Os pais que gostaríamos de ter (e não tivemos)

Há muita gente que gostaria de ter um pai mais presente e compreensivo ou uma mãe mais carinhosa... Esse vazio do que não tivemos deixa a sua marca no nosso presente. O que podemos fazer?
Os pais que gostaríamos de ter (e não tivemos)

Última atualização: 08 Abril, 2021

Os pais que gostaríamos de ter e não tivemos muitas vezes formam uma marca que fere e que nos acompanha pelo resto da vida. É um vazio que é acompanhado pela sensação quase persistente de que algo está faltando em nossa existência. Porém, apesar disso, muitos continuam mantendo contato com esses pais que, afinal, continuam sendo uma parte de nós.

Existem inúmeras maneiras de ser um bom pai e uma boa mãe. O que é surpreendente é que também existem múltiplas formas do oposto. No entanto, apesar disso, persiste o mito cultural de que a paternidade ou maternidade quase automaticamente dota uma pessoa de boas habilidades parentais. Presume-se, entre outras coisas, que todas as crianças são amadas e seu bem-estar é sempre uma prioridade.

Agora, como já sabemos, não é sempre que isso acontece. De alguma forma, somos quase forçados a presumir que às vezes o mundo é tão injusto quanto estranho. Também que existem maus pais e mães pouco amorosas, como também existem filhos que não amam os pais e que são violentos com eles.

O que pode ser feito quando existe aquela tristeza gravada em nós por não termos tido os pais que gostaríamos?

Tipos de pais que não amam seus filhos

Tipos de pais que não amam seus filhos

Existem alguns tipos de criação e educação que são invisíveis para a maioria. Estamos falando daqueles estilos que, sem abusos físicos, apresentam múltiplas carências que aos olhos dos outros passam despercebidas. Esses estilos parentais e maternais não têm nada a ver com a negligência infantil e muitas vezes são até compatíveis com levar as crianças ao parque, ao zoológico ou ao cinema.

Existem comportamentos que estão faltando, que estão ausentes e, no entanto, toda criança os percebe, independentemente da idade. Porque toda pessoa que vem a este mundo precisa de amor, segurança e aquele apego que valida e enriquece emocionalmente. Quando isso não existe ou não ocorre de forma adequada, qualquer criança percebe, independentemente de ter 3 ou 12 anos.

Assim, os pais que gostaríamos de ter e não tivemos são caracterizados por uma série de traços e comportamentos específicos. São perfis em que são frequentes a desaprovação, os gestos vazios, a frieza emocional e as exigências mais severas. Analisaremos essas tipologias a seguir.

Pais que não nos deram carinho

Existem pais que não amam seus filhos, como também existem aqueles que amam seus filhos infinitamente, mas os querem mal. As razões pelas quais isso acontece são múltiplas e não é tão fácil defini-las. Às vezes, pode ser que eles realmente não quisessem ser pais e ainda assim se arriscaram.

Outras vezes, podem ter problemas mentais ou simplesmente outros interesses em mente. Seja como for, poucas coisas são tão psicologicamente prejudiciais. Tanto é que estudos como o realizado na Universidade de Columbia indicam que esses tipos de experiências são vivenciados pelo cérebro da mesma forma que a dor física é processada.

Pais narcisistas

Os pais que gostaríamos de ter quase sempre são figuras com perfis capazes de dar amor sem limites. Em vez disso, o que temos são pais narcisistas que só priorizam a si mesmos.

Nessas situações, nunca importa o que uma criança deseja ou precisa; as suas prioridades são secundárias. Importa apenas o que o pai ou a mãe deseja.

Mães e pais controladores

Existem famílias controladoras que não permitem que o filha seja, nem cresça, nem amadureça, nem escolha o rumo da própria vida. Pais autoritários deixam marcas profundas porque cortam asas e enchem a mente do filho de profundas inseguranças. Esse tipo de criação e educação também deixa sua marca profunda no desenvolvimento da pessoa.

O pai e a mãe com amor preferencial

Existem pais e mães que professam um amor preferencial por apenas um dos seus filhos. Esse amor seletivo pelo filho ou filha negligencia o outro ou os outros, deixando-os em um desconcertante segundo plano.

Esses filhos destronados não sabem o que fizeram de errado, não entendem por que o afeto dos pais tem condições.

Adolescente triste

Os pais que gostaríamos de ter: a marca da carência

Os pais que gostaríamos de ter e não tivemos deixam uma ferida permanente. É a marca da carência, da sensação de não termos obtido o que precisamos em um determinado momento. É também o mal-entendido de por que certas coisas aconteceram da maneira como aconteceram. Essa decepção que está entremeada de tristeza e, às vezes, até de raiva, nos acompanha do passado ao presente.

Como podemos lidar com todos esses sentimentos?

Aceitar a imperfeição dos nossos pais

O primeiro passo para superar aquele dano à vida que um relacionamento ruim com nossos pais geralmente deixa é a aceitação. É preciso aceitar tudo o que aconteceu. Também é bom entender que nossos pais não eram perfeitos, que não agiam bem e que nada do que já aconteceu pode ser mudado. 

Aceitar o que você vivenciou não é ceder, é validar cada emoção sentida, cada decepção e experiência e depois seguir em frente.

Nós não tivemos culpa

Existem muitas pessoas que, mesmo na idade adulta, continuam a supor que talvez tenham feito algo errado para não ter recebido o afeto do pai ou da mãe.

Nenhuma criança ou adulto é culpado de que um ou ambos os pais não os tenha amado como mereciam. A responsabilidade é sempre dos pais.

Somos merecedores de amor

É verdade que os pais que gostaríamos de ter nunca serão o que esperávamos, que uma segunda chance raramente é dada e que o passado não é fácil de reparar. No entanto, há um fato sobre o qual devemos ser claros. Somos merecedores de amor, e o carinho que não recebemos dos nossos pais pode vir de muitas outras figuras: amigos, parceiros, irmãos, tios…

O amor, de onde quer que venha, sempre nutre e enriquece. O afeto autêntico do presente é o bálsamo para qualquer falta do passado.

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  • Kross, Ethan, Marc G. Berman et al.  “Social rejection shares somatosensory representations with physical pain” (2011) PNAS, vol, 108, no.5, 6270-6275.