Pranto emocional: um santo remédio para "drenar" a alma

Pranto emocional: um santo remédio para “drenar” a alma

Fevereiro 26, 2017 em Psicologia 0 Compartilhados
Pranto emocional: um santo remédio para "drenar" a alma

Há quem chore em silêncio, durante um breve instante e em discreta solidão. Contudo, a única forma de recomeçar, de drenar tristezas, frustrações e tensões é através do pranto emocional. O desabafo verdadeiro só é possível por meio dessas lágrimas que são derramadas como oceanos temperados por uma voz quebrantada.

Os especialistas em psicologia apontam que poucos comportamentos nos fazem tão humanos quanto o riso e o pranto. De fato, ambas expressões emocionais têm muitos aspectos em comum. Dispõem, por exemplo, de um fator de “preservação”. Isto é, quando o riso ou as lágrimas se iniciam, têm uma duração determinada que não pode ser abreviada facilmente. Além disso, ambos conseguem um mesmo objetivo:  fazer-nos sentir melhor.

A alma descansa quando deixa fluir suas lágrimas, mas a dor precisa do pranto para encontrar o alívio verdadeiro.
Compartilhar

Por outro lado, todos sabemos que o pranto emocional – esse que provoca o verdadeiro desabafo – não é bem visto socialmente. Ao contrário, a lágrima discreta que escorrega em um discurso político ou no olhar trêmulo emocionado pelo orgulho ou pela contemplação da beleza são mais aceitos.

Talvez por isso, a maioria de nós evita o que se conhece como o “pranto vocal”. Sempre é mais confortável procurar um canto às escuras onde ninguém nos veja para deixar as lágrimas fluírem, mas em discreto silêncio. Não queremos que ninguém nos ouça, nos veja e descubra que não somos tão fortes quanto aparentamos.

Contudo, psiquiatras e neurobiólogos são claros em dizer: o desabafo, seja sozinho ou acompanhado, precisa ser verdadeiro, expressivo e libertador. Tudo que implique um certo “autocontrole” continua gerando um fator de tensão e estresse. O pranto é necessário para o ser humano.

gota-orvalho

O pranto emocional, uma conduta com diversos propósitos

A maioria dos bebês chora quando chega ao mundo, mas seus prantos não têm lágrimas. O mecanismo cerebral que fará com que suas glândulas lacrimais secretem lágrimas ainda não está maduro. Contudo, seus prantos já cumprem uma função biológica imprescindível: garantir a sua sobrevivência ao se conectar com seus semelhantes para receber atenção, cuidados, consolo e afeto.

De forma semelhante, à medida que crescemos e amadurecemos o pranto vai cumprindo diferentes funções, tão interessantes quanto úteis.

Em primeiro lugar, um dos propósitos do pranto é eliminar as toxinas do organismo causadas pelo estresse e a ansiedade. Não é necessário que tenha acontecido alguma coisa ruim, sentir tristeza ou desconsolo. Às vezes também choramos por simples desgaste, e o fato de fazê-lo é tremendamente saudável.

A escola de psiquiatria da Universidade de Los Angeles (UCLA) mostrou em uma pesquisa que o pranto cumpre também uma função de advertência. É como um toque de atenção à própria consciência. Existem épocas em que nos sentimos frustrados, confusos por alguma coisa sobre a qual deveríamos reagir e não o fazemos.

Contudo, o simples fato de deixar as lágrimas correrem inicia sofisticados mecanismos biológicos para nos permitir ver as coisas com mais clareza.

pranto-emocional

Os cientistas explicam que o pranto emocional é, na verdade, uma inovação evolutiva excepcional. Não se trata apenas de “deixar as lágrimas caírem”. O pranto profundo, autêntico e que nos permite descarregar plenamente ativa a função das neurotrofinas. Trata-se de um tipo de proteína capaz de favorecer a plasticidade neurológica.

Dito de outra forma, ele “nos restaura”. Favorece novos aprendizados e nos ajuda a ser mais criativos para colocar em prática novas condutas que nos permitirão nos adaptarmos muito melhor ao nosso próprio entorno.

O pranto, a vulnerabilidade e o consolo

As responsabilidades profissionais, por exemplo, nos fazem precisar de momentos a sós para chorar alguns segundos. Médicos, enfermeiras, bombeiros, policiais… Muitos procuram um momento a sós para descarregar dramas, tensões cotidianas. Contudo, às vezes esses momentos não são suficientes. Não existe uma “restauração” verdadeira. Pouco a pouco chega a sobrecarga, o bloqueio, a ansiedade… E um espinho que já não permite respirar.

O mesmo acontece com os problemas cotidianos. Com as palavras que se calam. As perdas que não são enfrentadas. Com a dor que pulsa mas que nos esforçamos para disfarçar. Por que é tão difícil pedir ajuda? Por que o pranto emocional nos faz sentir tão vulneráveis diante das outras pessoas?

caracol

Saber dar apoio é uma arte que nem todos dominam

A realidade é tão dura quanto evidente: nem todo mundo sabe dar apoio. Com palavras como “E agoram por que você está chorando?” ou “Vamos lá, isso não tem importância”, o que se consegue é bloquear ainda mais a pessoa. Intensificar a emoção negativa e o abatimento.

  • Quando precisarmos desabafar com alguém, uma boa ideia é procurar a pessoa adequada. Nem todo mundo serve, nem todo mundo dispõe das adequadas estratégias para nos facilitar essa intimidade, essa facilidade para mandar embora aquilo que dói, o que prende. Os bons amigos, e certamente, os psicólogos, podem ser os melhores guias nesse processo.
  • Libertar-se com o pranto emocional na frente de alguém não é reflexo de fraqueza nem de vulnerabilidade. É o passo que alguém forte dá para descarregar as tensões, medos e tristezas com o propósito de se reconstruir novamente, de forma que possa se restaurar e receber ajuda.
  • Por outro lado, dar apoio não é dar um abraço. Não é dizer “está tudo bem”. É ser intuitivo com a finalidade de facilitar o desabafo, sabendo como propiciá-lo. É saber dizer “estou aqui, com você” sem que isso seja uma imposição, e obviamente, sem julgar. É ser discreto enquanto estamos presentes, trazendo proximidade.

Para concluir, apesar de ser complicado permitir-se esses instantes de verdadeiro desabafo emocional, seja em solidão ou em companhia, precisamos deles de vez em quando. Drenar a alma é uma necessidade biológica e psicológica.  Não podemos esquecer a clássica frase “emoção expressada, emoção superada”.

Recomendados para você