O peso da ferida aberta: quando a vítima se transforma em algoz

agosto 19, 2019
Há pessoas que, devido ao peso excessivo de suas feridas, se sentem incapazes de ver o sofrimento dos outros. A marca de traumas causados por abusos ou abandonos parece nunca cicatrizar.

A ferida aberta às vezes forma um abismo tomado pelo ressentimento, pela raiva e pela vulnerabilidade. Esse sentimento é vivenciado por algumas pessoas que foram vítimas de abusos, abandono ou maus-tratos.

A marca dessas experiências e a incapacidade de curá-las muitas vezes faz com que projetem esse profundo desconforto nos outros, mostrando comportamentos desadaptativos.

Todos lidam com a dor à sua maneira, com maior ou menor habilidade. No entanto, existem aqueles que fazem isso da pior maneira possível: agressivamente. A razão? Existem perfis nos quais vários fatores determinantes são combinados.

Por um lado, há a gravidade do trauma experimentado; por outro, os recursos sociais e de apoio disponíveis para a pessoa, assim como determinados fatores biológicos e até genéticos.

Agora, o mais decisivo é, sem dúvida, o fator da personalidade. Sabemos, por exemplo, que certas pessoas caracterizadas por um narcisismo reativo usam a sua dor como arma.

A sua identificação como vítima, e o peso de um passado de abusos, muitas vezes e quase involuntariamente os transforma em algozes camuflados. São pessoas que não conseguem controlar o impulso de retaliação e projetam a sua raiva em relação aos outros de diferentes maneiras.

“A dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional”.
– Buda –

O peso da ferida aberta

Quando a ferida aberta de um trauma provoca agressividade

O conceito de “vítima” é discutido com muita frequência. Algo que devemos entender, em primeiro lugar, é que nem todos lidam com os traumas da mesma maneira.

Há pessoas que, graças aos seus recursos psicológicos ou ao apoio que receberam, enfrentam com efetividade um acontecimento dramático. Dessa forma, se desligam em pouco tempo da sua identidade de vítimas.

Outras pessoas, por outro lado, carregam esse dano durante muito tempo, essa ferida aberta que, de alguma forma, deixa muitas sequelas. O transtorno de estresse pós-traumático é um desses efeitos.

Agora, a questão que pode vir à mente é por que isso acontece. Por que razão alguns que estão longe de superar esse fato doloroso do passado o carregam como um fardo?

Há alguma explicação pela qual uma pessoa exposta a eventos traumáticos reaja de uma maneira desadaptativa ou violenta em algum momento? Na Universidade de Monterotondo, na Itália, um estudo interessante conduzido pelo Dr. Giovanni Frazetto analisou esse problema.

Os dados obtidos foram os seguintes:

Traumas precoces e o gene MAOA

De acordo com este trabalho realizado em 2007, ser exposto a determinados eventos negativos durante os primeiros 15 anos de vida costuma deixar uma marca evidente em nosso tecido emocional e psicológico.

Agora, enquanto algumas pessoas são mais propensas do que outras a superar ou enfrentar esses fatos, outras apresentarão alguma dificuldade.

  • Neste último grupo estão pessoas com o gene MAOA, ligado principalmente ao sexo masculino.
  • Este gene está associado a um fenótipo comportamental muito específico, o de maior agressividade.
  • Portanto, algo que pode ser visto nesse estudo é que crianças que cresceram sem um dos pais, que foram negligenciadas, sofreram abusos ou foram criadas em um ambiente com problemas de alcoolismo apresentaram comportamentos mais agressivos e antissociais quando adultos.
  • Esse comportamento também foi associado, além disso, a uma maior inclinação ao abuso de drogas, bem como uma grande dificuldade em estabelecer relações sociais e emocionais fortes e significativas.
Homem envolvido pela fumaça

A ferida aberta e a vulnerabilidade que nos impede de perceber a dor dos outros

Uma ferida aberta é um problema não resolvido que nos machuca cada dia mais. É uma maneira de tornar crônica a identidade de vítima. Nós nos definimos não pelo que fazemos hoje, mas pelo que nos aconteceu no passado.

Há pessoas que estão presas em sua vulnerabilidade, na raiva reprimida, no medo de não conseguirem respirar e no peso das memórias. Dessa forma, quase sem perceber, desenvolvem a cegueira emocional.

A pessoa deixa de ver e perceber realidades emocionais alheias às suas. Essa falta de empatia deriva da própria ferida aberta, desse trauma que gera mudanças em nosso cérebro e que, de alguma forma, acaba modificando a personalidade.

A parte mais complicada de tudo isso é que, em algum momento, quem se sente vítima pode se tornar um algoz.

  • Isso ocorre, por exemplo, com o adolescente que sofre abusos ou abandono em casa e apresenta comportamentos violentos na escola.
  • O mesmo acontece com a pessoa que, em certos momentos, se sente tão vulnerável e impotente que reage de maneira excessiva para se defender.
  • A ferida aberta pode fazer com que alguém entenda a violência como uma forma de linguagem. Se, quando criança, éramos testemunhas ou vítimas de comportamento agressivo, é provável que, na idade adulta, acabemos aplicando esses mesmos modelos.
Menino olhando pela janela

Feridas abertas e traumas: como podemos tratá-los?

Atualmente, a abordagem mais apropriada para o tratamento dos traumas é, sem dúvida, a terapia cognitivo-comportamental focada no trauma. Essa ferramenta também possui uma grande bibliografia científica que sustenta a sua efetividade (Echeburúa e Corral, 2007; Cohen, Deblinger e Mannarino, 2004).

Por outro lado, também temos a terapia de aceitação e compromisso (Hayes, Strosahl, Wilson, 1999, 2013). É um tipo de terapia cognitivo-comportamental de terceira geração que procura reduzir a ansiedade e o medo para administrar melhor as situações ameaçadoras.

Além disso, e não menos importante, é necessário trabalhar no controle da raiva, caso ela esteja presente. Algo assim começa a ser evidente mesmo na infância.

Sabe-se, por exemplo, que cerca de 45% das crianças que testemunham a violência familiar apresentam problemas de comportamento.

Por trás da ferida aberta há ansiedade, há tristeza, raiva e uma série de imagens mentais que não conseguimos apagar. Essas realidades dramáticas devem ser tratadas por profissionais especializados. Ninguém merece viver um presente onde o sofrimento apaga o seu potencial para ser feliz.

  • Frazzetto, G., Di Lorenzo, G., Carola, V., Proietti, L., Sokolowska, E., Siracusano, A., … Troisi, A. (2007). Traumatismo precoz y mayor riesgo de agresión física durante la edad adulta: el papel moderador del genotipo MAOA. PLOSOS UNO , 2 (5). https://doi.org/10.1371/journal.pone.0000486