Sabina Spielrein: de paciente de Jung a psicanalista renomada

13 Janeiro, 2021
Atualmente, considera-se que Sabina Spielrein é uma importante figura da psicanálise, mesmo após seu nome ter sido ignorado por décadas. Ela deixou de ser uma paciente psiquiátrica para se tornar uma psicanalista extraordinária.

Sabina Spielrein foi uma psiquiatra e psicanalista russa renomada que iniciou sua trajetória como paciente. Seu nome, porém, não teve a relevância merecida, ainda que suas contribuições tenham sido decisivas tanto para a psiquiatria quanto para a psicanálise.

Sigmund Freud criou seu conceito de “pulsão de morte”, um dos eixos em sua teoria, a partir de um conceito anteriormente elaborado por Sabina. Ela lhe deu o nome de pulsão destrutiva e sádica. Ela também contribuiu com o conceito de esquizofrenia desenvolvido por Eugene Bleuler e fez contribuições decisivas para o avanço da psicologia infantil.

“Gostaria que, no momento da minha morte, eu estivesse na mente do Dr. Jung e que colocassem no meu epitáfio: ‘Eu também fui um ser humano’.”
-Sabina Spielrein-

Sua obra possui um grande valor. Afinal, ela primeiro adoeceu e depois fez da sua doença a matéria-prima do seu trabalho. Permaneceu completamente ignorada por décadas, até que seu diário pessoal e vários outros escritos de sua autoria foram recuperados em 1977. Atualmente, é considerada uma figura de destaque, como Anna Freud e Melanie Klein.

Sabina Spielrein
Sabina Spielrein

A infância de Sabina Spielrein

Sabina Spielrein nasceu em Rostov del Don, na Rússia, em 07 de novembro de 1885. Foi a filha mais velha de cinco irmãos de uma família judia de classe alta. Recebeu uma educação excelente durante os primeiros anos da sua vida. Uma educação, de fato, até excessiva. Ao que tudo indica, seu pai a pressionava bastante para que tivesse um bom rendimento acadêmico. De toda forma, ela sempre foi brilhante nos estudos.

As fontes de informação sobre a vida pessoal de Sabina Spielrein são, principalmente, seu diário e seu histórico clínico como paciente. De acordo com estes documentos, desde jovem era tida como uma “menina difícil”. Era frequentemente castigada. Ainda assim, era imaginativa e muito inteligente. Uma anotação citava que ela teve “um interesse sexual muito precoce e nada reprimido”.

Quando fez 18 anos, foi enviada pelo pai a um hospital psiquiátrico em Zurique, na Suíça, permanecendo lá por um ano. Sabe-se que sofria frequentemente de crises depressivas e chegou a ter um episódio psicótico agudo. Apresentava choro e riso compulsivo, o que precipitou a sua internação.

Carl Jung

Inicialmente, Sabina foi tratada com terapia eletroconvulsiva, mas isso não trouxe melhora alguma. Diante disso, foi transferida a um novo hospital, também em Zurique. O encarregado do caso foi Carl Gustav Jung. Ele a tratou, psicanaliticamente, como uma paciente histérica. Foi a primeira vez que ele atendeu uma pessoa com esse quadro. Em suas notas, ele também definia seus pais e irmãos como histéricos.

O tratamento com Jung foi bem-sucedido e Sabina superou os sintomas que a haviam levado ao internamento. Ela e Jung se apaixonaram e viraram amantes. A relação dos dois se estendeu desde 1904 a 1909. Sabina Spielrein também foi um marco no início da relação entre Jung e Freud, uma vez que o último atuou como supervisor do primeiro.

Segundo especialistas, Spielrein também marcou o início das diferenças que fariam os dois médicos romperem de maneira irremediável. Freud se interessou bastante pelo caso de Sabina e, ao saber da relação amorosa que Jung tinha com a paciente, começou a elaborar o conceito de “contratransferência”.

Carl Jung

Sabina Spielrein, uma psicanalista que brilhou com a sua própria luz

Quando sua análise com Jung terminou, Sabina Spielrein decidiu estudar medicina, objetivo que alcançou com louvor. Sua tese foi verdadeiramente notável, sob o título Sobre o conteúdo psicológico de um caso de esquizofrenia. Ela contou com a colaboração de Jung e Bleuler para realizar este excelente trabalho, que foi pioneiro no tema. Ganhou um diploma de honra para estudar psiquiatria.

Ela resistiu bastante até deixar Jung, que era casado e não tinha intenções de se separar. Finalmente, conseguiu deixá-lo e viajou para Munique e depois para Viena, onde fez contato com Freud. Mais tarde, ingressou na Associação Psicanalítica de Viena e, em 1911, publicou um de seus trabalhos mais importantes: “A destruição como origem do devir. Freud dá crédito a este trabalho em sua obra “Além do princípio de prazer”.

Depois disso, Sabina Spielrein trabalhou como psicanalista até 1923, especialmente em Genebra. Ela foi a analista de Jean Piaget. Também se interessou pela psicologia infantil, casando-se com um médico russo e tendo duas filhas. Depois, voltou ao seu país de origem, que agora fazia parte da União Soviética.

Continuou praticando a psicanálise, ainda que fosse proibido. Seus irmãos foram mortos durante os expurgos de Stalin, e ela e as filhas, infelizmente, foram assassinadas pelo exército nazista em 1942.

  • Braun, J. (2013). Mi nombre era Sabrina Spielrein. Rev. Soc. Argent. Psicoanálisis, (17), 301-306.