Quais são os tipos de inteligência?

17 Dezembro, 2020
Einstein foi mais inteligente do que Tesla? O que existe em Messi e outras grandes estrelas da atualidade? Realmente é possível definir quem é o "mais inteligente de todos"? Veremos a seguir.

Até pouco tempo atrás, ninguém falava nos diferentes tipos de inteligência. A inteligência era considerada algo inato e absoluto. Acreditava-se que uma pessoa podia nascer inteligente ou não e que era impossível que isso pudesse mudar por meio da aprendizagem. Acreditava-se também que a pessoa inteligente era excepcional em todos os âmbitos da sua vida.

Howard Gardner colocou isso em dúvida e, com o tempo, expôs o que conhecemos como Teoria das Inteligências Múltiplas (1983), que indica a existência de diferentes tipos de inteligência e sugere que muitas delas podem ser desenvolvidas por meio da inteligência emocional.

Ser inteligente não significa fazer tudo com perfeição

Gardner define a inteligência como a capacidade de resolver problemas ou elaborar produtos que sejam valiosos em uma ou mais culturas. Ele não estabelece uma só inteligência com diferentes características, mas um conjunto de inteligências múltiplas, diferentes e independentes entre si. Desta maneira, amplia o campo do que considera inteligência e afirma que o sucesso científico não quer dizer que a pessoa seja mais inteligente em todos os aspectos da sua vida.

Ser bem-sucedido em finanças, negócios, esportes ou análises, etc., requer ser inteligente, mas em cada campo utiliza-se um tipo específico de inteligência. Pode ser que, para uma determinada disciplina, seja necessário possuir uma das inteligências, mas nenhuma é melhor ou menos relevante do que as outras. Consequentemente, na hora de se desenvolver na vida, o currículo acadêmico tem uma importância relativa.

Stephen Hawking não é mais ou menos inteligente que Seu João, o verdureiro do bairro, que é uma pessoa amorosa com os vizinhos e com seus clientes e tem uma linda família. Nem Einstein é mais inteligente que Lionel Messi, nem Bill Gates que Picasso. Essas pessoas simplesmente possuem inteligências diferentes.

Se a inteligência é entendida como uma capacidade, implica uma forma de construir o mundo, de traçar distinções, de olhar a vida. De centralizar a atenção em certos aspectos do fenômeno que se nota de acordo com o tipo de inteligência predominante na pessoa.

“Não temos apenas uma inteligência. Cada ser humano possui uma combinação única”.
– Howard Gardner-

Os tipos de inteligência

Os oito tipos de inteligência

Todos os seres humanos são capazes de conhecer o mundo a partir de oito modos diferentes, já que são oito os tipos de inteligência descritos por Gardner.

As pessoas aprendem e implementam o sabem de diferentes maneiras. De fato, Gardner acredita que todos os seres humanos têm a capacidade de desenvolver amplamente a sua inteligência.

Essas diferenças mostram a preferência por uma área de conhecimento e constituem um desafio ao sistema de educação, que estrutura seu plano de estudos de maneira universal sob a crença de que todas as pessoas podem aprender as mesmas matérias da mesma maneira.

Vejamos, a seguir, quais são os diferentes tipos de inteligência.

Inteligência linguística

A inteligência linguística é predominante entre os líderes políticos, os escritores, os poetas, os bons redatores, etc. Utiliza os dois hemisférios do cérebro, e parece que ambos contribuem para o processamento e a compreensão da linguagem:

  • O hemisfério esquerdo processa o significado linguístico da prosódia. A prosódia é a cadência da fala, o ritmo, os tons e as ênfases.
  • O hemisfério direito processa as emoções comunicadas pela prosódia. Implica a capacidade de compreender a ordem e o significado das palavras na leitura, na escrita, e também ao falar e escutar.

No cérebro, a área de Broca está envolvida no processamento da gramática, ou seja, na produção de orações gramaticais, e a área de Wernicke na compreensão da fala.

Inteligência lógico-matemática

A inteligência lógico-matemática é a que historicamente foi considerada como a “única inteligência”. Mostra a habilidade na resolução de problemas matemáticos e de lógica.

