O papel da aparência física na atração

agosto 26, 2019
O papel da aparência física na atração por uma pessoa foi objeto de estudo de inúmeras pesquisas. Este é um fenômeno com o qual convivemos dia após dia, que gera vários mitos, fazendo com que muitas pessoas se sintam inseguras na hora de estabelecer uma relação amorosa.

São muitas as teorias que falam do papel da aparência física na atração, especialmente analisando a sua função no começo do relacionamento. Dentro da psicologia social, este também é um aspecto estudado sobre o qual foram feitas diversas pesquisas.

É necessário definir o termo atração, dado que ele pode ser confundido com a afiliação que ocorre nas relações de amizade. Na verdade, é possível estabelecer relações sem que nos sintamos atraídos pela outra pessoa.

Autores como Surra e Milardo (1988) estabelecem dois tipos de relações entre os seres humanos. Em primeiro lugar, encontramos as redes interativas, nas quais as pessoas interagem instrumentalmente para alcançar objetivos.

Em segundo lugar, temos as redes psicológicas, nas quais as pessoas se sentem próximas e importantes para os demais, e os vínculos que estabelecem vão além das metas.

Por isso, o termo atração faz parte das redes psicológicas. Dentro delas, entende-se como atração a disposição natural a estabelecer uma relação com o outro, a interagir com ele e a avaliar suas ações e sugestões de maneira positiva.

Casal apaixonado se olhando nos olhos

Feingold e os anúncios de encontros

Autores como Feingold (1990) quiseram estudar o papel da aparência física na atração na hora de estabelecer relações. Para conduzir a pesquisa, foram determinados cinco elementos metodológicos:

  • Questionários com escalas: os participantes tinham que pontuar diferentes atributos que considerassem relevantes em um potencial parceiro – entre eles, a aparência física.
  • Testes de correlações entre atratividade física e popularidade.
  • Encontros às cegas, nos quais o nível de atratividade física e as interações que ocorriam posteriormente eram manipulados.
  • Descrições físicas falsas sobre futuros companheiros de trabalho para medir o nível de agrado que produzia nos participantes.
  • Análises do conteúdo de anúncios de encontros nos jornais.

Seu objetivo era verificar se a beleza determina nossas avaliações dos demais. A resposta foi afirmativa.

O estudo descobriu que os homens valorizavam mais a aparência física do que as mulheres, mas também foi possível determinar que este efeito foi maior nas medidas subjetivas do que nas reações comportamentais.

Isso significa que parece que existem diferenças entre o que estes participantes diziam buscar em um parceiro e o que realmente buscavam. Estas medidas também podem ter sido enviesadas pelo estereótipo do que é considerado atraente na sociedade.

Índices românticos e platônicos

Este mesmo estudo demonstrou que as mulheres mais atraentes tinham mais encontros românticos. Os homens atraentes, por outro lado, tinham um maior índice de popularidade platônica – ou seja, amigas.

Isso permite entrever a ideia de que, quando as interações são românticas, a atratividade física parece ser mais importante para os homens. Por outro lado, quando o objetivo é a amizade, a beleza passa a ser mais relevante para as mulheres.

A aparência física, o dinheiro e a bondade

Outra pesquisa realizada por Hamermesh e Biddle (1998) ilustra a existência de uma relação entre o dinheiro, ou os recursos materiais, e a atratividade física.

Eles descobriram que os indivíduos menos atraentes ganhavam significativamente menos do que os que pontuavam alto em atratividade. O sexo, a ocupação e o gênero não foram aspectos relevantes para os resultados.

Eagly (1991) analisou o peso da aparência física na atração por meio de construtos psicológicos relevantes, como a competência social, a inteligência, a integridade e o altruísmo.

Ele encontrou uma relação direta entre a atratividade e a competência social (cujas explicações podem estar relacionadas com a facilidade para estabelecer contato ou ser aceito), uma relação moderada entre a competência intelectual e a atratividade, e uma relação nada relevante entre altruísmo, integridade e atratividade.

