Quentin Tarantino e a estética da violência

· fevereiro 24, 2019
Por que gostamos tanto da violência no cinema? Isso tem alguma relação com as emoções? Exploramos as chaves do cinema de Quentin Tarantino, sua identidade, e descobrimos por que sua violência é tão esteticamente agradável.

Quentin Tarantino é um dos diretores que conseguiram criar sua própria marca, seu selo de identidade pessoal. Quando vemos um de seus filmes, sabemos perfeitamente o que vamos encontrar: violência, música, grandes atores, primeiros planos de pés femininos, cenas gravadas no porta-malas, homenagens, etc. Uma mistura de aspectos que o diretor aprecia, desde homenagens a cineastas como Alfred Hitchcock até longas de kung fu.

Tarantino faz o que quer, faz cameos, brinca com as cores, recicla planos, reinventa cenas… e mistura tudo até conseguir chegar ao que buscava. Muitos podem acusá-lo de plágio, mas devemos nos perguntar se é certo falar de plágio quando se trata de algo totalmente reconhecido e a intenção do autor é, precisamente, a de transportar uma cena a outro filme, a outro contexto, construindo algo completamente diferente.

Todos, absolutamente todos, temos nossos próprios gostos e influências, e na hora de criar algo inovador em pleno século XXI, certamente iremos citar ou reinventar algo que já havia sido feito anteriormente.

Não há dúvida de que Tarantino precisa das suas influências para construir seus filmes porque, antes de mais nada, é um grande cinéfilo. Em algumas ocasiões ele destacou que, para fazer um bom cinema, não é necessário ir a nenhuma escola; simplesmente é preciso ter paixão pelo que se está fazendo.

Da paixão nasce o cinema, nascem seus filmes e seus inesquecíveis banhos em molho de tomate. Neste ponto, cabe perguntar: por que gostamos tanto da violência? O que torna o cinema de Tarantino tão especial?

As chaves do cinema de Quentin Tarantino

Apesar de não ter formação como cineasta, seu amor pelo cinema o levou até a cadeira de diretor. Quentin Tarantino fez aulas de interpretação e trabalhou em uma locadora, lugar que já citou como fonte de inspiração. Entre amigos e com a intenção de fazer um filme simples, surgiu Cães de Aluguel, ou melhor, o que acabaria sendo Cães de Aluguel.

Tarantino não acreditava que era possível fazer um filme de verdade naquele momento, por isso pensava em se conformar com uma produção econômica e entre amigos. No entanto, o produtor Lawrence Bender leu seu roteiro e propôs transformá-lo no longa que conhecemos hoje.

Tarantino havia acabado de criar uma identidade que o consagraria como diretor e o levaria a uma infinidade de sucessos e aplausos no futuro. Quanto ao plágio, Tarantino reutiliza suas fontes de inspiração dando-lhes um novo significado, situando-as em um novo marco e criando algo novo e original a partir delas.

Não oculta suas fontes, as eleva, fazendo homenagens e mostrando-as ao público. Assim temos, por exemplo, a famosa cena de dança de Pulp Fiction, extraída de Oito e Meio, de Fellini, ou o traje de Uma Thurman em Kill Bill, que lembra Bruce Lee.

Ver um longa de Quentin Tarantino é um verdadeiro exercício de intertextualidade. Seus filmes possuem argumento e identidade próprios, mas são cheios de alusões e referências.

Com Pulp Fiction (1994), Tarantino se consagrou como diretor e roteirista, chamou a atenção do público e da crítica e ganhou seu primeiro Oscar de melhor roteiro original.

Cães de Aluguel

Outros títulos como Jackie Brown (1997), Bastardos Inglórios (2009) e Kill Bill (2003) terminaram de fundar a marca Tarantino.

Finalmente, suas últimas obras foram uma declaração de amor a um gênero muito esquecido na atualidade, o spaghetti western; com Django Livre (2012) e Os Oito Odiados (2015), recuperou a essência do gênero e de cineastas como Sergio Leone, além da figura de Ennio Morricone, compositor de algumas das trilhas sonoras mais reconhecidas da história do cinema.

Atualmente, Tarantino está trabalhando em um novo filme e disse que sua filmografia será composta por apenas dez longas.

