Sinestesia espelho-toque, uma forma de se conectar com os demais

novembro 3, 2019
A sinestesia espelho-toque é uma condição curiosa descoberta recentemente. As pessoas que a possuem são capazes de sentir a mesma dor e outras sensações que os demais sentem.

Todos os dias estamos em contato com os demais, com nós mesmos e com a natureza, mas será que realmente nos conectamos de forma profunda? Muitas vezes, fazer isso não é uma tarefa fácil. No entanto, podemos dizer que, de certa forma, é mais fácil para as pessoas com sinestesia espelho-toque.

Neste artigo, vamos explorar esta forma de conexão inigualável. Para começar, vamos entender o que é a sinestesia. Posteriormente, vamos nos aprofundar nas características da sinestesia espelho-toque e, finalmente, veremos como esse fenômeno pode ser medido.

Cérebro colorido demonstrando sinestesia

O que é sinestesia?

Você imagina a música com alguma cor? Você já imaginou conseguir diferenciar sabores nas palavras? As pessoas com sinestesia conseguem fazer isso.

De acordo com o dicionário Michaelis, trata-se de uma “Relação estabelecida de forma espontânea entre sensações de caráter diferente, na qual um estímulo, além de provocar a sensação habitual e normalmente localizada, origina uma sensação subjetiva de caráter e localização diferentes”.

Ou seja, a sinestesia consiste em um tipo de alteração sensorial. Nela, um estímulo próprio de um sentido gera sensações típicas de outro sentido. Embora o fenômeno possa parecer estranho, essa forma de sentir não é patológica nem corresponde a nenhum quadro médico.

Existem diferentes formas de sinestesia, vejamos algumas delas:

  • Sinestesia grafema-cor. Consiste em ser capaz de associar letras a cores. Por exemplo, a letra “a” pode se associar a vermelho, “b” a amarelo, “c” a verde, etc.
  • Sinestesia som-cor. É a capacidade de ouvir um som e determinar uma cor a ele.
  • Sinestesia léxico-gustativa. É uma forma de sinestesia na qual as pessoas associam as palavras ao gosto. Em outras palavras, associam as palavras a sabores.
  • Sinestesia de personificação. Quando as pessoas são capazes de perceber a personalidade das letras e dos números.

O campo da sinestesia está sendo cada vez mais pesquisado. Por isso, há descobertas recentes sobre o tema, como a sinestesia espelho-toque, descoberta em 2005.

Características da sinestesia espelho-toque

Também é chamada de sinestesia espelho-tátil. Consiste na experimentação de sensações táteis após ver que outras pessoas são tocadas. Parece incrível, não é mesmo? Vejamos as principais características deste curioso tipo de sinestesia:

  • Ativação do córtex somatossensorial, gerando a sensação de que a pessoa está sendo tocada;
  • As pessoas com esse tipo de sinestesia sentem como se o toque no corpo da outra pessoa acontecesse em seu próprio corpo;
  • Consciência: uma condição para reconhecer que se trata da sinestesia espelho-tátil é que seja uma experiência consciente;
  • É um estímulo fora do normal que induz a resposta;
  • Automaticidade: as experiências acontecem ser serem previamente pensadas.

As teorias sobre a causa desse tipo de sinestesia são muitas. As três principais são:

  • Espelho Sensorial. Trata-se de uma teoria que sugere que as pessoas contam com uma sinestesia espelho-toque quando as ativações do sistema de espelho somatossensorial acontecem sob uma percepção fora do normal;
  • Teoria do sistema visual e somatossensorial. Essa teoria diz que as pessoas com sinestesia espelho-toque contam com o sistema visual e somatossensorial diretamente conectados;
  • Teoria das células bimodais. Estabelece que há células bimodais que, ao observar o tato, ativam-se tanto para os estímulos táteis quanto para os visuais.

Também estudam-se os neurônios espelho, que parecem estar mais presentes nas pessoas com sinestesia toque-espelho. Portanto, nas pessoas não sinestésicas seriam ativadas somente respostas imitativas, enquanto nas pessoas com este tipo de sinestesia a sensação é como se fosse real.

Por outro lado, a sinestesia espelho-toque está associada com a empatia. Parece que as pessoas com este tipo de sinestesia contam com uma maior ativação nos sistemas de espelho, o que faz com que desenvolvam um maior nível de empatia.

O poder do toque

É possível mensurar a sinestesia toque-espelho?

Diversas pesquisas se esforçaram para medir a sinestesia através de diferentes métodos para compreendê-la melhor. Por exemplo, através de ressonâncias e tomografias.

Graças aos pesquisadores, hoje conhecemos de forma mais profunda o funcionamento da sinestesia toque-espelho.

Blakemore, Bristow, Bird, Frith e Ward, em seu artigo “Somatosensory activations during the observation of touch and a case of vision-touch synaesthesia”, publicado na Revista de Neurologia Brain, descreveram o experimento que realizaram.

Consistiu em investigar o sistema neural envolvido na percepção do tato através de ressonância magnética.

Isso foi realizado em 12 pessoas sem sinestesia e em “C”, uma mulher com sinestesia espelho-toque. Analisaram a atividade neuronal para a observação do toque do rosto ou pescoço humano, com o objetivo de investigar a tipografia somatosensorial em ambos casos.

Como resultado, obtiveram que os padrões de ativação de “C” eram diferentes das pessoas controle (não sinestésicas) em três sentidos:

  • As ativações no córtex somatossensorial foram significativamente maiores;
  • A área pré-motora esquerda de “C” ativou-se em maior medida do que nas pessoas não sinestésicas;
  • O córtex da ínsula ativou-se em “C”, mas não nas pessoas sem sinestesia.

Através destas medições, foi possível demonstrar que “C” contava com um sistema de espelho para o tato que se encontra acima do normal para a percepção tátil de forma consciente.

Por outro lado, em sua tese de doutorado, Elvira Salazar decidiu analisar se a observação de estímulos dolorosos e táteis geravam uma assimetria corporal no termograma de observador. Ou seja, aplicando uma técnica que permite registrar de forma gráfica a temperatura, chamada termografia, ela se pôs a observar a assimetria.

Por quê? Em situações normais deveria haver simetria, a menos que exista uma patologia. Ela queria saber se, ao não ter simetria e observar situações de dor e tato, poderia surgir uma assimetria na termografia.

Assim, encontrou uma medida objetiva, a assimetria térmica, para estudar as manifestações fisiológicas da sinestesia espelho-toque, além de padrões de atividade cerebral, a experiência subjetiva e os marcadores comportamentais.

A sensação tátil após observar é tão profunda nas pessoas com sinestesia toque-espelho que dizem que quem é sinestésico é mais empático. Uma impressionante forma de se conectar com os demais, não é mesmo?

Esperamos que diversos estudos continuem nos aproximando desta e de outras sinestesias para conhecer mais sobre este incrível fenômeno.

  • Blakemore, S.J. Bristow, D., Bird, G., Frith, C., & War, J. (2005). Somatosensory activations during the observation of touch and a case of vision touch synaesthesia. Brain, 128 (7), 1571-1583.
  • Salazar, E. (2012). Aplicación de la termografñia a la psicología básica. Tesis doctorral. Universidad de Granada.