Possui um predomínio do hemisfério esquerdo e é a inteligência dos cientistas, engenheiros, economistas, etc., pois permite a dedução, sistematização na construção de hipóteses e avaliação das mesmas, o processamento da informação e a contemplação de inúmeras variáveis ao mesmo tempo.

Nos testes mentais, principalmente os que exploram o quociente de inteligência (QI), são avaliadas a inteligência lógico-matemática associada com a linguística, já que a primeira é não verbal e se desenvolve mais no campo das ideias.

Inteligência espacial

A inteligência espacial é a que consiste em formar um modelo mental do mundo em três dimensões: é a inteligência predominante nos artistas, principalmente nos escultores, arquitetos, marinheiros, engenheiros, cirurgiões, decoradores, fotógrafos, desenhistas e publicitários, entre outros.

O hemisfério direito é a parte do cérebro encarregada do cálculo espacial. Quando ocorre uma lesão na parte posterior do cérebro no hemisfério direito, a pessoa tende a ficar desorientada, não reconhecendo rostos ou cenas.

A resolução de problemas espaciais é uma capacidade utilizada da navegação, no ato de dirigir um carro em direção a um lugar desconhecido, no uso de mapas, até no jogo de xadrez e, é claro, nas artes gráficas e visuais, e no uso de três dimensões. Permite criar imagens mentais, representar ideias e, consequentemente, permite desenhar mostrando a representação ideal. A seletividade na atenção está depositada em detalhes visuais.

Inteligência musical

A inteligência musical é a que possibilita a expressão adequada de músicos, cantores, bailarinos, compositores, críticos musicais, etc. Permite escrever, criar e analisar a música. É a capacidade de cantar, dançar, escutar, tocar instrumentos.

No hemisfério direito encontram-se algumas áreas que não estão totalmente localizadas, e que estão relacionadas à percepção e à produção musical. No desenvolvimento infantil, existe uma habilidade natural e uma percepção auditiva (ouvido e cérebro) inata na primeira infância. Esta é a habilidade para aprender sons, tons, tocar instrumentos.

Inteligência corporal cinestésica

A inteligência corporal cinestésica é a capacidade de se expressar através do corpo e desenvolver ações que exijam força, coordenação e equilíbrio, rapidez, flexibilidade, fazer reparos ou criar por meio das mãos, etc.  É a inteligência dos artesãos, esportistas, cirurgiões, escultores, atores, modelos, bailarinos, etc.

O controle de movimento e domínio do próprio corpo está localizado no cérebro, mais precisamente no córtex motor: cada hemisfério domina ou controla os movimentos corporais correspondentes ao lado oposto.

Além da motricidade grossa, a evolução dos movimentos corporais específicos (motricidade fina) é de grande importância para o desenvolvimento da espécie humana, desde a habilidade de coordenar o macro, até resolver problemas que implicam a habilidade de manusear ferramentas.

Está claro que existe uma distinção entre conduzir cineticamente para solucionar um problema e utilizar o corpo para competir ou praticar um esporte, ou expressar emoções em dança ou criar esculturas, já que enquanto a primeira é combinada com uma inteligência lógico-matemática, o restante ingressa no universo da intuição.

Bailarinas

Inteligência intrapessoal

A inteligência intrapessoal é a que permite conhecer e entender a si mesmo. É a que possibilita realizar uma introspecção sobre os aspectos internos, conscientizar-se a respeito da própria identidade, acessar o universo das emoções, interpretar as próprias condutas nas ações, conectar-se com o próprio sistema de crenças, em síntese, tudo o que envolve se relacionar com o mundo interno.

São os lobos frontais que proporcionam a quota analítica e crítica sobre nós mesmos, e os pré-frontais os que nos proveem dos valores morais que nos guiam sobre o que está certo e o que está errado.

A inteligência intrapessoal é a capacidade de planejar objetivos, entender as próprias habilidades para desenvolvê-las, conhecer o próprio potencial de acordo com as metas. Implica poder refletir sobre si mesmo gerando autoconhecimento com o intuito de dar o melhor à sua volta. Em outras palavras, permite se compreender melhor e trabalhar consigo mesmo.

Fundamentalmente, esta análise e reflexão sobre si é a base que acentua a identidade pessoal (quem sou), é o que nos possibilita ter um lugar nos sistemas.