A música é outro pilar sobre o qual ele constrói suas obras, e o próprio diretor se encarrega de escolher pessoalmente a trilha sonora. Por isso, estamos, uma vez mais, diante de uma grande mistura de influências e estilos. Ainda que estejamos na França ocupada pelos nazistas, Tarantino nos deleita com um cinema que arde ao ritmo de Cat People, de David Bowie. Ele não se importa muito com os anacronismos, já que acaba fazendo com que as peças do quebra-cabeças se encaixem à sua maneira.

Tarantino em Kill Bill

Tarantino e o gosto pela violência

Se algo define o cinema de Quentin Tarantino, é a violência. Uma violência totalmente explícita, com banhos de sangue que, às vezes, beiram o absurdo e provocam risadas. Não nos importamos muito se um personagem morre ou vive, pois a verdade é que há poucos pelos quais realmente sentimos uma empatia.

Um bom exemplo disso pode ser encontrado em Os Oito Odiados. Quando assistimos um filme de Tarantino, não esperamos encontrar personagens cativantes nem que permaneçam vivos por muito tempo. Queremos ver sangue, violência, e até rimos com ela.

A música, junto com sua narrativa desordenada e cenas de violência explícita que chegam a ser belas, longe de nos incomodar, nos encantam. A famosa cena do corte da orelha em Cães de Aluguel, por exemplo, é amenizada pela música e pela dança, e, por sua vez, trata de uma “réplica” de uma cena do filme Django (Corbucci, 1966). Desta forma, a violência deixa de ser incômoda e se converte em um objeto de deleite.

A violência pode ser algo divertido? Onde está o limite? Neste ponto, Tarantino citou em diversas ocasiões que seu cinema não é mais do que uma fantasia, uma ficção para apreciar. Não devemos questionar se esta violência é moral ou não; devemos, simplesmente, desfrutá-la, já que é atrativa, estética. Não é comparável ver um filme em que a violência é representada como uma realidade, de forma muito crua, e ver outro em que a violência não é mais do que uma desculpa para o entretenimento.

Bastardos Inglórios

Tarantino, além disso, alude aos filmes de kung fu nos quais a violência também está presente, embora ninguém questione sua moralidade, já que são puro entretenimento. Diante de um filme de violência crua, injusta ou real como A Paixão de Cristo (Mel Gibson, 2004), A Experiência (Oliver Hirschbiegel, 2001) ou Irreversível (Gaspar Noé, 2002), certamente não sentiremos prazer algum, e sim o contrário: ficaremos incomodados. Isso não ocorre ao assistirmos a filmes de diretores como Martin Scorsese ou Quentin Tarantino, nos quais a violência é uma catarse, uma liberação e purificação por meio das imagens.

Isso não é algo novo, já que foi apontado por Aristóteles em Poética, no qual fez uma análise profunda da tragédia grega e tudo que ela supunha. Por que os gregos gostavam de ver representações em que a violência ou o incesto surgiam em cena? Precisamente porque eram temas tabus na sociedade, de paixões que vivem no ser humano e que são reprimidas pela sua imoralidade. Desta forma, ao ir a um espetáculo deste estilo, ocorre a catarse, ou seja, a purificação das emoções.

Esta questão foi desenvolvida posteriormente por alguns autores psicanalíticos, como Freud. Por isso, o gosto pela violência parece não ser algo exclusivo da contemporaneidade, nem do cinema, e sim algo que sempre esteve vinculado aos humanos; algo que, de um modo ou de outro, incluímos na arte.

Tarantino sempre nos lembra de que seu cinema não é mais do que uma fantasia, não é real, e por isso gostamos tanto dele. É uma catarse, uma brincadeira com o nosso subconsciente, com as paixões e as emoções; sem dúvida, é um cinema para se divertir.

“Não fui a nenhuma escola de cinema, só fui ao cinema”.
-Quentin Tarantino-

  • Corral, J.M., (2013): Quentin Tarantino, glorioso bastardo. Palma de Mallorca, Dolmen.
  • Serrano Álvarez, A., (2014): El cine de Quentin Tarantino. Caracas, Universidad Católica Andrés Bello.