A teoria da diversão: os prêmios funcionam melhor que os castigos

setembro 15, 2019
A teoria da diversão parte da ideia de que as pessoas ficam mais motivadas a realizar condutas que exigem um esforço se forem incentivadas por algum estímulo que se mostre divertido. Ou seja, o prêmio parece ter um grande poder quando se trata de modelar comportamentos.

Até pouco tempo atrás, vivíamos em um mundo que acreditava que o castigo deveria ser um dos elementos importantes da educação. Educar consistia em restringir, enquanto a pessoa adquiria a capacidade de se autorrestringir. Essa ideia foi reavaliada, e a teoria da diversão deixa claro que, em muitos casos, há métodos mais eficazes.

É verdade que os seres humanos vieram ao mundo com padrões de comportamento altamente egocêntricos. Para aprender a viver em sociedade, temos que renunciar paulatinamente à ideia de que somos o centro de tudo e de que todos os nossos desejos devem ser realizados.

A teoria da diversão propõe que as pessoas ficam mais dispostas a realizar ações que podem ser consideradas “chatas” quando isso envolve uma experiência de diversão.

Em outras palavras, um estímulo positivo pode se tornar um grande incentivo para cumprir algumas normas ou realizar comportamentos desejáveis para a sociedade.

“A paixão e a diversão são as forças mais poderosas quando se trata de conseguir coisas.”
-Rafael Santandreu-

Homem olhando pela janela

A origem da teoria da diversão

A teoria da diversão surgiu em 2009, e isso não aconteceu no meio acadêmico. A empresa Volkswagen patrocinou um experimento para provar que essa teoria funcionava.

No meio do caminho entre o marketing e a responsabilidade social, esse gigante automobilístico quis comprovar que a mudança social e individual é possível sempre que houver um incentivo para realizá-la.

A Volkswagen lançou sua Fun Theory, ou teoria da diversão, para inspirar as pessoas a levar uma vida mais plena. Obviamente, junto com isso, estava consolidando a imagem da marca. O que essa empresa fez foi propor uma série de experimentos sociais para observar a reação das pessoas.

Todos esses experimentos propunham um dilema para as pessoas. Havia duas opções: uma que apostava na comodidade e no costume, e outra que exigia um determinado esforço, mas envolvia ao mesmo tempo uma experiência diferente e divertida. Vamos ver o que aconteceu:

O primeiro dos experimentos

O primeiro experimento social realizado foi muito simples, mas também muito revelador. Foi feito em um lugar bastante movimentado: a estação de metrô mais popular da Suécia.

Havia uma escada rolante e, ao lado, uma escada convencional. A questão era: como fazer as pessoas usarem a escada convencional, aproveitando para se exercitar?

Eles encontraram uma resposta divertida. Inventaram o que foi chamado de “escada piano”. Pintaram a escada convencional como se fosse um piano e fizeram com que, quando as pessoas pisassem em cada degrau, este emitisse um som, como se as pessoas estivessem tocando um instrumento musical.

O resultado foi surpreendente. Normalmente, 95% das pessoas usavam a escada rolante para subir. Com a escada piano, 66% dos transeuntes optaram por fazer o esforço de subir degrau por degrau.

Além disso, pareciam muito felizes ao subir. Isso provava, em princípio, que a teoria da diversão funcionava.

Pessoa subindo escadas sozinha

Outros experimentos

O segundo experimento que foi realizado para testar a teoria da diversão foi ainda mais bem-sucedido que o primeiro. Ainda há muitas pessoas que jogam lixo no chão, e fazem isso sem o menor constrangimento. Assim, foi proposto um novo teste, também em Estocolmo, na Suécia.

A ideia foi instalar latas de lixo que tinham um sensor especial. Quando uma pessoa jogava lixo dentro da lixeira, tocava um som semelhante ao dos desenhos animados, quando alguma coisa cai em um precipício.

As pessoas acharam isso extremamente divertido e não apenas jogaram o lixo no lugar certo, como também recolheram lixo que estava no chão para colocar na lixeira.

Em apenas um dia, a quantidade de lixo depositado nas lixeiras praticamente duplicou. Comprovava-se, mais uma vez, que a teoria da diversão poderia ser útil.

No entanto, até o momento esta teoria só foi abordada como elemento de marketing e no âmbito empresarial. Ao mesmo tempo, foi baseada em experiências de curta duração, sem nenhuma garantia de que os efeitos possam ser mantidos com o passar do tempo.

A grande pergunta é se ela funcionaria da mesma forma em temas de maior envergadura, e se é capaz de produzir mudanças de comportamento que se sustentem a longo prazo.

Ainda não há dados sobre isso. Contudo, a ideia de que a brincadeira é um fator que tem um poder de persuasão extraordinário foi comprovada. A novidade e a diversão são estímulos suficientemente fortes para nos incentivar a ser pessoas melhores.

  • Cervelló Gimeno, E., Escartí, A., & Balagué Gea, G. (1999). Relaciones entre la orientación de meta disposicional y la satisfacción con los resultados deportivos, las creencias sobre las causas de éxito en deporte y la diversión con la práctica. Revista de Psicología del deporte, 8(1), 0007-19.