Os relacionamentos amorosos não resgatam ninguém

março 30, 2020
Pensar que o amor de casal é a resposta para o nosso próprio desconforto é cair em um grande erro. Quem pensa que se apaixonar resolverá as suas carências emocionais provavelmente só encontrará o caminho da desilusão.

Sigmund Freud dizia que o amor de um casal não é um encontro, mas um reencontro. Agora, com quem nos reencontraremos? Com todos os amores que precederam essa nova união. Com o carinho da mãe, do pai, de todas as figuras amadas da infância, de todos os parceiros anteriores… Enfim, toda aquela constelação afetiva da qual fazemos parte influencia os nossos relacionamentos amorosos.

O ser humano carrega a ideia de que o amor de um casal é uma espécie de panaceia, a resposta definitiva para a sua solidão e a garantia da plenitude e da felicidade. O pai da psicanálise também dizia que, quando nos reencontramos com um grande amor, ocorre exatamente o oposto. Em vez de finalmente nos sentirmos completos, nos sentimos mais incompletos do que nunca. De repente, entendemos que precisamos profundamente do carinho do outro.

“Tudo o que se dá é pedir, e tudo o que se pede é amor”.
– Sigmund Freud –

Mulher chateada com relacionamento

Ninguém pode negar que, às vezes, o relacionamento se torna um evento para a pessoa que o experimenta. Não gera necessariamente uma mudança radical na vida, mas na percepção. De repente, o mundo parece mais dotado de significado e evoca, por um tempo, o que Freud chamou de “pulsão de morte”, aquele desejo secreto de permanecer parado e não saber de nada para sempre.

Tudo isso é, precisamente, o que torna o amor de um casal tão enganador. Ele proporciona uma sensação de plenitude, mas também nos faz sentir mais carentes do que nunca. Ele nos leva aos cumes da felicidade, mas também gera razões para o sofrimento.

É uma experiência interessante e maravilhosa que, no entanto, não dá uma resposta definitiva para o nosso vazio, carências e falta de significados.

A ilusão de ser resgatado

A vida se desenrola em meio a muitos paradoxos. No que tem a ver com os relacionamentos amorosos, há uma dualidade desconcertante: quando alguém precisa de muito amor, não consegue construí-lo, fortalecê-lo ou permitir que ele germine. A sua própria carência o leva a gerar uma série de distorções em sua percepção e em suas ações, que impedem que a semente do afeto se torne saudável.

Uma pessoa com muitos problemas, grandes vazios e confusão precisa de ajuda. Em seu interior, ela não encontra tranquilidade, nem as respostas de que precisa para superar o seu desconforto e sofrimento emocional. Portanto, o relacionamento cria a ilusão de ser aquela ajuda tão procurada. No entanto, mais cedo ou mais tarde, se revela insuficiente.

Muitas decepções amorosas têm a ver com isso: acreditar que um grande amor teria o poder de resgatar uma situação em que o desconforto difuso prevalece. No entanto, logo a pessoa percebe que isso não acontece. Ou, então, o relacionamento se inviabiliza por causa do mal-estar.

Este ciclo pode ser repetido inúmeras vezes, porque é exatamente isso que uma pessoa neurótica faz: repete  indefinidamente as experiências das quais deseja se livrar.

Homem preocupado

A verdadeira dimensão dos relacionamentos amorosos

Nem sempre quem está carente ou precisa de amor se comporta como alguém que busca afeto. Essa privação também dá origem a outros tipos de comportamento. Aparecem, então, aqueles que usam o sexo para encobrir o seu desconforto, que mergulham no trabalho de maneira viciante ou que se tornam escravos cegos de um sucesso egoísta e sem importância.

Se uma pessoa não tem amor, ela fica doente de alguma forma. Todos nós precisamos de laços emocionais significativos para superar o nosso narcisismo e a nossa “pulsão de morte“. No entanto, enquanto para alguns os relacionamentos amorosos continuam sendo a terra prometida que querem alcançar, para outros eles representam o país do nunca. Um lugar onde eles não querem estar, mesmo que tenham que pagar um preço alto por isso.

Nos dois casos, existe uma idealização. O amor de casal é mais uma experiência de vida, não a experiência fundamental. No entanto, existem outros vínculos que podem nos resgatar, nos salvar de nós mesmos e dos fantasmas que nos perseguem. Por exemplo, o vínculo que podemos estabelecer com um psicólogo, ou seja, o vínculo terapêutico.

Freud dizia que toda busca pela análise era uma busca por amor. O profissional de psicologia é capaz de responder a essa busca através de um processo de cura.

  • Sanpedro, P. (2005). El mito del amor y sus consecuencias en los vínculos de pareja. Disenso, 45.