A síndrome do sotaque estrangeiro: sintomas, causas e tratamento

novembro 11, 2019
A síndrome do sotaque estrangeiro é rara quanto à sua concepção e ao seu aparecimento. Você pode imaginar acordar um dia falando com o sotaque de outro país?

O que você pensaria se acordasse um dia falando sua língua materna com o sotaque de outro país? Você estaria sofrendo do que os cientistas chamam de síndrome do sotaque estrangeiro (SSE) ou pseudo-estrangeiro.

Trata-se de um fenômeno descrito pelo neurologista francês Pierre Marie em 1907. Ele relatou o caso de uma parisiense que, após sofrer um derrame, começou a falar com sotaque alsaciano.

A síndrome do sotaque estrangeiro é um transtorno neurológico raro da fala documentado em não mais do que vinte estudos específicos.

Como consequência de uma lesão cerebral, principalmente subcortical, a fala do paciente adquire um som estranho para os ouvintes nativos. Como a pessoa não pode evitar esse sotaque estranho, e dado seu início repentino, esse transtorno pode gerar a sensação de perda de identidade.

A sintomatologia pode persistir por meses ou anos ou desaparecer de maneira espontânea ou progressiva. Em um número menor de casos, aparece brevemente em pacientes com transtornos psiquiátricos, esquizofrenia e transtorno de conversão.

Além disso, muitos dos afetados não reconhecem que seu sotaque mudou e ficam surpresos quando os outros apontam que isso ocorreu.

“Os limites da minha linguagem são os limites da minha mente”.
-Ludwig Wittgenstein-

Quais são os sintomas da síndrome do sotaque estrangeiro?

Quais são os sintomas da síndrome do sotaque estrangeiro?

Esta síndrome é caracterizada clinicamente pelos déficits:

  • Segmentar: maior alteração nas vogais do que nas consoantes. Alteração no tempo de pronúncia das vogais – em alguns pacientes é mais curto, em outros mais longo. Nas consoantes há mudanças e erros de pronúncia.
  • Prosódico: ritmo e entonação em palavras e frases diminuem no tempo entre sílaba e sílaba, inserção de vogais, má transição entre palavra e palavra. Inversão do tom de uma frase.

As principais dificuldades apresentadas são:

  • Alterações nos elementos gramaticais, articulares e prosódicos, sem manifestar dificuldades na compreensão e expressão da linguagem e sem deformações fonéticas.
  • A falta de fluência verbal aparece como em afasias e apraxias. No entanto, diferentemente dessas alterações, a fala do paciente não parece patológica, mas estranha.

Apesar de não existirem evidências de alteração da funcionalidade na vida cotidiana, a implicação emocional que esse transtorno apresenta muitas vezes leva ao aparecimento de consequências psicossociais adversas na vida desses pacientes. Isso foi descrito em diferentes estudos.

“No idioma está a árvore genealógica de uma nação”.
-Samuel Johnson-

Causas

É um transtorno imprevisto da linguagem que altera o padrão linguístico da língua nativa, de maneira que o paciente, seus familiares e o terapeuta percebem um dialeto diferente de seu idioma de origem.

Entre as principais etiologias relacionadas à essa síndrome estão os acidentes vasculares cerebrais, os traumas craniocerebrais, que afetam áreas relacionadas à produção e expressão da linguagem, além de outras patologias, como a esclerose múltipla, os tumores cerebrais ou a anestesia, entre outras causas.

Como mencionado anteriormente, a síndrome do sotaque estrangeiro pode persistir por meses ou anos ou desaparecer de maneira espontânea ou progressiva.

No entanto, existem pessoas nas quais ela se torna crônica, requerendo terapias cognitivas e da fala, pois essa doença pode gerar um grande impacto psicológico no afetado. A pessoa percebe que o tempo passa e que ela não consegue recuperar sua verdadeira voz e, às vezes, nem se lembrar dela.

“Todos os órgãos humanos se cansam em algum momento, exceto a língua”.
-Konrad Adenauer-

Aprender a pronunciar as palavras

Até agora, o tratamento mais comum nesses casos consiste na aplicação de terapias e técnicas linguísticas que permitem que os afetados recuperem, se não totalmente, em parte, sua dicção de antes do início da síndrome.

Além disso, são utilizadas técnicas de redução de sotaque e o paciente aprende a mover os lábios ou a mandíbula de uma maneira mais apropriada durante a fala.

Em 2010, cientistas da Universidade de Málaga combinaram esses exercícios de reabilitação com a prescrição do medicamento donepezil, comumente utilizado no tratamento da doença de Alzheimer.

Graças a esse tratamento conjunto, foram observados sintomas de recuperação “muito visíveis” em uma paciente espanhola afetada pela doença. Outras técnicas podem incluir: feedback auditivo mascarado, feedback auditivo atrasado e feedback auditivo de alteração da frequência.

Buentello-García, R. M., Martínez-Rosas, A. R., Cisneros-Franco, J. M., & Alonso-Vanegas, M. A. (2011). Síndrome de acento extranjero. Archivos de Neurociencias16(3), 167-169.

González-Álvarez, J., Parcet-Ibars, M. A., Ávila, C., & Geffner-Sclarsky, D. (2003). Una rara alteración del habla de origen neurológico: el síndrome del acento extranjero. Revista de neurología36(3), 227-234.

https://www.webconsultas.com/curiosidades/sindrome-del-acento-extranjero

Marie P, Foix C. Les aphasies de guerre. Rev Neurol (París) 1917; 24: 53-87.

Mato Díaz, R., Ricart Menéndez, R. C., Sotomayor Álvarez, M., & Méndez Amador, T. (2018). Síndrome de acento extranjero. Geroinfo13(3), 1-8.