Três impressionantes rituais funerários dos gorilas

maio 26, 2020
Os rituais funerários dos gorilas, revelados graças a uma pesquisa da doutora Amy Porter, mostram que essa espécie tem um mundo emocional similar ao dos seres humanos. Eles sofrem por seus mortos e fazem demonstrações de homenagem e respeito por eles.

Um grupo de pesquisadores surpreendeu o mundo quando publicou três vídeos de rituais funerários realizados de maneira espontânea por gorilas. De acordo com o que se observa, esses primatas têm uma ideia do que é a morte, ficam mal e sofrem pela perda de um dos seus. De fato, eles desenvolvem vários comportamentos que podem ser considerados rituais de despedida.

Devemos nos lembrar de que o mundo ocidental foi antropocentrista e eurocentrista. Foi muito difícil para o ser humano entender que a nossa espécie também faz parte do mundo animal. Ao mesmo tempo, também se acreditava que os indígenas e os negros “não tinham alma”, ou seja, que não pertenciam à raça humana.

Também acreditamos que os demais animais são espécies muito diferentes de nós. É por isso que esse registro dos rituais funerários dos gorilas é tão importante. Sua atitude diante da morte lembra claramente a dos seres humanos. Também mostra que eles têm uma grande inteligência e um mundo emocional similar ao nosso.

 “Os animais do mundo existem por sua própria razão. Não foram feitos para os humanos”.
-Alice Walker-

Grupo de gorilas

Titus e um dos rituais funerários dos gorilas

Uma das histórias publicadas no estudo, liderado por Amy Porter, fala de um gorila que os pesquisadores batizaram de “Titus”. Era um exemplar idoso e o macho alfa de seu grupo. O fato aconteceu no Parque Nacional dos Vulcões, em Ruanda.

Tudo começou quando um gorila jovem, com características de macho alfa, se integrou ao grupo. Ele começou a disputar a liderança com Titus. Para se livrar de seu rival, Titus obrigou seu grupo a percorrer longas distâncias com a intenção de deixar o outro no meio do caminho.

As caminhadas foram tão intensas que acabaram deixando o gorila exausto. Além disso, houve vários incidentes durante a travessia.

Três semanas depois que tudo começou, Titus ficou quieto em seu ninho por três dias, ao final dos quais morreu. Seu melhor amigo permaneceu ao seu lado o tempo todo, dia e noite. Todos os membros da manada, um por um, foram ficar alguns minutos ao lado do cadáver de Titus. Era a forma de prestar homenagem ao líder morto.

Toda essa cena mostra um dos rituais funerários dos gorilas. Houve também um fato curioso. Graças a um exame de DNA, descobriu-se que o rival de Titus era seu próprio filho: um fato digno de ser estudado por Freud.

A morte de Tusk

Tusk era a única fêmea adulta da manada de Titus. Quando o gorila jovem chegou, ele teve um comportamento sexualmente agressivo com ela. No entanto, essa gorila, junto com seus filhos, rejeitou violentamente as investidas desse novo membro da manada.

Um ano depois da morte de Titus, a gorila Tusk começou a ficar mal de saúde. Em apenas 20 dias teve um declínio significativo, até que morreu. Ela tinha dois filhos e ambos ficaram ao seu lado nas últimas horas de vida. Também acompanharam o cadáver outras duas gorilas fêmeas.

Nesse caso, houve comportamentos que podem parecer estranhos. O filho mais novo se aproximou do corpo da mãe e tentou mamar em seu peito, apesar de ter sido desmamado há muitos anos. Os especialistas chamam esse comportamento de “amamentação de consolo”.

O filho mais velho, por sua vez, começou a realizar gestos desafiadores e, inclusive, chutou o cadáver. O novo líder da manada se fez presente e também bateu fortemente no peito do corpo de Tusk. Os cientistas explicaram que não eram comportamentos agressivos, e sim expressões de frustração e rejeição diante da morte de Tusk. Essa também é uma modalidade dos rituais funerários dos gorilas.

Gorilas na floresta

O respeito pelos estranhos

Outro dos rituais funerários dos gorilas foi registrado ao longo do acompanhamento de uma manada do Congo. Nesse caso, não foi um gorila da manada que morreu. O que aconteceu foi que, durante uma caminhada, um grupo se deparou com o cadáver de um gorila que não conhecia.

A manada se sentou em silêncio ao redor do cadáver e o observou durante alguns minutos. Também cheiraram, lamberam e acariciaram o cadáver. Em suas ações, havia demonstrações de que realizavam essas ações com respeito, pelo silêncio e pela atitude séria de todos os gorilas.

Nesse caso, também houve atitudes desafiadoras, mas apenas por parte do macho alfa. Era como se expressasse a rejeição pela morte que o grupo todo sentia. Depois que todos os gorilas terminaram de cheirar e lamber o cadáver, o líder da manada jogou o corpo sobre os arbustos.

Estrada, A. (2012). Comportamiento animal. El caso de los primates. Fondo de Cultura Económica.