Inteligência interpessoal

A inteligência interpessoal é a que permite compreender outras pessoas, e inclusive trabalhar com elas, assim como ajudar as pessoas a identificar e superar problemas. Por esta razão, é possível encontrar bons vendedores, líderes políticos e religiosos, professores ou terapeutas e mestres.

É a capacidade de detectar nos outros seu estado de espírito, características de personalidade, expectativas, até mesmo sua intencionalidade. É a habilidade de alcançar a interação humana, de captar intenções, ler a linguagem implícita, mensagens paraverbais, conseguir agir da maneira mais efetiva, tendo empatia nas relações.

Dentro dos aspectos neurofisiológicos, os lobos frontais e pré-frontais desempenham um papel importante no conhecimento interpessoal. Os seres humanos integram sistemas que implicam a interação social, cooperação, solidariedade, ajuda, liderança, elementos que geram coesão e harmonia em grupo.

Inteligência naturalista

A inteligência naturalista é a capacidade de observar e estudar a natureza com o objetivo de conhecê-la, classificá-la e ordená-la. É própria dos biólogos e botânicos, que agrupam espécies ou grupos de objetos e pessoas e estabelecem diferenças e semelhanças entre eles.

Gardner afirma que esta inteligência teve suas origens nas necessidades do homem primitivo de se adaptar ao contexto, já que deveria reconhecer quais eram as espécies permitidas para alimentação e quais eram prejudiciais, além da necessidade de construir elementos para a caça, adaptar-se ao clima e às suas mudanças, poder se refugiar e se proteger dos perigos.

Os naturalistas são hábeis para observar, identificar e classificar os membros de um grupo ou espécie, ou criar novas tipologias. Possuem a habilidade de reconhecer fauna e flora. Isso também pode ser aplicado em qualquer âmbito da ciência e cultura, pois as características desta inteligência são as características de pessoas que se dedicam à pesquisa e aplicam sistematicamente o método científico.

Em maior ou menor medida, as pessoas aplicam este tipo de inteligência quando se ocupam de plantas, animais, mudanças climáticas, etc., mas essa capacidade se une à classificação científica. A inteligência naturalista é uma revisão posterior de Gardner (1986) e foi adicionada às inteligências múltiplas, razão pela qual atualmente são 8 os tipos de inteligência descritos.

Consciência ambiental

Ser inteligente é ter consciência de quem somos

“A inteligência, o que consideramos ações inteligentes, são modificadas ao longo da história. A inteligência não é uma substância na cabeça, como a gasolina é para um tanque [de carro]. É uma coleção de potencialidades que se completam”.
– Howard Gardner-

Certamente, quando você leu cada um dos tipos de inteligência e suas descrições, sentiu-se mais identificado com uma ou várias. Isso é algo perfeitamente normal e, além disso, muito útil.

Ser consciente do tipo ou tipos de inteligência que possuímos nos dá a possibilidade de reconhecer nossas limitações e capacidades, bem como treinar as inteligências nas quais não nos consideramos tão hábeis.

Polir a inteligência que temos e melhorar nosso déficit é uma forma de melhorar a nós mesmos e nosso universo de vínculos.

Ser inteligente não é somente ser hábil em matemática, saber classificar melhor todas as espécies de animais, fazer uma escultura monumental bem detalhista ou ter um bom currículo ao se candidatar a um emprego. Na vida real, ser inteligente é muito mais do que isso.

  • Gardner, H. (1983). Frames of Mind: The theory of Multiple intelligences. New York: Basic Books.
  • Gardner, H. (1991) The Unschooled Mind: How children think and how schools should teach, New York: Basic Books.
  • Gardner, H. (1993). Multiple intelligences: The theory in practice. New York: Basic Books.
  • Gardner, H. (1994). Prólogo al libro de Th. Armstrong: Multiple intelligences in the clasroom. Alexandria: ASCD.
  • Gardner, H. (1999). Intelligence reframed: Multiple intelligences for the 21st century. New York: Basic Books.
  • Gardner, H. (2001). An Education for the future. The Foundation of Science and Values. Paper presented to The Royal Symposium: Amsterdam, March 13. Gardner, H. (2004). Changing minds: The art and science of changing our own and other p