O viés binário: uma maneira simplificada de processar informações

Uma maneira de obter bem-estar mental - e até inteligência - é desativar essa abordagem tão arraigada em nós que processa a realidade de maneira dicotômica: branco, preto, bom, ruim, aliados, inimigos etc.
O viés binário: uma maneira simplificada de processar informações

Última atualização: 25 julho, 2022

Uma das tarefas mais importantes do cérebro é processar todas as informações que recebe, mas nem sempre o faz da melhor maneira. Gostamos de fazer julgamentos rápidos, rotular e classificar tudo de forma caótica e leve. Quase sem perceber, nos deixamos dominar por distorções de pensamento e uma das mais comuns é o viés binário.

Esse efeito psicológico generalizado define nossa tendência de dicotomizar qualquer conjunto de dados a que estejamos expostos. Restringimos toda a gama de possibilidades a apenas duas categorias. Esse fenômeno acontece diariamente nas redes sociais. A enorme quantidade de informações que recebemos em nossos dispositivos nos transformou, mais do que nunca, em pensadores preguiçosos.

Como uma piada, existem dois tipos de pessoas neste mundo, aqueles que acreditam que existem dois tipos de pessoas e aqueles que não acreditam. No campo da psicologia cognitiva, essa ideia é amplamente compartilhada. Partimos do pressuposto de que existem também dois tipos de indivíduos na sociedade: os que pensam, raciocinam e decidem de forma dicotômica e os que entendem que o mundo tem mais opções e interpretações.

“Estamos cegos da nossa cegueira. Temos muito pouca ideia de quão pouco sabemos. Não fomos projetados para saber o quão pouco sabemos.”

-Daniel Kahneman-

Mulher pensando em viés binário
Somente as pessoas que pensam criticamente entendem que toda análise requer aceitar a complexidade.

Viés binário: o que é e como o aplicamos

Todos nós nos concebemos como pensadores fluidos, reflexivos e criativos. No entanto, a realidade é diferente. Boa parte das pessoas fazemos uso de um pensamento economizador. Processamos informações rapidamente e chegamos a certas conclusões na velocidade da luz. E o fato de fazermos isso não é algo voluntário, responde a um vestígio muito primitivo.

Nossos ancestrais tiveram que responder rapidamente às necessidades do meio ambiente para sobreviver. Fomos forçados a avaliar o que estava acontecendo ao nosso redor imediatamente e decidir sobre uma resposta. Esse mecanismo ainda está presente em nós e é o que muitas vezes nos impele a ver o mundo em termos excessivamente simplificados e quase sempre negativos.

Agora, o viés binário vai além da simples necessidade de economizar tempo na hora de decidir: é uma tendência cognitiva que nos faz ordenar as informações em conjuntos de duas possibilidades. Um exemplo disso é pensar que as pessoas só podem ser boas ou más, que na vida se consegue o êxito ou se falha, ou que o que lemos na internet é tudo verdade ou tudo mentira…

Ao tomar decisões, quase sempre vemos apenas duas opções

“O que devo fazer da minha vida? Ir ou ficar aqui? Mudar de emprego ou continuar com o mesmo? Conhecer novas pessoas ou passar mais tempo com meus amigos? “. Quando as pessoas tentam tomar uma decisão, quase sempre acabamos formulando duas opções: uma oposta à outra.

O viés binário divide a ampla gama de opções que cada desafio ou problema tem em duas possibilidades. Temos uma tendência inata de impor duas categorias diferenciadas quando quase qualquer realidade ou circunstância está dentro de um continuum com múltiplas e variadas alternativas.

Nada é completamente preto ou branco, as coisas nem sempre são boas ou ruins ou as pessoas estão contra nós ou a nosso favor. O ser humano se move a maior parte do tempo nessas faixas cinzentas da vida em que nada é completamente conclusivo. Usar um rótulo e seu reverso simplifica o mundo e nos transforma em “pensadores economizadores”, em pessoas que acabam limitando seus grandes recursos cognitivos.

“Quem pensa pouco, erra muito”.

Leonardo da Vinci

Viés binário e mídias sociais

Nós apontamos isso no início. O viés binário está se tornando cada vez mais prevalente no universo digital. Nesse cenário em que novas informações fluem quase ao segundo, o cérebro dificilmente tem tempo para aplicar uma perspectiva crítica e analítica. Rotulamos tudo de “bom ou ruim”, “verdadeiro ou falso”, “interessante ou chato” ou “isso se encaixa nos meus valores e isso me ofende”.

Uma pesquisa da Universidade de Yale destaca esse fenômeno. Quando somos expostos a informações sobre saúde, finanças ou decisões de políticas públicas, respondemos emocionalmente e não racionalmente. Limitamo-nos a deixar-nos levar por essa valência emocional (gosto/não gosto) sem pesar as evidências, sem analisar detalhadamente as informações.

Nossa sociedade é cada vez mais habitada por raciocinadores passivos e polarizados. Não toleramos a incerteza, nem aquela gama de tons de cinza que nossa realidade possui. Diante de cada dado ou informação reagimos por impulso, não temos mais tempo para analisar as coisas e nossa mente crítica está quase em perigo de extinção.

Mulher pensando em viés binário
O viés binário é neutralizado fazendo uso de uma mente aberta, curiosa e flexível.

Como deixar de aplicar uma abordagem mental binária ou dicotômica?

O melhor “tratamento” para o viés binário é o pensamento crítico e flexível. Como apontou Aaron Beck em sua época, quem raciocina em termos de tudo ou nada e bom ou ruim aplica uma abordagem infantil e imatura. Pensar em termos absolutos leva ao mal-estar existencial, nervosismo e limita completamente nossas oportunidades de aprendizado.

A única maneira de combater essa perspectiva é tolerar a ambiguidade, a incerteza e a contradição. Nossa realidade é tremendamente complexa e até contraditória. Somente sendo capazes de assumir todo esse caleidoscópio de opções, abraçaremos o bem-estar e o enriquecimento intelectual.

Sejamos críticos, curiosos, abramos nossas mentes e pratiquemos aquela ginástica mental que nos impede de ficar com apenas duas opções diante de qualquer informação vital ou desafio.

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  • Fisher M, Keil FC. The Binary Bias: A Systematic Distortion in the Integration of Information. Psychological Science. 2018;29(11):1846-1858. doi:10.1177/0956797618792256
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