Psicanálise e arte, um vínculo além do inconsciente

18 Abril, 2020
Quando falamos de psicanálise e arte, estamos nos referindo a duas disciplinas aparentemente diferentes, mas relacionadas. Neste artigo, explicaremos por que a psicanálise sempre manteve um apreço especial pela expressão artística...

A psicanálise sempre esteve ligada à arte. Portanto, podemos falar sobre psicanálise e arte como duas disciplinas intimamente relacionadas.

Sigmund Freud foi o criador da psicanálise, uma filosofia, uma prática terapêutica e de pesquisa, que se concentra no estudo e intervenção do ser humano, especialmente em relação aos aspectos inconscientes. Freud, em seus estudos, mencionou a arte em várias ocasiões, e a via como um “mobilizador de angústias”.

Certamente, o vínculo do inconsciente com a arte tem sido amplamente reconhecido. Neste artigo, iremos além. Vamos falar sobre o relacionamento entre essas duas disciplinas.

“A função da arte na sociedade é construir; reconstruímos quando estamos em perigo de colapso”.
– Sigmund Freud –

Psicanálise e arte na época de Freud

Freud tinha uma relação muito estreita com a arte. Ele passava horas em museus analisando as obras. Portanto, ele desfrutava e se sentia atraído por muitas das expressões consideradas como arte e, inclusive, colecionava peças de escultura. Além disso, em algumas de suas cartas, ele confessou a admiração que tinha por alguns autores, como Cervantes.

Da sua admiração por obras literárias e mitológicas nasceram algumas das análises que ele publicaria posteriormente em seus livros. Por exemplo: O complexo de Édipo, O poeta e a fantasia, Dostoiévski e o parricídio, e uma memória de infância de Leonardo Da Vinci, entre outros.

Freud nos deixou um legado importante: a evidência da ligação entre psicanálise e arte. Vejamos as suas contribuições:

  • Questionamento da origem artística, mitológica e cultural.
  • Análise da relação do criador e sua obra.
  • O efeito da obra de arte no espectador.
  • A intenção do artista.
  • O conceito de sublimação.
Rosto de Freud

Freud mergulhou tanto na arte que ela chegou a condicionar muito do seu pensamento. Ele definiu o artista como a pessoa que encontra o caminho de volta à realidade, como alguém que possui o incrível poder de modelar um material até que ele se torne uma cópia fiel da representação da sua fantasia.

Ele via o artista como uma pessoa com a capacidade de transformar os seus instintos em realidades através da arte. Além disso, era capaz de transformar esses impulsos em algo estético, ou seja, socialmente aceitável.

Por outro lado, Freud sugeriu que o artista e o psicanalista estavam intimamente relacionados, pois ambos trabalham sobre o mesmo objeto. A única diferença é que usam métodos diferentes; o psicanalista através da análise e o artista através da sua obra.

Psicanálise e arte: da angústia à criatividade

Em sua imersão nos estudos de arte, Freud deu forma ao conceito de sublimação. É um mecanismo de defesa que permitiria trocar o objetivo sexual por um valor mais elevado e social. Ou seja, a arte seria uma maneira de seguir os nossos impulsos através de um veículo que a sociedade aceita. Portanto, futuros autores da psicanálise continuaram a enfatizar esse tipo de transformação dos nossos impulsos e mecanismos inconscientes.

De fato, vários psicanalistas começaram a estabelecer que a arte é um tipo de veículo, pois facilita a mobilização; neste caso a mobilização das angústias. É uma maneira de transformar o sofrimento.

Mais tarde, foi estabelecido que a arte é uma maneira de organizar o vazio. O vazio seriam os impulsos que temos, e a arte é uma maneira de contê-los. Então, transformaríamos as angústias, impulsos e outros mecanismos inconscientes em arte.

Dessa maneira, convertemos o que carregamos em nosso interior em algo mais aceitável, tanto para nós mesmos quanto para os outros. Assim, mobilizamos o que sentimos e transformamos em arte.

Terapia psicanalítica e arte

A psicanálise propõe que, quando uma pessoa tem um distúrbio mental, a arte pode ser útil. Isso acontece porque ela estabelece os primeiros vínculos com o que sente por dentro, começando a entender melhor o que acontece com ela.

Por outro lado, a manifestação criativa é vista pela psicanálise como uma forma de alívio, como um medicamento eficaz para limpar as feridas. Um complemento terapêutico de valor incalculável devido à ausência de restrições.

Atualmente, existem vários psicanalistas que usam a arte como um meio terapêutico durante as suas consultas. Um exemplo é Bayro Corrochano, que, em um artigo para a CES Psychology Magazine, conta a história de um garoto que usava a argila para criar durante a sua análise. Assim, pouco a pouco, ele estabeleceu vínculos com a realidade através da análise e de suas próprias obras.

Psicanálise e arte

Os psicanalistas e a arte

Vários psicanalistas abordaram a arte. Vejamos alguns deles:

  • Otto Rank: ele propôs que a arte é uma maneira de superar a ansiedade.
  • Donald Winnicott: via a arte como um meio para dar ou encontrar um significado para o que fazemos.
  • Melanie Klein: sugeriu a arte como um reorganizador da estrutura da mente.
  • Wilfred Bion: dizia que a arte poderia ser uma maneira de conter a angústia.
  • Jaques Lacan: dizia que a arte é uma maneira de organizar e acalmar o vazio que sentimos: falamos de uma forma de comunicação que se conectaria diretamente com o inconsciente.

A psicanálise e a arte são duas disciplinas estreitamente relacionadas. Ambas têm a ver com o ser humano e podem mostrar os seus aspectos mais profundos. Assim, graças a esse vínculo, esse caminho continuou sendo explorado como uma alternativa para ajudar as pessoas a partir da psicologia. Uma tela em branco para entender e integrar o sofrimento à história pessoal.

“Há um caminho de volta da fantasia para a realidade; este caminho é a arte”.
– Freud –

  • Bayro-Corrochano, F. (2012). Reinventamos un niño a través de la forma tridimencional: Roberto con la Gorra. Revista Ces Psicología 5 (1), pp. 102-111.
  • Castro, M.A (2015). Psicosis, psicoanálisis y arte.
  • Freud, S. (1982). Saggi sull arte, la letteratura e il linguaggio (4a ed.). Torino: Boringhieri.