Siegfried Bernfeld e a educação social

· fevereiro 24, 2019
Siegfried Bernfeld foi um dos psicanalistas de primeira geração que ganhou o respeito e a admiração de Sigmund Freud. Sua obra foi particularmente centrada na relação entre psicanálise, pedagogia e marxismo.

Siegfried Bernfeld foi um dos psicanalistas de primeira geração que, com o tempo, adotaram uma posição de esquerda radical. Bernfeld teve um grande protagonismo na sua época, mas com o tempo foi injustamente relegado. Sua obra é interessante e suas contribuições têm uma grande pertinência no mundo atual.

Anna Freud disse que Siegfried Bernfeld havia sido um daqueles “seres fora de série” que integraram a primeira camada da psicanálise. De fato, o próprio Sigmund Freud se referiu a ele em uma de suas cartas, dizendo: “É um especialista de destaque na psicanálise. Eu o considero, talvez, o mais dotado de meus alunos e discípulos. Além disso, possui um conhecimento superior, é um orador irresistível e um professor extremamente influente. Assim, em conjunto, só posso dizer o melhor sobre ele”.

“O núcleo da educação não é constituído pela pedagogia, e sim pela política. Os fins da educação não determinam a ética e a filosofia de acordo com os valores de validade geral, e sim a classe dominante, em consequência com as finalidades de seu poder”.
-Siegfried Bernfeld-

Como seus contemporâneos, Siegfried Bernfeld viveu em uma época muito perturbada social e politicamente. Por isso, em um dado momento e diante da perseguição da qual foi objeto por ser judeu, focou suas reflexões no campo social. Deixou de lado a faceta estritamente psicanalítica para se envolver nos fenômenos coletivos a partir do ponto de vista político.

Os inícios de Siegfried Bernfeld

Siegfried Bernfeld, como tantos outros psicanalistas, era de origem judia. Nasceu em Lemberg (Galícia) em 1892. Seus pais se dedicavam ao comércio têxtil e tinham uma vida tranquila financeiramente. Bernfeld estudou zoologia e botânica, já que era apaixonado pela natureza. Isso lhe deu um conhecimento científico muito sólido de base.

Quando era muito jovem, se interessou pela pedagogia e a psicologia. Ficava encantado com o alcance da hipnose, que era uma inovação na sua época. De fato, chegou a praticá-la com seu irmão mais novo. Também se mostrou interessado nas teorias de María Montessori. Depois, estudou a fundo a psicanálise e se fascinou com o método da livre associação.

Aos 22 anos se casou com Anne Salomon, uma jovem estudante de medicina e seguidora fervorosa das ideias marxistas. Ela foi uma influência definitiva em seu pensamento e suas atividades. Três anos depois do seu casamento, já estava organizando uma reunião gigantesca da juventude sionista. Nela, Martin Buber fez um discurso que se tornou muito famoso.

A mente psicanalítica

A atividade social e a psicanálise

Motivado por sua atividade política, Siegfried Bernfeld criou uma instituição dedicada a acolher as crianças judias que ficaram órfãs na Primeira Guerra Mundial. Seu objetivo era formá-las, de modo que pudessem emigrar até a Palestina. Chegou a ter 145 protegidos, muitos dos quais tinham traumas graves. Isso o inclinou ainda mais para a psicanálise.

Conheceu Sigmund Freud pessoalmente e começou a fazer parte do círculo psicanalítico. Finalmente abriu um consultório em Viena em 1922. Naquele momento, havia iniciado uma amizade forte com Anna Freud, e era considerado uma das grandes promessas da nova corrente psicanalítica. Com Anna e outros psicanalistas da época, formou um grupo dedicado a prestar assistência à infância desamparada.

Este grupo tinha como interesse principal estender as questões psicanalíticas ao campo social. Em 1925, Siegfried Bernfeld publicou suas duas primeiras obras, dedicadas à educação social. Uma era focada na adolescência e outra nos métodos pedagógicos alemães, os quais ele considerava um verdadeiro cultivo para um regime ditatorial.

O final de Bernfeld

Siegfried Bernfeld se casou três vezes e viveu em vários países da Europa quando o nazismo chegou ao poder. Acabou indo parar em São Francisco (EUA) com sua terceira esposa. Diferentemente de outros psicanalistas, Bernfeld nunca concordou com a “psicologia do ego” que se destacava na América do Norte.

Sigmund Freud

Talvez a nostalgia das suas origens, somada a sua grande curiosidade intelectual o tenham levado a se transformar em um dos mais importantes biógrafos de Freud. Embora não seja considerado o “oficial”, seus artigos a respeito dele foram claramente retomados por Ernest Jones, que Anna Freud considerava um biógrafo autorizado de seu pai.

Siegfried Bernfeld deixou ensaios interessantes nos quais mistura princípios da psicanálise e da educação social. São notáveis seus trabalhos sobre a psicologia da adolescência. Fundou a primeira sociedade psicanalítica de São Francisco. Muitos o recordam como um consumidor compulsivo de tabaco, amante das belas mulheres e psicanalista honesto.

  • Bernfeld, S. (1944). Freud’s earliest theories and the school of Helmholtz. The Psychoanalytic Quarterly13(3), 341-362.
  • Bernfeld, S. (1962). On psychoanalytic training. The psychoanalytic quarterly31(4), 453-482.
  • Bernfeld, S. (2013). The psychology of the infant. Routledge.
  • Bernfeld, S. (1938). Types of adolescence. The Psychoanalytic Quarterly7(2), 243-253.
  • Bernfeld, S. (1941). The facts of observation in psychoanalysis. The Journal of Psychology12(2), 289-305.