O polígrafo é eficaz?

· abril 22, 2018

O polígrafo, geralmente conhecido como “detector de mentiras”, é um instrumento criado no século XX. Sua etiologia linguística deriva de poli = “muitos” e grafo = referente a gráficos e à escrita. Assim, podemos dizer que o polígrafo é a máquina responsável por gerar muitos gráficos simultaneamente. Mas, o que esses gráficos medem? Eles simplesmente determinam a resposta fisiológica que o entrevistado está apresentando.

Este instrumento nasceu com a ideia de que as emoções são refletidas nas respostas fisiológicas. Ou seja, se eu sinto medo, isso irá resultar em sudorese, aumento da frequência cardíaca, respiração agitada, por exemplo. Acima de tudo, tem sido usado com pessoas suspeitas de terem cometido um crime para tentar determinar se, com o seu testemunho, mentem ou dizem a verdade.

Breve história do polígrafo

A partir dos anos 20, começou a se desenvolver a ideia de criar uma máquina que pudesse detectar mentiras. Foi assim que testemunhamos o nascimento do polígrafo, e William Marston foi o encarregado de dar forma ao projeto. Criou uma curva da mentira baseada em diferentes medidas da pressão arterial. No entanto, os resultados de seu detector de mentiras não foram aceitos como prova, pois não foram aprovados como procedimento ou mesmo pela comunidade científica.

Posteriormente Larson, um psiquiatra e policial de Berkeley, construiu uma versão modificada do detector de mentiras de seu antecessor. Com isso, quis modernizar as forças de segurança e evitar a brutalidade que costumavam empregar para obter os depoimentos. Junto à pressão sanguínea, introduziu outra medida: o ritmo respiratório. Com isso pretendia aumentar a precisão dos resultados. Assim, em 1924, o polígrafo começou a ser usado em investigações policiais.

Uso do polígrafo

No entanto, para chegar ao polígrafo atual, esse polígrafo intermediário teve de sofrer um novo retoque, adicionado por Keeler. Desta forma, a nova variável mensurável adicionada às variáveis ​​anteriores foi a condutividade eletrodérmica. Isto é, a característica de que nossa pele é capaz de conduzir eletricidade. Entendia-se que a dúvida e, por extensão, a mentira, aumentavam a condutividade de nossa pele. Essa reação se relaciona com o medo ou a ansiedade.

Como o polígrafo funciona?

Dentro do polígrafo existem dois testes que são usados ​​em maior extensão. Seus procedimentos são distintos, mas ambos se baseiam na formulação de perguntas com o objetivo de criar certas alterações emocionais no potencial suspeito, de forma que estas sejam exteriorizadas fisiologicamente.

CQT (Control Question Test)

Em outras palavras, o Teste da Pergunta de Controle. É o mais usado. É caracterizado pelos três tipos distintos de questões formuladas: as questões irrelevantes, relevantes e as de controle.

Irrelevantes

São as perguntas que não oferecem nenhum tipo de informação importante. São gerais e não se relacionam com o caso investigado. Não se espera que a pessoa apresente qualquer tipo de ativação ao respondê-las.

Relevantes

Elas se relacionam com a investigação. São perguntas específicas sobre o evento ocorrido. Espera-se que as respostas sejam negativas (dar uma resposta afirmativa suporia admitir os fatos) e que os culpados sofram uma maior ativação (tanto emocional quanto fisiológica).

Controle

Questões extremamente ambíguas. São muito imprecisas e destinam-se a serem formuladas de tal maneira que seja impossível respondê-las de uma maneira negativa sem duvidar da própria resposta. Referem-se, na maior parte, a fatos muito distantes.

Não têm nenhum tipo de relação com o caso, mas podem se referir a atos realizados pela pessoa há algum tempo e que podem apresentar alguma semelhança com o ocorrido. Por exemplo, se o crime foi um assassinato, o entrevistado é questionado se já machucou alguém durante sua vida. Com isto, pretende-se que tanto os culpados quanto os inocentes apresentem a mesma ativação.

Desta forma, o que se pretende conseguir é que os inocentes apresentem uma maior ativação antes das questões de controle. Ao serem mais ambíguas, eles têm medo de cometer um erro em sua resposta. Nas respostas relevantes, respondem com menos ativação, porque eles não têm nada a ver com o caso. No entanto, os culpados mostram uma maior ativação nas questões relevantes, porque no final as consequências derivadas deste tipo de questões são maiores que as de controle.

GKT (Guilty Knowledge Test)

O teste de conhecimento do culpado. Refere-se ao conhecimento que o culpado tem sobre o caso. Várias perguntas são feitas com várias opções de resposta, de modo que apenas uma delas esteja correta.

Entende-se que o culpado sabe qual é a opção correta a escolher, pois apresenta uma excitação maior quando a resposta é apresentada. No entanto, o inocente, que não conhece o caso, apresenta o mesmo nível de ativação em cada uma das possibilidades ao não saber qual é a correta por não ter conhecimento sobre o assunto. Desta forma, a resposta correta é totalmente reconhecível para o culpado, mas igualmente provável que sejam as outras opções para o inocente.

Medições do polígrafo

Limites do polígrafo

Apesar do uso dado ao polígrafo durante anos, não podemos ignorar que existem certas limitações que reduzem a confiabilidade do mesmo. O National Research Council divulgou em 2003 um relatório sobre o polígrafo. Por exemplo, nele foram analisadas as bases psicológicas nas quais este instrumento é baseado ou que os procedimentos seguem. Suas conclusões mais importantes foram:

  • Precisão do polígrafo: as respostas fisiológicas medidas por ele não respondem apenas à mentira. Ou seja, existe uma grande variedade de processos psicológicos que podem se exteriorizar fisiologicamente da mesma forma que a mentira. Isso limita enormemente a precisão que se pretende alcançar.
  • Bases teóricas: as bases científicas teóricas nas quais o polígrafo é fundamentado são muito fracas. Os termos de medo, ativação ou outros termos emocionais não são bem definidos.
  • Por causa disso, as medidas do polígrafo não são totalmente confiáveis ​​quando se generalizam os resultados a outras populações e grupos dos quais foram obtidos os resultados. Em resumo, não se pode generalizar os dados a pessoas distintas que não foram as examinadas.
  • Realismo da evidência: a pesquisa em laboratórios não se ajusta à realidade dos testes. Neste caso, as conseqüências de determinar se uma pessoa mente ou não serão muito importantes. No entanto, esta falta de realismo na pesquisa pode levar a sérios problemas na vida real ao apresentar uma taxa de erros elevada ao avaliar inocentes.
  • O polígrafo é usado quando não há evidências muito fortes para incriminar um suspeito, e geralmente seus resultados não podem ser confirmados.
  • Existem medidas para mentir para o polígrafo. O controle das medidas e das respostas fisiológicas pode ser aprendido, dando as respostas que o sujeito examinado quer, e não aquelas que pretendem obter com o teste do polígrafo.

Então… o polígrafo é eficaz?

Embora tenhamos destacado algumas limitações, o relatório aponta muito mais. A partir disso, podemos deduzir que, de fato, o polígrafo está longe de ser completamente confiável. Algo muito preocupante se pensarmos no campo em que é aplicado.

A verdade é que há várias deficiências que não foram corrigidas. Isso deve acionar nossos alarmes, uma vez que o uso de um método que não garante resultados precisos sobre a mentira pode aumentar significativamente a probabilidade de condenação de pessoas que na realidade são inocentes.

Referencias bibliográficas

  • National Research Council, (2003). The Polygraph and lie detection., Washington, DC: The National Academies Press