O desprezo: quando os outros nos ignoram

02 Junho, 2020
O desprezo é uma forma de eliminação simbólica. Pode ser direcionado a uma pessoa ou a um grupo social inteiro. É uma prática perversa que semeia um grande desconforto pessoal e social.

O desprezo é uma prática social que consiste em desqualificar outra pessoa por indiferença. A pessoa fala e é como se não dissesse nada. Pede algo e é como se não precisasse. Em outras palavras, é como se não existisse. Isso é desprezar: exibir comportamentos que fazem alguém entender que não é ninguém.

Deve-se dizer que o desprezo é uma forma de violência moral ou psicológica. Uma expressão de crueldade que algumas pessoas ou grupos acreditam ter o direito de demonstrar. É muito comum que a vítima dessa prática seja alguém em uma condição frágil ou então considerada inferior.

“Os heróis nascem da indiferença humana ao sofrimento dos outros”.
-Nicholas Welles-

O desprezo equivale à eliminação simbólica de alguém. É uma forma de lhe dar uma morte social. Há muitos casos na história em que esse assassinato simbólico precede o assassinato físico. Esse tipo de premissa torna-se a justificativa para a violência concreta, realizada contra pessoas ou grupos específicos.

Diferentes níveis

A desqualificação ou eliminação simbólica nem sempre tem o mesmo grau, nem a mesma intensidade. O desprezo se aplica a determinados sentimentos ou ideias, e também a pessoas como um todo. Além disso, pode atingir certos grupos sociais, como acontece com as diferentes formas de xenofobia ou discriminação.

Despreza-se uma ideia ao dizer, por exemplo: “o que você diz está totalmente errado” ou “pensar assim é um erro“, ou então “essa maneira de pensar é estúpida“. A questão é: quem tem a real autoridade para desqualificar radicalmente o que o outro pensa? O que pode ser feito é apresentar argumentos opostos ou evidências contrárias. Talvez expor ou levantar ideias diferentes, mas não desqualificar as do outro.

O mesmo vale para o desprezo dos sentimentos: “você não pode estar sentindo isso“, “como você pode ter medo de…” ou “você é louco de estar preocupado com…” Tudo isso implica negar o mundo simbólico do outro. Quem teria o direito de pedir que desapareçam certos medos, emoções ou qualquer outra coisa? Ninguém.

Bullying na escola

O desprezo social

Esse tipo de prática também é realizado social ou coletivamente. Não implica necessariamente uma “chacota” ou bullying diretamente. A indiferença é suficiente para fazer os outros sentirem que não importam. É o que muitos governos e indivíduos fazem com pessoas em situação de pobreza. Elas são convocados a votar, mas as políticas implementadas não as levam em consideração em nenhum aspecto.

Isso também acontece diariamente em algumas cidades. Elas são projetadas para não prejudicar o tráfego de veículos automotores, não para proteger a vida dos pedestres. Portanto, quem tem um carro, especialmente se for de luxo, sente que a rua é sua e que pode passar por cima de qualquer coisa. Não é um exagero; mais pessoas no mundo morrem por acidentes de trânsito do que por qualquer doença conhecida.

A burocracia é especialista em desprezar. Isso acontece quando você precisa passar por processos formais e eles brincam com o seu tempo como se estivessem fazendo isso por esporte. Eles o mandam de um lugar para outro, às vezes impõem exigências desproporcionais, dificultam o processo, etc. Tudo isso para justificar que uma função que pode ser desempenhada por uma única pessoa deve ser executada por 20. Isso se deve a um mau gerenciamento ou à troca de favores políticos.

Combater o desprezo

O desprezo dá origem à violência naqueles que são suas vítimas. Essa violência não se dilui: ou acaba se voltando contra quem a originou, ou se volta contra a própria vítima, deixando-a doente e comprometendo seu bem-estar. Em ambos os casos, mais cedo ou mais tarde a sociedade acaba pagando o preço.

É importante, a nível individual, desenvolver atitudes para combater o desprezo. Devemos ser conscientes de que, para isso, não há armas em série. O mais apropriado, então, é não se deixar levar nem permitir que eles nos deixem inseguros ou que nos sintamos inferiores. Eles são o problema, não nós.

Mulher se sentindo triste

A nível social, cabe um apelo para promover a inclusão. Por mais que tenhamos diferenças em relação aos outros, todos nós temos direito a um lugar na sociedade. Nada nos obriga a compartilhar ou aceitar os sentimentos, ideias ou condições dos outros. O que temos é a obrigação de respeitar seu direito de serem como são, de pensar como pensam e sentir como sentem. Nosso bem-estar depende, em grande parte, dessa amplitude mental.

  • Huamán, M. Á. (2001). Contra la crítica del susto’y la tradición del ninguneo’. Alma Máter, (20).