Os males das redes sociais: o eu desintegrado

· abril 17, 2019
Nosso autoconceito é construído, em grande parte, graças às referências que recebemos do exterior. No entanto, em poucos lugares essas referências aparecem tão adulteradas como nas redes sociais.

Nós não sabemos se dentro de alguns anos as redes sociais serão avaliadas como o elemento mais nocivo e inútil dessa maravilha chamada Internet. Talvez os estudos que já foram, estão sendo e serão realizados, de forma longitudinal e transversal, revelem que os males das redes sociais para a saúde física e mental são maiores do que imaginamos.

Ainda não temos dados suficientes para apoiar uma conclusão absoluta, mas muitos estudos já trazem algumas informações importantes sobre o uso que nós damos às redes sociais. Aparentemente, elas podem afetar a saúde psicológica dependendo da personalidade do usuário, da quantidade de tempo se passa nelas, do tipo de rede social ou da idade em que se começa a utilizá-las.

Deixando de lado o bom uso ou o mau uso das mesmas, sabemos que elas podem se tornar viciantes, como qualquer outra substância, pois parecem agir sobre os circuitos neuronais do reforço. Também foram observados fenômenos de tolerância e abstinência.

Redes sociais distintas, efeitos diferentes

Todos nós já sentimos ou percebemos as sensações de inferioridade, preocupação e, inclusive, ansiedade que os trolls podem projetar em seus comentários ou que são provocadas pelas fotos repletas de photoshop, ilustrando um cenário incompleto ou diferente da realidade.

Embora se suspeitasse do impacto negativo dos males das redes sociais sobre nosso bem-estar mental, um novo estudo representou um duro golpe para as redes sociais.

Likes nas redes sociais

Conclui-se que o Facebook, o Snapchat, o Instagram e o Twitter podem causar sérios danos à saúde mental dos jovens entre 14 e 24 anos. O Instagram seria a rede social mais prejudicial para os jovens, segundo esse estudo publicado por duas organizações, a Royal Society for Public Health e o Young Health Movement.

Nesse estudo, quase 1.500 jovens entre 14 e 24 anos compartilharam com os pesquisadores o impacto que sentiam ao usar as cinco redes sociais, além do YouTube, através de 14 critérios diferentes: a solidão, a autopercepção, a ansiedade, o estresse ou o assédio. De todas elas, o Instagram recebeu a pior avaliação.

O Snapchat, o Facebook e o Twitter também não se salvaram. O impacto das três redes seria, em essência, negativo para o bem-estar. Os pesquisadores apoiam a ideia de que elas servem de sustento para a ansiedade. Apenas o YouTube foi considerado uma rede social com impacto positivo, ainda que alguns usuários considerem que o site e seus conteúdos os fazem dormir menos.

“É interessante ver como o Instagram e o Snapchat foram classificados como as piores redes de bem-estar e saúde mental. As duas plataformas são muito centradas na imagem e parece que podem provocar sentimentos de inferioridade e ansiedade nos jovens”, afirmou Shirley Cramer, diretora executiva da Royal Society for Public Health, umas das duas organizações por trás do estudo.

O Instagram e o eu desintegrado

O Instagram pode nos dar a sensação de ser uma rede com pouquíssimo conteúdo, carente de histórias: nessa rede social o que se vê, o que se expõe e o que se exibe em fotos é o maior objetivo para fazer parte dela. Nela, não seguimos apenas amigos ou conhecidos, mas através de hashtags e perfis públicos, podemos ver alguns famosos e outras pessoas que já se tornaram conhecidas através do Instagram.

Também é a rede social mais utilizada entre os jovens. Isso representa riscos significativos, já que esses jovens estão em pleno processo de construção pessoal e aquisição de valores para a vida em sociedade, e as redes sociais lhes mostram que o esforço e a dedicação a um estudo ou uma ocupação valem menos do que uma pose.

Certas redes sociais deixaram de ser meios para se relacionar com os demais para serem um espaço de publicidade de muitas marcas. As redes se transformaram em uma rede de negócios, e os usuários em seus principais consumidores. Muitas marcas inclusive veem uma oportunidade no fato de as mães fazerem publicidade de algumas marcas que seus filhos usam, transformando os mais novos (e aqueles não tão novos assim) em um produto.

Se veem uma pessoa superficial, vazia, sem nenhum ofício conhecido que tem milhares de seguidores, podem considerar que “devem ter alguma coisa”, que o importante é se parecer o máximo possível com ela.  Começarão a agir com pouca naturalidade, começarão a dar “likes” e a se interessar por coisas que realmente não lhes despertam atenção. Dessa forma, seu frágil “eu” pode se ressentir, se decompor, se desintegrar.

Muitas fotos, roupas, casas, viagens, amigos, brincadeiras, beijos ou abraços. Por cada conta que traz algo diferente, há 10 outras contas que buscam o impacto através de uma fantasia poderosa e sedutora para o vazio.

Não conseguimos resistir a olhar fotos bonitas vez ou outra, inclusive é positivo que queiramos olhá-las e ter uma imagem semelhante de vez em quando, fazer uma viagem parecida, mas… Qual é o mercado de trabalho na atualidade? Com quais tipos de contratos os jovens têm que lidar para conseguir um plano digno de vida? Qual é a distância entre as imagens e a vida que as redes sociais nos oferece e o que nós podemos conquistar na vida real? Queremos conquistar isso? Realmente precisamos disso para viver?

Mulher nas redes sociais

Prevenção e conscientização contra os males das redes sociais

Quando as redes sociais nas quais você passa grande parte do seu tempo não representam nada do que você vai encontrar na realidade, surgem dúvidas sobre o seu conceito de vida, a sociedade, o valor do esforço e do trabalho, a vontade de empreender.

Os jovens, e os não tão jovens, podem enxergar nessa realidade virtual valores atraentes que não encontram na “dura realidade”, e começarem a reconsiderar em sua vida o valor da formação, do trabalho, do esforço, do envolvimento em uma relação íntima, etc.

Não há dúvidas de que o nosso autoconceito é construído em grande parte graças às referências que recebemos do exterior. No entanto, em poucos lugares essas referências aparecem tão adulteradas como nas redes sociais. Em poucos lugares podemos parecer tão pequenos quando, na verdade, temos a possibilidades de ser muito grandes.