O pensamento de Alice: acreditar que vivemos no país das maravilhas

O pensamento de Alice nos deixa presos em um mundo irreal, infantil e ingênuo que pensa que tudo é ótimo ou maravilhoso e que as dificuldades não existem. Os perigos de pensar dessa maneira podem ser muitos, como cair em profunda frustração ao ver que a realidade é bem diferente.
O pensamento de Alice: acreditar que vivemos no país das maravilhas

Última atualização: 12 Junho, 2021

Às vezes, a realidade pode ser tão complexa e dolorosa que, como seres humanos, não temos escolha a não ser criar uma história para nos proteger. Essa história, que a princípio pode nos ajudar a suportar o que está acontecendo ao nosso redor, também pode nos separar do mundo real e nos levar para o país das maravilhas em um pensamento como de sua personagem, Alice.

As pessoas têm a capacidade de pensar. Esse talento, quando bem aproveitado, é um recurso inestimável que nos trouxe até onde estamos agora.

O pensamento nos faz evoluir e avançar, nos permite investigar, descobrir e realizar ações maravilhosas. O problema é quando essa habilidade não é realizada de forma eficaz e caímos em preconceitos ou formas de pensar que nos impedem de progredir.

Freud já falava dos mecanismos de defesa como estratégias psicológicas inconscientes para enfrentar a realidade e conseguir manter a autoimagem. Usados com moderação, podem ser funcionais, mas integrá-los permanentemente acabará nos prejudicando.

Garota pensando na vida

O pensamento de Alice pode ser considerado um erro de pensamento em que a pessoa concebe que tudo está dando certo, que ela mora no País das Maravilhas e que continuará a ser assim no futuro. É como dar as costas à realidade, que, como bem sabemos, contém muitas barreiras e obstáculos.

“O pensamento de Alice é uma deformação ideológica da consciência de um tipo infantil, ingênuo, simplório”, segundo Gustavo Bueno: “Ao representar o mundo de cabeça para baixo, Alice não quis ter consciência das dificuldades que teriam que ser superadas para vencer, nem, portanto, dos métodos ou caminhos que teriam que ser viabilizados. Tudo é muito mais simples: você tem vontade de virar aquele mundo de cabeça para baixo e pronto”.

Ser otimista não é ruim, mas é a semente da ilusão. Ser realista é muito mais importante. Perceber a realidade de forma próxima a como ela se apresenta nos ajudará a amadurecer e a criar estratégias para superar as adversidades.

Se pensarmos como Alice e acreditarmos que vivemos no País das Maravilhas, será difícil tomarmos consciência do mundo real e, portanto, nos comportarmos de forma adaptada.

Alice no Pais das Maravilhas?

A realidade é mesmo um mar de rosas? Vivemos no país das maravilhas? A verdade é que não. Quando Lewis Carroll escreveu a história de Alice no País das Maravilhas, ele colocou como protagonista uma garota que passou por um espelho e chegou a uma realidade ao contrário, uma realidade diferente. Sem passar por nenhuma adversidade, tudo parecia estar indo bem em seu novo mundo: era o país das maravilhas.

O pensamento das crianças é assim, ingênuo, simplista e esperançoso, e com dificuldade de contemplar as adversidades. Parece que tudo é muito fácil e que não há dificuldades ao longo do caminho.

Esse tipo de pensamento pode nos lembrar de utopias, mas a diferença é que as utopias contemplam os obstáculos que podemos encontrar ao longo do caminho.

O pensamento utópico ou pensamento de Mao também busca um mundo ideal. Pensar que outro mundo é possível implica, ao contrário do pensamento de Alice, saber quais desafios teremos que enfrentar e como deveremos enfrentá-los.

O pensamento utópico é consciente da realidade e não descarta a luta como meio de transporte, e isso pode nos fazer repensar as consequências de empreender projetos de mudança. Além disso, o pensamento utópico sabe que o erro é possível, simplesmente porque este faz parte do nosso dia a dia. No pensamento de Alice, isso não acontece: passamos pelo espelho – fácil assim – e já alcançamos nosso mundo alternativo.

Homem ao por do sol

Os perigos do pensamento Alice

Já há algum tempo, é comum encontrar livros de autoajuda ou frases extremamente triunfantes e positivas que nos dão ideias sobre uma realidade que, veja a contradição, não correspondem à realidade.

É uma espécie de ode à felicidade que nos obriga a ter que ser sempre felizes, em todas as circunstâncias. Somos forçados a pensar que deve ser assim agora e sempre, que a vida é maravilhosa e que se você pensar assim, atrairá tudo o que deseja sem muito esforço.

Isso pode ser muito perigoso, pois criamos certas expectativas em nossa mente e iniciamos ações acreditando que nossos sonhos serão realizados de qualquer maneira e de uma forma quase mágica.

Se isso não acontecer, que é o mais comum, e ficarmos imersos nas adversidades que devemos enfrentar, corremos o grande risco de nos paralisar e até de ficar deprimidos. Devemos mudar esse conceito e nos dar permissão para buscar metas ou mudar o que não está de acordo com nossos valores, ao mesmo tempo em que estamos cientes de que isso exige um esforço da nossa parte.

É muito mais saudável abraçar um projeto para o futuro sabendo os possíveis obstáculos que teremos que enfrentar, do que simplesmente querer passar por um espelho e chegar em um mundo diferente. Este último não vai acontecer, e o que vamos conseguir é nos afundar na mais absoluta frustração.

Você precisa falar consigo mesmo em termos de racionalidade e realismo. Você tem que deixar as fantasias dos filmes da Disney de lado. É sensato e legítimo dizer a nós mesmos que perseguiremos nossos sonhos, mas que não será fácil. Ter essa consciência nos permitirá desenhar nosso projeto, administrar recursos, tomar decisões com base na realidade e ter mais sucesso naquilo a que nos dedicamos.

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