É possível treinar o cérebro para ser feliz?

março 30, 2020
Embora seja verdade que ninguém pode ser feliz todos os dias, há algo mais importante: estar bem consigo mesmo. Alcançar esse ponto envolve considerar uma série de dimensões para treinar o cérebro com foco na autoestima e no pensamento mais flexível.

É possível treinar o cérebro para ser feliz? Vivemos um momento em que a chamada “indústria da felicidade” parece querer nos convencer, através de infinitas publicações, de que o tão ansiado bem-estar está sempre ao nosso alcance.

Seria suficiente aplicar uma série de estratégias para alcançá-lo. No entanto, será que isso é tão fácil quanto parece? Existe uma fórmula simples para respirar com maior alegria e otimismo?

A resposta é “não”. Em termos de mudança, nessa jornada rumo ao bem-estar psicológico e à autêntica plenitude, nada é fácil ou rápido.

Para começar, algo que precisamos entender sobre o cérebro é que, para ele, não importa se estamos felizes ou não. Na verdade, tudo que ele quer é que estejamos vivos. Por isso, ele sempre dará mais valor aos medos e aos mecanismos que nos colocam em nossa zona de conforto.

No entanto, o fato de termos um órgão resistente à mudança não significa que não podemos mudar. Somos uma espécie que evoluiu gerando avanços notáveis, avanços que nos ajudam a nos adaptarmos muito melhor em nossos ambientes complexos.

Da mesma forma, algo que vemos na prática clínica é que mudanças com foco no equilíbrio e na cura são possíveis, mas exigem um compromisso verdadeiro (e ativo) por parte da pessoa.

Vejamos mais informações a seguir.

É possível treinar o cérebro para ser mais feliz?

É possível treinar o cérebro para ser feliz?

Treinar o cérebro para ser feliz não envolve melhorar a alimentação. Nem levar uma vida mais ativa, praticar esportes ou fazer uma viagem a cada dois ou três meses. Tudo isso pode, obviamente, nos tornar mais saudáveis, nos proporcionar um prazer pontual e uma satisfação que pode durar horas ou até dias.

No entanto, nenhuma dessas estratégias nos fará lidar melhor com o estresse. Quando a vida se tornar difícil, continuaremos não sabendo o que fazer e conviveremos novamente com o sentimento de vulnerabilidade, o medo e a ansiedade.

De acordo com o psicólogo Mihaly Csikszentmihalyipara alcançar uma vida feliz, as receitas fáceis não funcionam, e os conselhos dos outros também não. Este é um processo individual em que cada um deve investir esforços sendo criativo e original.

No entanto, existem várias realidades básicas que podemos tomar como ponto de partida para a reflexão. São as seguintes:

Treine seus pensamentos em reflexão, flexibilidade e positivismo realista

Algo que a neurociência vem destacando há muito tempo é que os pensamentos são o mero produto da atividade cerebral. O cérebro os cria como resultado de uma série de conexões elétricas. Mas algo que sabemos há muito tempo é que os próprios pensamentos também têm poder sobre o cérebro: eles podem gerar novas conexões e até moldá-lo.

  • Por exemplo, os pensamentos negativos repetitivos e obsessivos desaceleram a coordenação cerebral, a esgotam e até diminuem a atividade da região pré-frontal do cérebro. Algo assim torna muito difícil encontrar soluções para os problemas.
  • Treinar o cérebro para sermos felizes nos obriga a ter um maior controle sobre esse tipo de processo mental. Cuidar do que pensamos também é saúde.
  • Tudo o que pensamos e dizemos é importante. Portanto, devemos detectar esses padrões de pensamentos negativos e detê-los.
  • Não se trata de transformá-los usando um pensamento positivo oco e confiante demais. É simplesmente uma questão de aplicar uma abordagem mais reflexiva e menos rígida sobre a nossa realidade. Trata-se de ser capaz de ver dez opções para um problema, de ampliar perspectivas e parar de localizar fatalidades em nosso futuro imediato.
O poder dos pensamentos

Tenha um propósito todos os dias, dê sentido à sua vida

O que é uma vida sem propósito? A nível cerebral, é a carência de dopamina, de serotonina, desse bem-estar que está em sintonia com sonhos e objetivos diários. Se a nossa realidade não tiver significado ou motivo, nós também careceremos de valor.

Esse estado nos deixa suspensos em um vazio abismal, que abre o caminho para transtornos do humor como a ansiedade e a depressão. Como Viktor Frankl disse em sua época, nada nos dá mais resistência do que ter uma tarefa, do que lembrar o que é importante para nós e pelo que vale a pena seguir adiante.

Por isso, se queremos treinar nossos cérebros para sermos felizes, precisamos esclarecer não apenas qual é o nosso propósito vital. Cada um de nossos dias deve ter uma meta, um objetivo a ser alcançado, mesmo que seja algo tão simples quanto dormir bem, conhecer alguém, ler um livro e passear.

Felicidade é estar bem consigo mesmo: o poder da autoestima

Ninguém consegue ser feliz todos os dias. É impossível alcançar e manter esse estado mental e emocional a todo momento. No entanto, há algo muito mais importante do que ser feliz: estar bem consigo mesmo. Atualmente, a falta de autoestima ainda é um problema para um bom número de pessoas.

Esse componente é essencial para promover o bem-estar e, sem dúvida, é o segredo da satisfação e uma dimensão da qual devemos cuidar diariamente. John Rawls, um dos filósofos mais reconhecidos do século XX, costumava dizer que toda sociedade que aspira ser feliz deve ter cidadãos com um bom autorrespeito.

Ele definiu essa dimensão como a confiança em nós mesmos para alcançarmos o que queremos, nos valorizarmos como seres livres e dignos de progresso e bem-estar. O oposto do autorrespeito próprio seria, de acordo com Rawls, a impotência.

Para concluir, diante da dúvida a respeito da possibilidade de treinar o cérebro para ser feliz, a resposta é sim; no entanto, esta não é uma tarefa fácil. É um trabalho diário, exigente, complexo e que requer coragem todos os dias. Comecemos hoje mesmo.

  • Berridge, K. C., & Kringelbach, M. L. (2011). Building a neuroscience of pleasure and well-being. Psychology of Well-Being: Theory, Research and Practice1(1), 3. https://doi.org/10.1186/2211-1522-1-3
  • Kringelbach, M. L., & Berridge, K. C. (2010). The functional neuroanatomy of pleasure and happiness. Discovery Medicine9(49), 579–587.