O efeito Homer Simpson: esquecer de lembrar

Você já teve a sensação de que, quando aprende algo novo, esquece outras coisas? Esse curioso fenômeno tem nome: o efeito Homer Simpson.
O efeito Homer Simpson: esquecer de lembrar

Última atualização: 24 maio, 2022

O efeito Homer Simpson descreve um fenômeno neurológico fascinante: para aprender, o cérebro precisa “abrir espaço”. Este mecanismo implica, em certos casos, ter que eliminar parte do aprendizado prévio. Esse processo, descoberto em 2015, já foi descrito de forma icônica e divertida na famosa série criada por Matt Groening, que teve início no distante ano de 1989.

Foi em um episódio no qual Homer explicou a Marge o seguinte: “lembra quando fiz aquele curso de elaboração de vinho em casa e esqueci como dirigir? (…). Cada vez que aprendo algo novo, algumas coisas antigas desaparecem da minha cabeça”. Esse comentário, tão engraçado quanto descritivo da personalidade própria deste personagem, acabou sendo verdadeiro e muito recorrente.

Foi um grupo de cientistas da Universidade de Glasgow, na Escócia, que fez esta descoberta. Ela foi fruto de algumas pesquisas sobre a memória, combinadas com ressonâncias magnéticas, permitindo a conclusão desses dados. Às vezes, o simples ato de tentar lembrar de alguma coisa faz com que o cérebro a esqueça.

A seguir, vamos explicar este mistério tão curioso quanto familiar ao mesmo tempo.

Cérebro iluminado azulado simbolizando o efeito Homer Simpson
O efeito Homer Simpson significa que, ao “abrir espaço” para novos aprendizados, esquecemos alguns fatos.

O que é o efeito Homer Simpson?

Existem muitas teorias e mecanismos que explicam por que esquecemos certas coisas, tais como a hipótese da interferência ou a decadência do esquecimento. No entanto, há um fenômeno que é desconcertante. Às vezes, quanto mais tentamos nos lembrar de alguma coisa, mais inacessível ela se torna. É como um pano que se desmancha em nossas mãos até virar pó.

O efeito Homer Simpson nos diz que, quando aprendemos algo novo, o cérebro tenta encontrar espaço e, para isso, acaba apagando aprendizados anteriores. Porém, esse processo de exclusão é realizado apenas quando as informações são muito semelhantes. Ou seja, em outras palavras, o que fazemos inconscientemente é manter dados e experiências mais recentes e eliminar os antigos.

Portanto, quando a mente tenta acessar as informações anteriores, não importa o quanto tente se lembrar, essa camada desaparece no esquecimento porque o cérebro não a considera mais útil. Estamos diante de um órgão que tenta ser eficiente e ágil e, por isso, opta por destruir conteúdos que processa como obsoletos para atualizá-los com outros mais novos.

Desaprender para aprender, uma questão de eficiência

O efeito Homer nos lembra que, conforme o próprio personagem disse, toda vez que aprendemos algo novo, algumas coisas antigas desaparecem da mente. E isso é totalmente verdadeiro. Foi a Dra. Maria Wimber e seus colegas da Universidade de Glasgow que, por meio de um estudo, demonstraram esse mecanismo cerebral sofisticado, mas ao mesmo tempo básico.

O que acontece é que, quando armazenamos informações muito semelhantes, sempre tendemos a manter as mais atualizadas. Toda vez que tentamos lembrar desses dados mais antigos, o que o cérebro faz é enviar um sinal inibitório ao córtex frontal. O que ele tenta então é suprimir essas memórias e evitar a sua recuperação. Assim, quanto mais tentamos lembrar, mais esquecemos.

Então, a pergunta que nos faremos agora é: por quê? Na verdade, estamos diante de um mecanismo básico de sobrevivência e eficiência. Trata-se de desaprender para aprender melhor. Trata-se de integrar melhores aprendizados, estratégias e experiências para nos adaptarmos de forma rápida e otimizada ao ambiente. Descartar o velho para manter o novo nos ajuda a ser mais eficientes.

Se você está aprendendo uma nova habilidade que tem semelhanças com outra aprendida anteriormente, o seu cérebro vai acabar apagando aspectos desta última para que você possa ter um desempenho melhor.

cena para simbolizar o efeito Homer Simpson
O efeito Homer Simpson é um mecanismo de eficiência aplicado pelo nosso cérebro.

Questionar o que você sabe também impulsiona o efeito Homer Simpson

Todos nós, em algum momento, sofremos o efeito Homer Simpson. Por exemplo, há aqueles que aprendem a usar programas como o Adobe FrameMaker com excelência, mas depois não lembram muito bem como o Microsoft Word funciona. E também há quem tenha duas graduações e três mestrados e, mesmo assim, acabe esquecendo como fazer uma divisão ou como calcular o mínimo múltiplo comum de duas frações.

O cérebro precisa ser hábil, rápido e competente no que é necessário para o seu dia a dia. O que aprendemos há muito tempo, se não nos serve para o aqui e agora, desaparece. Assim, as vias neurais ligadas às habilidades anteriores perdem força para abrir espaço para novas conexões, novas informações e habilidades. Esse mecanismo de esquecimento é realmente útil.

Portanto, seria muito apropriado que nós mesmos promovêssemos, de vez em quando, o efeito Homer Simpson em nossas vidas. Manter-se atualizado e questionar crenças, bem como certas ideias e perspectivas, é algo que pode nos permitir estabelecer informações mais válidas e também mais úteis. Em um entorno cada vez mais complexo, precisamos estabelecer novas habilidades e abordagens inovadoras.

Desaprender para aprender é um exercício de grande valor que deveríamos aplicar em algumas áreas de nossas vidas. Portanto, não devemos nos assustar se, de vez em quando, a memória falhar. Talvez o cérebro esteja nos fazendo um favor e, conforme disse Homer, esteja apenas tirando “coisas antigas” das nossas cabeças.

Pode interessar a você...
O cérebro reativo: quando antecipar tudo traz sofrimento
A mente é maravilhosa
Leia em A mente é maravilhosa
O cérebro reativo: quando antecipar tudo traz sofrimento

Você sabia que o cérebro reativo orquestra, facilita e ativa os mecanismos de ansiedade? Saiba mais sobre esse assunto neste artigo!



  • Reference: Wimber, M., et al. (2015). Retrieval induces adaptive forgetting of competing memories via cortical pattern suppression. Nat. Neurosci., 18: 582–589. DOI: 10.1038/nn.3973