A sociobiologia tem a chave

A influência da aparência física foi estudada na atração e na seleção de um parceiro. A explicação se refere à forma como homens e mulheres investem na reprodução.

Querer garantir a presença dos genes nas gerações seguintes é o que determina o que interessa a uns e a outros. Estes traços não apenas se definem pela atratividade física, mas parecem ter um papel crucial.

  • Seguindo as teorias evolutivas, as pessoas que se sentem atraídas por mulheres buscam nelas traços de saúde reprodutiva, intimamente relacionada com a juventude e a beleza.
  • Para as pessoas atraídas por homens, os traços mais relevantes costumam ser a capacidade de defesa para manutenção dos filhos, ou seja, a dominância.

Sociobiologia e protótipos de beleza universal

Os protótipos de beleza universal parecem confirmar a hipótese psicobiológica ao definir o ideal de beleza feminina com atributos associados à imaturidade e à maternidade.

Estes atributos são olhos e boca grandes, nariz pequeno, seios fartos e quadril largo. Com o ideal de beleza masculino, a relação se dá com mandíbula larga e força muscular.

No entanto, como mencionamos anteriormente, no caso dos homens os traços dos quais a sociobiologia fala não se relacionam apenas com a aparência física.

Um estudo realizado por Jensen Campbell concluiu que os mais atraentes entre os homens não eram os mais dominantes fisicamente, e sim aqueles que tinham mais comportamentos que envolviam prestar ajuda.

A teoria parasitária e o papel da mídia

Gangestad e Buss (1993) propuseram a teoria parasitária, também presente dentro da psicobiologia. Eles observaram o papel da atratividade física em 29 culturas diferentes.

Foi possível verificar que nas regiões em que é mais provável sofrer um contágio por parasitas patogênicos, a atratividade física era muito mais valorizada. Isso acontecia porque a aparência física parece ser um bom indicador de imunocompetência e resistência a doenças.

Por outro lado, Feingold acredita que a mídia teve um papel fundamental no que os seres humanos consideram “atraente”.

Ele defende que alguns mitos se mantêm graças a sua visibilidade em filmes e séries – heróis bonitos, bondosos, fortes e com todas as características que alguém poderia querer em um parceiro.

A tendência a generalizar do ser humano faria com que esta relação entre atratividade e características positivas fosse aplicada a todos os tipos de contextos. Isso faz com que nós sejamos vítimas de um erro fundamental de atribuição, no qual, sem dados suficientes, supomos o sucesso das pessoas atraentes.

Acreditamos que a atração e os traços de personalidade positivos têm algum tipo de relação, quando certamente este sucesso se deve a fatores externos e instáveis.

Homem beijando sua namorada

A profecia autocumprida

Portanto, atribuiríamos virtudes de competência e bondade a pessoas atraentes, e nos comportaríamos de maneira consequente com esta atribuição. Nos relacionamos com alguém competente, com alguém bom, e queremos manter o equilíbrio com a reciprocidade: estar à altura de alguém.

O fato de dar tudo isso a uma pessoa pode provocar uma reação nela, de forma que fique mais predisposta a se comportar da mesma maneira. Isso se chama profecia autocumprida.

Se nos relacionarmos com alguém que consideramos mal-sucedido, menos inteligente e mais desprezível, a nossa predisposição será muito diferente. Estas interações também marcarão a resposta do interlocutor, e se formos com expectativas muito fortes, mas negativas, será mais fácil encontrar o que já esperamos encontrar.

Seja com for, através da psicobiologia e dos estereótipos sociais, parece que a aparência física tem uma importância relevante na atração na hora de estabelecer relações.

Não é o único aspecto, pois outros, como a semelhança em relação ao interlocutor e a familiaridade, já foram descobertos, mas definitivamente é um deles.