A teoria da personalidade autoritária de Theodor Adorno

· março 1, 2019

Theodor W. Adorno, junto a Else Frenkel-Brunswik, Daniel Levinson e Nevitt Sanford, todos pesquisadores da Universidade da Califórnia, Berkeley, defenderam a Teoria da Personalidade Autoritária.

A pesquisa que acabou dando forma ao conceito foi criada em meados do século passado e foi motivada por uma comissão do governo dos Estados Unidos interessada em rastrear as raízes do antissemitismo.

Adorno argumentou que alguns traços de personalidade profundamente enraizados predispunham alguns indivíduos a serem muito sensíveis às ideias totalitárias e antidemocráticas.

A evidência oferecida para apoiar esta conclusão inclui estudos de caso (nazistas, por exemplo), testes psicométricos (uso da Escala F, de fascismo) e entrevistas clínicas.

Assim, os dados coletados pareciam defender a existência da personalidade autoritária, o que poderia ajudar a explicar por que algumas pessoas são mais resistentes a mudar seus preconceitos.

Características da personalidade autoritária

De acordo com a Teoria da Personalidade Autoritária, as pessoas com uma personalidade autoritária tenderiam a ser:

  • Hostis diante daqueles que são de um status inferior, mas obedientes às pessoas de status mais altos;
  • Bastante rígidas em suas opiniões e crenças;
  • Convencionais, defendendo os valores tradicionais.
Autoridade e humilhação

Adorno chegou à conclusão de que os indivíduos com personalidades autoritárias mostravam uma inclinação maior a categorizar as pessoas como “nós” e “eles”, percebendo seu próprio grupo como superior.

As pessoas com uma educação muito rígida, administrada por pais críticos e severos, tinham mais probabilidades de desenvolver uma personalidade autoritária.

Adorno acreditava que isso se devia ao fato do indivíduo em questão não poder expressar hostilidade aos seus pais (por estes serem rígidos e críticos). Como resultado, a pessoa redirecionaria sua hostilidade a objetos que não iriam penalizá-la, pois estavam em uma posição fraca, como é o caso das minorias étnicas.

A Escala F

A personalidade autoritária deu lugar a um conjunto de critérios para definir os traços de personalidade. Por sua vez, a ferramenta de referência para avaliar a personalidade autoritária foi denominada Escala F (sendo F de fascista).

Adorno pensava que a configuração destes traços estava muito influenciada pelas experiências da infância. Estas características incluem:

  • Convencionalismo: apego aos valores convencionais;
  • Apresentação autoritária: para figuras de autoridade do grupo;
  • Agressão autoritária: contra pessoas que violam valores convencionais;
  • Anti-intracepção: oposição à subjetividade e à imaginação;
  • Superstição e estereotipia: crença no destino individual, pensando em categorias rígidas;
  • Poder e dureza: pela preocupação ou submissão e dominação, afirmação da força;
  • Destrutividade e cinismo: hostilidade generalizada contra a natureza humana;
  • Projetividade: percepção do mundo como perigoso, tendência a projetar impulsos inconscientes;
  • Sexualidade: preocupação excessiva com as práticas sexuais modernas.

Avaliação crítica da teoria da personalidade autoritária

A verdade é que existem muitos pontos de vista dessa teoria para os quais não contamos com evidências. Sim, existem evidências para alguns, mas apontam na direção contrária ao que essa teoria postula. Alguns de seus pontos mais controversos são:

  • estilo de criação rígido nem sempre gera indivíduos com preconceitos;
  • Alguns preconceitos não se ajustam ao tipo de personalidade autoritária;
  • A teoria não explica por que as pessoas têm preconceitos com certos grupos e outros não.

Além disso, Adorno também foi criticado por sua amostra limitada. Isso porque os participantes foram recrutados através de organizações formais, que já impunham um viés inicial, e questionava-se a representatividade da amostra para generalizar as conclusões de seu estudo.

Homens discutindo

Outra questão é que os itens da Escala F foram escritos de forma tendenciosa e não eram mutuamente excludentes. Por último, os procedimentos para validar as entrevistas clínicas não ofereciam garantia, já que os entrevistadores já conheciam previamente a pontuação da escala de cada entrevistado, podendo ser influenciados na forma de fazer as perguntas.

Entretanto, a Teoria da Personalidade Autoritária inspirou uma ampla pesquisa sobre a relação entre os traços de personalidade, o comportamento e as crenças políticas. De fato, ainda que hoje não seja considerada uma referência, sem ela seria complicado entender a história da psicologia da personalidade.

  • Adorno, T. W., Frenkel-Brunswik, E., Levinson, D. J., & Sanford, R. N. (1950). The authoritarian personality.