Quando paramos de falar com um familiar

abril 28, 2019
Filhos que param de ter contato com os pais, irmãos que se distanciam, famílias que se dividem... Quando paramos de falar com um familiar, sempre há motivos encobertos por trás dos quais há acúmulo de dor, frustração e infelicidade.

Quando paramos de falar com um familiar, é porque há razões que, na maioria dos casos, justificam nossa atitude. Não é algo simples, nem uma decisão tomada de forma impulsiva ou de um dia para o outro. O afastamento familiar responde, frequentemente, a certos atritos, desavenças crônicas, feridas não curadas e a negação por alguma das partes de realizar uma mudança, uma melhora.

Especialistas em dinâmica familiar comentam que esses afastamentos correspondem a uma das realidades mais dolorosas que o ser humano pode experimentar. No entanto, o sofrimento não é sempre resultado da própria decisão de estabelecer um limite. E mais, por vezes, esse caminho traz alívio. O autêntico mal-estar se concentra em toda a experiência passada, a mesma que motiva essa decisão.

Por outro lado, há um fato indiscutível que ocorre com excessiva frequência. Nossa sociedade projeta um julgamento muito severo em relação a quem, em um dado momento, escolhe se distanciar da família. Quase instantaneamente aparece o rótulo de “filho ruim”, “neto ruim”, “irmã ruim”, etc. Nem sempre se deixa espaço para a dúvida, nem para aquela empatia que nos faz refletir sobre o que poderia justificar esse comportamento.

Ao mesmo tempo, é importante destacar que são muitas as pessoas que, mesmo tendo dado esse passo, continuam sentindo sofrimento. Por isso, elas precisam de apoio psicológico com o objetivo de conseguir lidar com, administrar e desembaraçar o novelo do passado, que continua latente. O mesmo cuja marca continua viva e ganha peso com o passar dos dias.

“Aprendi que estar com aqueles que amamos é suficiente”.
-Walt Whitman-

Quando paramos de falar com um familiar

Quando paramos de falar com um familiar, a decisão mais difícil

Paramos de falar com um familiar quando sentimos que chegamos ao limite. Quando as discrepâncias criam muros, quando as emoções negativas estão presentes em quase cada uma das situações, circunstâncias e palavras. No entanto, e apesar de essa situação marcar um antes e um depois, o distanciamento já ocorreu anos antes.

Insistimos mais uma vez que não é uma decisão fácil e que ninguém a toma de maneira leviana. Hoje em dia, existem organizações orientadas a oferecer apoio a essas pessoas que se distanciaram de suas famílias.

Um exemplo: em 2015, foi publicado um estudo realizado pelo Centro para a Investigação Familiar de Londres e pela Universidade de Cambridge. O objetivo era analisar essa realidade que, embora nos chame a atenção, ocorre com muita frequência em nossa sociedade.

  • O trabalho recebeu o título Hidden Voices: Family Estrangement in Adulthood (Vozes Escondidas: Afastamento Familiar na Idade Adulta, em tradução livre). 
  • Nele são apresentados dados interessantes, como o fato de que nos distanciarmos de um familiar (ou de vários) gera, frequentemente, a indignação de outros membros da família. Surgem as recriminações e, inclusive, a humilhação.
  • Não importa que, às vezes, exista uma clara justificativa (como os maus-tratos, por exemplo). Não são todas as pessoas que respeitam tais decisões, nem são sensíveis à realidade de cada um.
Homem decepcionado

Afastar-se da família: uma dor emocional muito complexa

O distanciamento familiar acontece, segundo os dados, em um intervalo de geração tão amplo quanto entre os 18 e os 60 anos. Há quem só esteja esperando ser maior de idade para dar esse passo. Outras pessoas, em contrapartida, demoram mais para tomar uma decisão para a qual nem sempre estamos preparados.

Às vezes, isso ocorre por medo, outras por indecisão, e na maioria das vezes pela pressão social que nos ensina desde bem cedo que se distanciar dos nossos familiares é algo inapropriado. No entanto, os números de casos continuam aumentando. Especialistas em psicologia familiar, como o doutor Joshua Coleman, afirmam que esse fato é comum, uma “realidade silenciada” que precisa de mais estudos, apoio e sensibilidade.

Quando paramos de falar com um familiar, sentimos muitos tipos de dor, das quais nem sempre se fala:

  • Ainda resta todo o sofrimento vivido no passado, algo com o que não sabemos lidar.
  • Ao mesmo tempo, outra realidade que muitas pessoas encaram é a vergonha. Vergonha por não ter uma “boa família”, pessoas que ofereçam apoio, um afeto real Elas também sentem vergonha por não saberem se a decisão é correta, por receberem críticas de uma parte das pessoas com quem convivem.

Por outro lado, fatores como o peso do estigma e, inclusive, o isolamento social também influenciam e devem ser considerados.

Mulher observando o caminho que percorreu

É adequado parar de falar com um familiar?

Assim como afirmamos, parar de falar com um familiar não é uma decisão que costuma ser tomada de maneira leviana. Não é um capricho, não é a reação de um adolescente nem fruto de uma desavença pontual. Na maioria dos casos, há uma realidade lentamente criada que pode ter muitas origens: maus-tratos, autoritarismo, desprezo, falta de apoio contínuo, invisibilidade, falta de afeto…

Fica claro que cada pessoa vive sua realidade de uma maneira. Haverá aqueles que acreditam que nenhuma das realidades anteriormente citadas ocorreu, e outros que acreditam que elas ocorreram diariamente. No entanto, seja como for, o que há é um conflito não resolvido. O ideal nesses casos é enfrentá-lo, encará-lo, dar a si mesmo a oportunidade de gerar mudanças nas quais cada membro seja reconhecido.

Se isso não acontecer, se não houver vontade e se o sofrimento for grande, a distância é uma resposta correta. No entanto, o que se recomenda em primeiro lugar é o seguinte:

  • Decidir uma frequência de contato. Podemos experimentar um encontro a cada duas semanas ou uma vez por mês. Devemos pensar também na duração dessas visitas (duas horas, uma…).
  • Escolher qual tipo de contato é mais confortável. Visitas em casa, encontros fora de casa, telefonemas, mensagens, etc.
  • Devemos analisar cada situação e circunstância. Pouco a pouco, vamos conseguir decidir se é melhor estabelecer uma visita por mês, duas vezes por ano ou simplesmente cortar por completo o contato e a comunicação.

Para concluir, quando paramos de falar com um familiar, por vezes o problema não acaba por aí. Em alguns casos, sobram muitos cabos soltos, muitas marcas que geram mal-estar e que devem ser resolvidas. Nessas situações, sempre será muito útil procurar uma terapia psicológica.

  • Agllias, Kylie. (Sep 2013). Family Estrangement. Encyclopedia of Social Work. Subject: Couples and Families, Aging and Older Adults, Children and Adolescents. DOI: 10.1093/acrefore/9780199975839.013.919