Por que as crianças imitam os adultos?

março 7, 2020
Uma das nossas maiores responsabilidades é ser o melhor exemplo para as nossas crianças. Isso porque elas, especialmente durante os primeiros 5 anos de vida, imitam tudo que veem nos adultos.

Para o bem ou para o mal, as crianças imitam os adultos. Quase sem percebermos, seus olhares infantis nos estudam e analisam, integrando comportamentos, copiando gestos e internalizando palavras, expressões e até papéis. É claro que os filhos nunca serão cópias exatas de seus pais; a impressão que deixamos neles, no entanto, muitas vezes é decisiva.

Isso é algo que sempre esteve claro no campo da psicologia do desenvolvimento. Albert Bandura, por exemplo, um reconhecido psicólogo no campo da aprendizagem social, escreveu extensivamente sobre um de seus principais conceitos, a “modelagem”. De acordo com ele, as pessoas aprendem imitando comportamentos que veem em seu entorno, a partir dos modelos sociais com os quais crescem ou interagem.

Portanto, as crianças não imitam apenas os seus pais. Como sabemos, elas não vivem em ambientes isolados. Atualmente, elas têm mais estímulos sociais do que nunca, e até “modelos” que vão além da casa e da escola. Também não podemos esquecer a televisão e as novas tecnologias, pelas quais elas se movem desde a mais tenra idade como verdadeiros “nativos”.

Tudo o que veem, ouvem e acontece ao seu redor as influencia e as determina. Nós, adultos, somos um vasto teatro de personagens que elas imitam e que acabam influenciando o seu comportamento e até sua maneira de entender o mundo. Vejamos mais sobre o tema a seguir.

“A aprendizagem é bidirecional: aprendemos com o ambiente e o ambiente aprende e se modifica graças às nossas ações”.
-Albert Bandura-

Filho imitando o pai

Por que as crianças imitam os adultos?

Sabemos que as crianças imitam os adultos, mas por que elas fazem isso? O psicólogo do desenvolvimento Moritz Daum, da Universidade de Zurique, destaca algo interessante. Esse comportamento quase instintivo nos seres humanos (e também nos animais) serve mais do que apenas para aprender. Imitar também constrói um sentimento de pertencimento e ajuda os humanos a se identificarem com um determinado grupo.

Então as crianças são realmente como esponjas e tendem a imitar tudo o que veem? Com que idade elas começam a prestar atenção no que as rodeia para começar a modelar? Analisemos essas e outras questões.

Quando as crianças começam a imitar os adultos?

Sabemos que a imitação começa logo após o nascimento. Alguns recém-nascidos copiam movimentos faciais, como colocar a língua para fora. No entanto, esse processo não amadurece até que eles tenham mais de um ano de idade.

Por sua vez, bebês de seis meses já entendem o comportamento intencional. O que isso significa? Significa, por exemplo, que quando veem a mãe ou o pai se aproximarem para pegá-los no colo, eles se sentem bem. Eles já entendem quais coisas são agradáveis ​​e desagradáveis ​​em sua rotina diária. Tudo isso forma a base para que reconheçam padrões e comportamentos e entendam que, após algumas ações, outras ocorrem.

É entre 19 e 24 meses que as crianças começam a copiar muitas coisas que veem nos outros. Imitam seus pais, seus irmãos mais velhos e também aquelas pessoas que elas podem assistir na TV. Elas fazem isso para aprender, mas também para serem iguais aos outros e se sentirem parte de um grupo social.

Quando as crianças começam a imitar os adultos?

As crianças escolhem quem e o que imitar?

Antes de chegar à questão de se as crianças imitam apenas por imitar ou se elas tendem a escolher o que copiar, é interessante saber que existem certos estímulos que as atraem mais que outros.

Foi descoberto que quando uma criança é cercada por outras crianças da mesma idade e também por adultos, ela tende a imitar o comportamento de seus colegas. Os neurônios-espelho se ativam muito mais quando elas estão com alguém com características semelhantes a elas.

Por outro lado, quando uma criança precisa aprender algo em particular, ela se volta para os adultos. Este princípio se encaixa na teoria da zona de desenvolvimento proximal de Lev Vygotsky. Em outras palavras, elas sabem que, com o suporte adequado, podem passar para outro nível, para outra fase de maior competência. Mas para isso, precisam de “modelos especializados”, isto é, adultos.

Outro detalhe certamente despertará o seu interesse. De acordo com um estudo realizado na Universidade de Londres pela Drª. Victoria South, crianças de 18 meses já tendem a imitar o que lhes é familiar quando é repetido várias vezes e acompanhado pela linguagem. De fato, é assim que os processos comunicativos amadurecem.

As crianças não sabem se o que imitam é adequado ou não

Algumas descobertas de um estudo realizado na Universidade de Yale impressionam. Derek Lions, o autor, destaca que, durante um período específico de suas vidas, as crianças imitam os adultos em excesso e de maneira mimética. Essa “superimitação” ocorre durante os primeiros cinco anos de vida. Isso significa que elas ainda não possuem um senso crítico ou um pensamento mais sofisticado para inferir se o que os adultos fazem ou dizem é adequado, útil ou moral.

Neste estudo, foi realizado um experimento. Nele, um grupo de adultos mostrou a crianças de três anos de idade como abrir uma caixa. O modo como eles abriram a caixa foi tão complexo e com etapas completamente inúteis e quase ridículas, que levaram muito tempo para abri-la.

Quando as crianças tentaram por conta própria, copiaram cada um dos passos que os adultos realizaram, incluindo os que eram inúteis.

Esse mesmo experimento foi aplicado a outro grupo de crianças da mesma idade, que foram convidadas a realizar o mesmo exercício mas sem nenhum exemplo, sem nenhum adulto servindo de modelo. As crianças concluíram a atividade sem passos extra.

Mãe e filha no campo

Conclusão

Todos esses dados apoiam a nossa intuição. As crianças aprendem observando tudo ao seu redor, mas elas prestam atenção especialmente a suas mães e seus pais. Ser o seu melhor modelo é uma grande responsabilidade, e talvez a mais importante de todas.

De nós, elas aprenderão o bom e o ruim, e cada adulto será o espelho no qual, durante um certo tempo, elas se veem. Portanto, cuidemos ao máximo de cada comportamento, cada gesto e cada palavra para que sirvam como um ponto de partida para sua felicidade e bem-estar.

  • Southgate, V., Chevallier, C., & Csibra, G. (2009). Sensitivity to communicative relevance tells young children what to imitate. Developmental Science12(6), 1013–1019. https://doi.org/10.1111/j.1467-7687.2009.00861.x