestino: funções e como se relacionam com o cérebro

No intestino, existe um vasto ecossistema composto não apenas por bactérias decisivas. Em seu interior, existem 100 milhões de neurônios que realizam tarefas essenciais e estabelecem conexões diretas com o cérebro. Vamos analisá-los com mais detalhes.
Neurônios do intestino: funções e como se relacionam com o cérebro

Última atualização: 02 Janeiro, 2021

Costuma-se dizer que tudo o que acontece no corpo humano pode ser ainda mais fascinante do que o que acontece no cosmos. O cérebro, por exemplo, continua apresentando grandes e desafiadores enigmas. Outro exemplo pode ser o sistema entérico e os neurônios do intestino, capazes de mediar o humor e até mesmo a proteção da nossa saúde.

Para entender a relevância dessa parte do organismo que popularmente chamamos de “segundo cérebro”, basta destacar uma informação. O sistema nervoso intestinal possui até 5 vezes mais neurônios do que a medula espinhal. Essa rede neural extremamente complexa é o lar de quase 100 milhões de neurônios.

Além disso, o intestino colabora constantemente com o cérebro mediando funções importantes, como a produção de serotonina. No entanto, em relação a essa aliança entre um e outro, não podemos ignorar um terceiro ator: a microbiota intestinal, imprescindível nesse diálogo ainda tão cheio de questões e mistérios.

No entanto, hoje em dia já podemos responder a várias perguntas sobre essa colaboração decisiva entre o eixo cérebro-intestino. Vamos nos aprofundar um pouco mais nesse tema.

Intestino humano

Neurônios do intestino, mediadores do bem-estar e da saúde

Os neurônios do intestino cumprem funções digestivas, imunológicas, hormonais e metabólicas. Sua relevância é determinante tanto para a saúde biológica quanto para a saúde psicológica. Tanto que nos últimos anos descobrimos, por exemplo, uma relação entre certos transtornos depressivos e as alterações nesse vasto ecossistema intestinal.

Estudos, como os realizados na Universidade de Uskudar, em Istambul, destacam que tanto a rede neural intestinal quanto seus microrganismos são decisivos para a produção e a distribuição de substâncias neuroativas como a serotonina e o ácido gama-aminobutírico. Qualquer problema nessas funções pode afetar o humor.

Assim, conforme os cientistas voltam seus microscópios para esses mundos escondidos para a grande maioria, informações surpreendentes são desvendadas. Temos à nossa disposição uma complexa rede de neurônios no sistema intestinal que atuam em conjunto com o cérebro. Vamos ver mais algumas informações sobre esse assunto.

Por que temos neurônios no sistema entérico?

O sistema entérico abrange toda a área do esôfago, estômago, intestino delgado, cólon… Sabemos que todo o aparelho digestivo e principalmente os intestinos possuem uma rede neural muito ampla. Estudos como os publicados na revista Nature e realizados na Universidade de Harvard conseguiram mapear esses neurônios em modelos humanos e animais, para descobrir o seguinte:

  • Durante muito tempo, pensava-se que as células nervosas intestinais com as quais nascemos eram as mesmas com as quais morríamos. Agora sabemos que isso não é totalmente verdade. Uma parte dessas células intestinais se regenera.

Se agora nos perguntarmos por que os humanos têm um número tão grande de células nervosas, a resposta é simples. As células do intestino trabalham em colaboração com o cérebro para nos proteger de doenças, promover tarefas fundamentais como as tarefas digestivas, hormonais e metabólicas, e mediar, por sua vez, as emoções.

Quais são as funções dos neurônios do intestino?

Saber que o intestino conta com mais de 100 milhões de neurônios pode nos fazer pensar que, de fato, temos um segundo cérebro. No entanto, existem pequenos detalhes que devemos esclarecer. Este sistema neuronal no intestino não pensa, não raciocina, não resolve problemas matemáticos nem compõe poesia. No entanto, ele atua como um intermediário no nosso humor.

Entre as classes de células nervosas presentes no intestino estão os neurônios motores e os neurônios sensoriais. Da mesma forma, eles são agrupados em dois tipos de gânglios: plexos mioentéricos e plexos submucosos. Vamos analisar com mais detalhes.

1. Plexo submucoso ou de Meissner, estimulação de hormônios e enzimas

Essa rede de células nervosas se estende do esôfago chegando até o ânus. Suas principais funções são facilitar a secreção de hormônios, enzimas e todas as substâncias essenciais aos processos digestivos. Essa primeira rede realiza basicamente tarefas estimulantes.

2. Plexo Mioentérico ou de Auerbach, o laboratório químico do cérebro

O plexo de Auerbach é o mais relevante. O motivo? Esse grupo de neurônios do intestino é o que apresenta uma conexão direta com o sistema nervoso central. Essa área inclui desde neurônios aferentes ou sensoriais, interneurônios e neurônios motores.

As funções que realiza são as seguintes:

  • Regula os movimentos gastrointestinais.
  • Conecta-se com a vesícula, o pâncreas e até mesmo com os gânglios do sistema circulatório.
  • Os neurônios do intestino atuam como um verdadeiro laboratório químico. Eles estimulam a produção de serotonina, dopamina, opiáceos para a dor, etc.
  • Essa rede nervosa é capaz de detectar a presença de bactérias e estimular processos como a diarreia para eliminar a sua presença. Essas decisões são tomadas sem receber ordens do cérebro.
  • 70% das células do sistema imunológico vivem na área intestinal.
  • Também sabemos que os neurônios no intestino podem reagir ativando células do sistema imunológico quando detectam inflamação no tecido intestinal.
Nervos no intestino

Conexão entre o cérebro e as células do intestino

A comunicação entre o cérebro e as células do intestino é bidirecional. Ou seja, enviam e recebem informações mutuamente e fazem isso através de uma rede neural própria e específica, o que implica que essas mensagens cheguem de maneira quase imediata.

Um estudo recente realizado pelo Dr. Diego Bohórdez descobriu que essa comunicação é realizada através do nervo vago, que se conecta ao tronco encefálico. Esse processo é orquestrado graças ao glutamato, um tipo de neurotransmissor capaz de otimizar e acelerar a comunicação entre o intestino e o cérebro.

Por outro lado, também foi descoberto que essas mensagens são transmitidas a uma velocidade de 100 milissegundos, ou seja, muito mais rápido do que um simples piscar de olhos. Graças a essa comunicação, o cérebro pode mediar os processos digestivos, metabólicos, hormonais, etc.

Porém, há um detalhe interessante. As células do intestino enviam até 90% mais informações para o cérebro do que o contrário. Isso nos faz suspeitar de que o sistema entérico toma muitas decisões por conta própria. Os neurônios do intestino, juntamente com o microbioma, são o ponto-chave para nos proteger de muitas doenças, bem como para mediar o humor graças à sua produção de serotonina.

Para concluir, ainda não sabemos tudo sobre essa conexão cérebro-intestino. Também não há dados 100% conclusivos a respeito de como a microbiota intestinal consegue, por exemplo, condicionar o comportamento. Contudo, a cada dia mais dados são revelados e isso, sem dúvida, nos permitirá nos conhecer muito melhor para cuidar de nós mesmos como merecemos.

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