A síndrome de Ulisses, um mal contemporâneo

· abril 25, 2019
A síndrome de Ulisses se refere ao protagonista de 'A Odisséia', que deixou sua terra natal e teve que passar por graves vicissitudes. Esse mal afeta os imigrantes e, às vezes, leva a problemas mais sérios, como vícios ou outros transtornos.

A síndrome de Ulisses, também conhecida como síndrome do imigrante, é um transtorno de estresse agudo que afeta aqueles que imigram e vivem em um lugar diferente de sua casa. Vai além do sofrimento normal que afeta aqueles que saem de casa e enfrentam um ambiente desconhecido. Os sintomas e os efeitos às vezes se tornam muito graves.

Uma das dificuldades que a síndrome de Ulisses implica é a sua semelhança com outros transtornos. O diagnóstico é facilmente confundido com o de outros quadros clínicos. Da mesma forma, às vezes gera manifestações tão severas que são confundidas com psicose, quando na realidade correspondem a um estresse extremo.

O psiquiatra Joseba Achotegui (Universidade de Barcelona) definiu a síndrome de Ulisses. Ele acompanhou de perto a questão da imigração na Espanha, um dos países que mais recebe migrantes na Europa, permanentemente ou como transeuntes. Estima-se que este problema afete pelo menos 800.000 residentes naquele país.

“A Europa não sobreviverá sem imigração. Não deveria ter tanto medo disso: todas as grandes culturas surgiram a partir de formas de miscigenação”.
-Günter Grass-

Bonecos viajantes

A migração e a síndrome de Ulisses

A migração é um fenômeno complexo que excedeu os recursos de muitos estados para resolvê-lo. Existem vários tipos de migração e nem todos os migrantes acabam sofrendo da síndrome de Ulisses. Há uma grande influência da história pessoal e personalidade, assim como das condições sob as quais a migração ocorre e do ambiente em que ela ocorre, tanto o que permanece quanto o que muda.

Um primeiro fator de importância é a história e a estrutura de personalidade do migrante, particularmente a autonomia e adaptabilidade deste. Ir para outro país para fazer uma nova vida exige força psicológica e uma grande capacidade de resiliência. Não é fácil encontrar um lugar no novo ambiente e, por outro lado, essa mudança muitas vezes faz com que distúrbios ou problemas de personalidade latentes se manifestem.

Da mesma forma, as condições de imigração têm grande influência. Não é a mesma situação a de quem deve imigrar porque foge de uma guerra, quem o faz por um desejo de ter uma vida melhor ou vê uma oportunidade específica no lugar do destino. Da mesma forma, tudo muda quando a família é deixada para trás.

Ambiente e sintomas

Um aspecto decisivo na síndrome de Ulisses é o ambiente no qual a pessoa chega. Isso pode facilitar ou dificultar muito a adaptação. O local pode estar preparado socioeconomicamente para receber imigrantes ou não. Em outras palavras, é possível que receba o imigrante para trabalhar, que forneça algum tipo de assistência, ou que nada disso ocorra.

Homem com mochila em outro país

A síndrome de Ulisses ocorre quando uma pessoa se sente diante de situações-limite, que não consegue elaborar ou digerir. Isso geralmente acontece quando percebe que seu projeto migratório é basicamente inviável. Quando não é bem-vindo ou, em vez de melhorar sua posição econômica, piora. Isso leva a um estresse progressivo, que em um determinado momento pode bloquear a pessoa.

Aparecem, então, os sintomas típicos da síndrome de Ulisses. Estes são:

  • Sentimento de estranhamento. O indivíduo se sente estranho e vê os outros como estranhos. Isso causa medo e um profundo sentimento de vulnerabilidade.
  • Tristeza constante. Há um anseio pelo lugar de origem e uma sensação de luto que se torna constante.
  • Problemas de saúde. É muito comum os sintomas físicos começarem a aparecer, como enxaquecas, náuseas, tonturas, problemas respiratórios, etc.
  • Estresse e ansiedade. É o sintoma mais visível. Há um sentimento permanente de angústia, como se algo terrível fosse acontecer. Há também dificuldades para dormir e grande insegurança nas relações com os outros.
  • Isolamento e depreciação. A pessoa começa a se isolar do que a cerca, o que percebe como ameaçador. Isso também afeta seu autoconceito, diminuindo sua autoestima.

Às vezes, esse estado se torna o gatilho para distúrbios mais sérios. Também poderia levar ao desenvolvimento de vícios ou atividades ilegais, já que é frustrante para o migrante ver que suas expectativas não são atendidas. Em muitos casos, trata-se de um problema grave que requer a intervenção de um psicólogo.

  • Loizate, J. A. (2004). Emigrar en situación extrema: el Síndrome del inmigrante con estrés crónico y múltiple (Síndrome de Ulises). Norte de salud mental, 5(21), 3.