O que é o populismo?

maio 18, 2020
No movimento socialista internacional, começou-se a utilizar o termo "populismo” para designar um movimento que se opunha às classes altas, mas que, diferentemente do  marxismo, se identificava com o campesinato e era nacionalista. Hoje, o termo adquiriu conotações muito distintas.

O termo “populismo”, cada vez mais ouvido na sociedade, parece ser usado como sinônimo de demagogia. É aplicado de maneira indiscriminada a governos, regimes políticos, formas de Estado, personalidades ou políticas econômicas.

É um termo sobre o qual constantemente ouvimos falar e sempre em um tom pejorativo. No entanto, vemos que antes de ser uma palavra comumente utilizada em meios de comunicação e discussões políticas, era um termo acadêmico com distintos matizes.

Neste artigo, vamos analisar a origem e as perspectivas do populismo. Também vamos estudar as principais características do populismo latino-americano, dada a sua relevância.

Campanha política

Perspectivas de um governo populista

Apesar das dificuldades de chegar a uma conceituação sistemática do termo, podemos levar em consideração três perspectivas:

  • Populismo como uma ideologia. Ideologia que separa a sociedade em dois grupos antagônicos – o povo, puro e verdadeiro, e a elite, corrupta. Sob essa concepção de populismo, pode-se entender os motivos pelos quais o termo pode ser empregado para definir políticas tão diversas.
  • Populismo como estilo discursivo. Essa perspectiva defende que o populismo é um estilo de discurso. Uma retórica que vê a política como uma ética e moral entre o povo e a oligarquia. A linguagem usada por aqueles que afirmam falar em nome do povo: “nós” (o povo) e “eles” (a elite).
  • Populismo como estratégia política. Essa é a perspectiva mais comum. O populismo aqui se refere à aplicação de determinadas políticas econômicas (por exemplo, a redistribuição de renda ou a nacionalização das empresas). Do mesmo modo, o populismo também é um modo de organização política, na qual um líder exerce o poder com o apoio de seus seguidores, normalmente pertencentes a setores marginalizados.

Origem do termo

Como estávamos dizendo, esse termo teve um uso acadêmico antes da sua utilização comum ou popular. Ele foi usado pela primeira vez no final do século XIX para nomear uma fase do desenvolvimento do movimento socialista na Rússia.

Esse termo foi utilizado para descrever a onda anti-intelectualista, uma crença segundo a qual os militantes socialistas deveriam aprender com o povo antes de poderem ser seus guias.

Poucos anos depois, os marxistas russos começaram a utilizar o termo com um sentido pejorativo para fazer referência aos socialistas que pensavam que os principais sujeitos da revolução eram os camponeses e que a sociedade socialista do futuro deveria ser construída a partir das comunas rurais.

Assim, no movimento socialista internacional, começou-se a utilizar “populismo” para designar um movimento que se opunha às classes altas, mas que, diferentemente do  marxismo, se identificava com o campesinato e era nacionalista.

Por outro lado, e sem aparente conexão com o uso na Rússia, o termo começou a ser utilizado nos Estados Unidos para se referir ao efêmero People’s Party (Partido do Povo), que surgiu apoiado principalmente por agricultores pobres com ideias antielitistas e progressistas.

Assim, vemos que, em ambos os casos, o termo se referia a um movimento rural com tendências anti-intelectualistas.

Pessoa votando nas eleições

No entanto, nas décadas de 1960 e 1970, outros acadêmicos retomaram o termo com um sentido diferente, embora conectado. Desse modo, o “populismo” foi utilizado para nomear uma série de movimentos reformistas do Terceiro Mundo (o peronismo da Argentina, o varguismo do Brasil e o cardenismo do México).

Aqui, a característica distintiva era o tipo de liderança: pessoal mais que institucional, uno mais que plural e emotivo mais que racional.

Foi assim que o mundo acadêmico parou de utilizar o conceito “populismo” para definir movimentos campesinos e passou a utilizá-lo para designar um amplo fenômeno ideológico e político. Na década de 1970, o populismo já era um movimento que ameaçava a democracia, sempre com uma conotação negativa.

O populismo latino-americano

O populismo latino-americano sempre foi reconhecido por seu caráter inclusivo. Em particular, há três elementos que definem essa característica:

  • A soberania popular. Depois dos Estados Unidos e do Haiti, a América Latina é a primeira área de descolonização. A ideia de nação surge, então, construindo comunidades nacionais onde antes havia colônias lideradas por elites brancas. Foi assim que o populismo latino-americano foi construído sobre uma ideia original de soberania popular.
  • A fraqueza estatal. Amplamente reconhecida. Uma fraqueza histórica que dificultou o cumprimento de promessas populistas e sua materialização em direitos. Os ciclos populistas se unem com base em promessas de direitos não realizados.
  • A reação populista. Os populismos latino-americanos emergem como reação às limitações dos sistemas que os precedem, em um contexto de desigualdades, instabilidade e volatilidade política. Assim, a promessa do populismo tem uma base material e simbólica, pretendendo dar voz e voto aos despossuídos.

Vimos como o termo populismo evoluiu, adquirindo uma conotação negativa que não tinha em seu início.

Assim, o termo passou de ser, em princípio, um reconhecimento da ignorância e da necessidade de aprendizagem para aqueles que pretendem governar para fazer referência a determinados movimentos políticos que pretendem ganhar a simpatia do povo com suas propostas, independentemente de suas propostas serem melhores ou não para o povo.

  • Polikracia, https://polikracia.com/que-es-el-populismo/
  • Redalyc, https://www.redalyc.org/jatsRepo/584/58458909001/html/index.html
  • Scielo, http://ve.scielo.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1012-25082007000300005