Síndrome do príncipe encantado: você está passando por isso?

Há muitos que, apesar de terem um parceiro estável, continuam sonhando com alguém melhor. Isso faz com que busquem um ideal impossível. É o que definimos como Síndrome do Príncipe Encantado.
Síndrome do príncipe encantado: você está passando por isso?

Última atualização: 16 maio, 2022

O Príncipe Encantado é uma das figuras arquetípicas enraizadas no nosso subconsciente. É algo que dá forma àquela ideia recorrente de que lá fora, em algum lugar, está a pessoa perfeita para nós. É uma vontade silenciosa e quase obsessiva que muitas vezes nos faz procurar outros homens e mulheres em aplicativos de relacionamento, ainda que tenhamos um parceiro estável.

Por outro lado, não devemos pensar que esse desejo pela perfeição relacional define exclusivamente as mulheres. Na verdade, há muitos homens que querem ser o “príncipe encantado”, ou seja, alguém que assume o modelo de uma masculinidade heroica e supostamente ideal.

A verdade é que esse tipo de comportamento e construções psicológicas que muitas vezes nos determinam manifestam fenômenos interessantes. Alguns apontam que esses retratos da mecânica do desejo, atração e comportamento são meros produtos socioculturais. No entanto, a antropóloga Helen Fisher fala em adaptação evolutiva…

Como podemos explicar esse tipo de síndrome que leva o nome dos personagens mais famosos de Walt Disney? Vamos analisar o assunto.

Silhueta de um casal no céu simbolizando a síndrome do príncipe
Todos nós podemos ter uma lista do que procuramos em um parceiro. Mas, se formos inflexíveis e pouco realistas, vamos sofrer.

Características da Síndrome do Príncipe Encantado

Idealizar a pessoa amada é algo que todos nós já fizemos com algum de nossos parceiros, especialmente durante a juventude. Entretanto, o verdadeiro problema começa quando idealizamos o amor em geral. Isso acontece quando, apesar de ter um relacionamento estável e satisfatório, persiste uma sensação, um vazio, um anseio. Isso de pensar que pode haver alguém muito melhor.

Em nossa vida diária, a mente vai longe e fantasia sobre outras possibilidades. Presumimos que deve haver uma pessoa perfeita e apaixonante, capaz de se alinhar conosco em mente, corpo, ideais e pensamentos. Nossa alma gêmea está por aí em algum lugar, e essa ideia nos leva a vagar pelo Tinder ou qualquer outro aplicativo de relacionamento em busca dessa figura ideal.

A síndrome do príncipe encantado define aqueles que têm uma versão tão romântica de como o amor deveria ser que, muitas vezes, perdem a oportunidade de ter um relacionamento satisfatório. Além disso, podem até mesmo romper um compromisso já existente apenas porque ainda seguem convencidos de que o amor não é isso, e que deve haver “algo mais profundo”.

Quase sem perceber, tornam-se errantes no afeto, buscando um graal mitológico que só traz infortúnios e decepções. No entanto, existem aspectos ainda mais profundos e marcantes dessa síndrome que vale a pena descobrir.

Quem procura o príncipe encantado ou a princesa ideal não está apenas procurando alguém fisicamente perfeito e encantador. O que realmente se aspira é alcançar uma conexão emocional e mental absoluta.

O desejo eterno de alcançar uma conexão perfeita com alguém

A Síndrome do Príncipe Encantado não define nenhuma categoria diagnóstica; ou seja, não há nada patológico, isso apenas descreve uma realidade psicológica. De fato, há várias décadas usamos as figuras dos contos clássicos para descrever comportamentos que se repetem na população.

Um exemplo disso é o complexo de Cinderela, cunhado pelo Dr. Peter K. Lewin em 1976. Mais tarde, um estudo da Universidade de Delhi (Índia) endossou este termo para exemplificar a dependência de algumas mulheres em seus relacionamentos afetivos.

Assim, e no que diz respeito ao arquétipo do Príncipe Encantado, isso vem a simbolizar a nossa necessidade de idealizar o amor. Além disso, esse rótulo incorpora o desejo psicológico de ter uma conexão perfeita com outra pessoa.

Por esse motivo, essa síndrome também busca visibilizar a origem de muitas insatisfações nos relacionamentos amorosos. Trata-se daquelas situações em que nunca se está completamente feliz porque se anseia alcançar uma intimidade autêntica com alguém, um amor apaixonado no qual a compreensão e a satisfação de todas as necessidades é absoluta, quase mágica.

Síndrome do Príncipe Encantado em alguns homens

Essa síndrome forma uma realidade psicológica muito poliédrica, ou seja, que apresenta mais de uma característica. É verdade que, por trás de todas elas, está aquela semente muitas vezes perigosa e disfuncional, que é o amor romântico. Aquela que faz germinar ideias completamente equivocadas sobre a forma como o afeto e as relações amorosas em geral funcionam.

No caso dos homens, a síndrome do Príncipe Encantado às vezes se manifesta de forma curiosa. Há homens jovens e não tão jovens que encarnam o arquétipo clássico do herói salvador, aquele que cuida, resgata, sustenta e protege. Muitas vezes, essa forma de masculinidade é herdada pela educação recebida e pelo papel que viram os seus próprios pais desempenharem.

Essa tendência às vezes colide com a personalidade de muitas mulheres. Atualmente, nem todas procuram essa figura masculina para sustentá-las ou resgatá-las. Por isso, a parceira ideal para um “príncipe encantado” é a mulher com complexo de Cinderela. Ou seja, mulheres com medo da independência e com o desejo inconsciente de serem cuidadas e protegidas.

Todos nós temos a nossa lista particular das coisas que gostaríamos de encontrar em uma pessoa ao estabelecer um relacionamento. No entanto, às vezes, boa parte dessa lista cai por terra quando nos apaixonamos por alguém. E isso é algo perfeitamente normal.

Casal abraçado representando a Síndrome do Príncipe Encantado
Todos sonhamos com um amor ideal, mas devemos trabalhar por um amor real, feliz e enriquecedor.

A necessidade de racionalizar os nossos anseios inconscientes

Há muitos que integraram em seu inconsciente esse pensamento chamado de “síndrome do príncipe encantado”. Tanto homens quanto mulheres. Idealizam o amor e menosprezam as pessoas reais. Agem dessa forma porque possuem ideias completamente enviesadas sobre a forma como as relações são e isso os faz emendar diversos laços afetivos, quase sempre fadados ao fracasso.

A antropóloga Helen Fisher nos diz que o amor romântico é mais um impulso fisiológico do que uma emoção. Seria algo puramente químico, algo difícil de controlar. No entanto, não podemos separar o plano sociocultural desse comportamento, bem como a forma como a nossa sociedade incute em nós há muito tempo a ideia de que existe alguém ideal e perfeito para nós em algum lugar.

Para concluir, devemos entender claramente: a busca pela perfeição só gera sofrimento. Por isso, vamos procurar amores verdadeiros; aqueles em que a conexão também pode ser satisfatória, às vezes mágica, às vezes complicada, mas algo pelo qual vale a pena trabalhar.

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