O cérebro de Heslington, um fenômeno muito estranho

O caso do cérebro de Heslington despertou a curiosidade de cientistas e inexperientes. Até o momento, não há uma explicação completa para esse fenômeno. É aí que reside boa parte do fascínio que ele produz.
O cérebro de Heslington, um fenômeno muito estranho

Última atualização: 28 novembro, 2021

Em 2008, a comunidade científica se surpreendeu com a descoberta que um grupo de arqueólogos fez na cidade de Heslington, na Inglaterra. Era um crânio que continha parte de seu cérebro. Foi apelidado de Heslington Brain.

Essa descoberta não seria surpreendente se o crânio não tivesse mais de 2.600 anos. Portanto, o fragmento do cérebro teria sido preservado inexplicavelmente ao longo do tempo.

A importância desse fato também envolve a possibilidade de investigar os segredos do envelhecimento do cérebro. E também, a possibilidade de enriquecimento de conhecimentos para a obtenção de curas contra doenças como o Alzheimer.

É duvidoso que a humanidade possa criar um enigma que a engenhosidade humana não resolva.”

-Edgar Allan Poe-

O que aconteceu em Heslington?

A descoberta inédita surpreendeu os cientistas, pois não explicaram como o fenômeno ocorreu. Lembre-se de que órgãos, como o cérebro, são especialmente suscetíveis à decomposição. Em condições normais, após a morte de qualquer indivíduo, ocorre uma poderosa atividade química associada à degradação. Esse processo natural e espontâneo só pode ser interrompido com técnicas de mumificação.

Essas técnicas visam preservar o corpo para fins  de rituais ou fins científicos para investigação posterior. No entanto, no chamado cérebro de Heslington, não havia sinal de tratamento de conservação. Isso deixou muitas perguntas sem resposta.

Pergunta

História do cérebro de Heslington

O crânio foi encontrado em uma área lamacenta na cidade inglesa de Heslington, pela qual imediatamente ficou conhecido como o cérebro de Heslington. Ao datar sua idade determinou-se que tinha mais de 2.600 anos; ou seja, correspondeu à Idade do Ferro.

Aparentemente, era um homem entre 26 e 45 anos de idade e cuja morte teria ocorrido por decapitação. Tudo indica que logo após sua morte, sua cabeça foi enterrada nesta área pantanosa.

Os pesquisadores não conseguiram explicar por que o processo de decomposição não ocorreu no cérebro de Heslington. Especialmente considerando que ele não havia passado por um processo de embalsamamento após a morte.

Estudos posteriores

Hoje sabemos que, após a morte, órgãos como o cérebro se decompõem de maneira excepcionalmente rápida. Isso se deve a um processo natural conhecido como autólise, no qual as enzimas do corpo iniciam um processo de destruição de células e tecidos.

Para aumentar a confusão, não foram encontrados restos de cabelo ou pele no crânio. Embora aspectos como o ambiente úmido, o frio e a falta de oxigênio desse ambiente com certeza tenham favorecido a conservação, as perguntas não puderam ser respondidas. Devia haver algo mais.

Nesse sentido, pesquisas recentes parecem esclarecer algumas dessas questões. O grupo de cientistas liderado por Axel Petzold, da University College London, abordou o problema do ponto de vista molecular.

A pesquisa de Axel Petzold

Esta pesquisa teve como foco os diferentes tipos de proteínas presentes na amostra do estudo. Após um cuidadoso trabalho de laboratório durante um ano, eles conseguiram identificar a presença de mais de 800 tipos de proteínas.

Um aspecto que chamou a atenção da equipe foi a descoberta de proteínas altamente resistentes, cuja resposta estava intimamente ligada à imunidade. Essas proteínas se dobraram em estruturas compactas e estáveis, como uma espécie de escudo protetor.

Isso explicaria a principal razão pela qual os microrganismos não conseguiram acessar o fragmento do cérebro. De acordo com o estudo, a proteína ácida fibrilar glial e os neurofilamentos são responsáveis pela sua preservação.

Cérebro amarelo com lupa

Dúvidas não resolvidas

É claro que a pesquisa de Petzold e sua equipe explica por que o cérebro de Heslington não entrou em processo de decomposição externamente. No entanto, não explica por que o processo de autólise não foi iniciado internamente pelas enzimas.

Os autores do estudo supõem que um fluido ácido deve, de alguma forma, deve ter entrado em contato com o tecido cerebral interno para inibir as enzimas. Evidências forenses sugerem que, antes de sua decapitação, o homem foi enforcado ou espancado na cabeça.

Uma probabilidade adicional abre a possibilidade da presença de algum tipo de doença no indivíduo que produziu esse tipo de efeito. Embora muitos fatores possam ter desempenhado um papel na preservação do cérebro de Heslington, o  mistério continua.

Este caso é único no mundo, o que impede a realização de estudos comparativos para esclarecer este fato. Resta aguardar novos estudos que forneçam informações para esclarecer as dúvidas que permanecem. Por enquanto, pelo menos, o caso do cérebro de Heslington continua a ser em grande parte a inspiração para um bom número de perguntas que não fomos capazes de responder.

Imagem principal: cérebro de Heslington (A. Petzold et al., 2020.)
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  • Petzold A, Lu CH, Groves M, Gobom J, Zetterberg H, Shaw G, O’Connor S. Protein aggregate formation permits millennium-old brain preservation. J R Soc Interface. 2020 Jan;17(162):20190775. doi: 10.1098/rsif.2019.0775. Epub 2020 Jan 8. PMID: 31910770; PMCID: PMC7014809.
  • Wagner, B. B. (2020). El extraño fenómeno del cerebro de Heslington de 2.600 años.