A teoria do canivete suíço: a modularidade da mente

· março 25, 2019
A teoria do canivete suíço defende que a mente se organiza em módulos especializados, em áreas específicas para resolver problemas.

A teoria do canivete suíço é uma controversa, mas curiosa explicação sobre como a mente funciona. Segundo essa abordagem modular, nosso cérebro seria formado por “aplicativos” altamente especializados para resolver de maneira eficaz problemas muito específicos. Desse modo, nossa mente seria um conjunto de áreas específicas muito similar a um canivete multiuso.

Antes de mais nada, vale destacar que essa perspectiva, assim como o conceito de modularidade para explicar os processos perceptivos e cognitivos, costuma receber muitas críticas por parte da neurociência. No entanto, uma pequena parte dos psicólogos evolucionistas continua defendendo essa singular perspectiva proposta em 1922 pelo antropólogo John Toody e a psicóloga Leda Cosmides.

Essa ideia já havia surgido na comunidade filosófica nos anos 1980. Foi Jerry A. Fodor, um dos mais importantes filósofos da mente, que investigou durante toda sua vida os mistérios da estrutura da cognição humana. Falamos de um grande especialista em linguística, lógica, semiótica, psicologia, informática e inteligência artificial.

Além disso, devemos a ele, por exemplo, as bases da própria ciência cognitiva e a especificidade de filosofia da psicologia. Assim, um de seus trabalhos mais notáveis e de maior impacto foi, sem dúvida, A modularidade da mente, publicado em 1983. Essa perspectiva, embora rejeitada por parte de muitos especialistas, não deixa de ser uma corrente que reúne um grande interesse por se juntar às tentativas de compreender o mistério que ronda os processos mentais.

“Temos muito a fazer. O que nossa ciência cognitiva fez até agora foi, em sua maior parte, lançar um pequeno feixe de luz sobre a grande escuridão que existe quanto à compreensão da mente”.
-Jerry A. Fodor-

As engrenagens do cérebro

A teoria do canivete suíço e o eterno problema da mente

Na teoria do canivete suíço há um primeiro aspecto com o qual todos estamos de acordo. O próprio Dr. Fodor indicava que o cérebro, como entidade física observável, pode ser cada vez melhor estudado graças aos avanços tecnológicos. No entanto, há um ponto no qual o estudo da mente entra em outro nível, mais abstrato e impreciso, no qual a tecnologia perde valor.

Platão e Aristóteles, em suas épocas, já tentaram dar uma explicação. Assim como Descartes e John Locke. Dessa forma, por volta dos anos 1980, essa corrente, que se estabelece entre a filosofia e a psicologia, viu de repente no legado de Noam Chomsky e do cripto-matemático Alan Turing uma maneira singular de definir e explicar nossos processos cognitivos.

A seguir, vamos analisar os princípios que definem a teoria do canivete suíço.

Os módulos mentais

No final de 1950, o linguista e filósofo Noam Chomsky começou a defender uma de suas teorias mais conhecidas: a linguagem não é um comportamento aprendido, mas uma faculdade mental funcional inata. Essa premissa foi um dos pilares que inspirou posteriormente o doutor Fodor.

  • Ao mesmo tempo, também se baseou de maneira direta nos trabalhos de Turing sobre seus modelos matemáticos informáticos. Pouco a pouco, foi moldando as bases de sua abordagem até definir um modelo da mente delimitado por faculdades mentais separadas e especializadas.
  • Chamou essa teoria de psicologia das faculdades, de maneira que cada processo da nossa mente se organizaria em diferentes módulos especializados, como aplicativos únicos de um computador. Dessa maneira, há um módulo para a sensação e a percepção, outro para a volição, outro para a memória, outro para e linguagem, etc. 

Os defensores da teoria do canivete suíço

Jerry A. Fodor publicou suas teorias no livro A modularidade da mente (1983). Posteriormente, os doutores Tooby e Cosmides enunciaram a teoria do canivete suíço baseando-se nos trabalhos de Fodor. Em que ponto estamos atualmente? Essa abordagem que entende a mente como “aplicativos” especializados é viável?

Assim como já afirmamos, essa abordagem continua sendo controversa. No entanto, são muitas as figuras no campo científico que defendem a psicologia das faculdades enunciada por Fodor.  Uma posição nesse debate aberto é a defendida por Nancy Kanwisher, professora e pesquisadora no Departamento do Cérebro e das Ciências Cognitivas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

Uma de suas palestras TED mais conhecidas foi realizada em 2014 para explicar a validade da teoria do canivete suíço. Além disso, também há vários estudos científicos que defendem essa ideia e que são publicados regularmente no periódico científico Journal of Neuroscience.

O caso da prosopagnosia

Um aspecto que a doutora Kanwisher notou através de ressonâncias magnéticas foi que há muitas áreas do cérebro que não se comunicam entre si; que trabalham isoladas. Isso faz com que, por exemplo, pessoas com prosopagnosia consigam enxergar perfeitamente e, ao mesmo tempo, sejam incapazes de reconhecer pessoas.

Elas conseguem enxergar seus filhos, mas em muitos casos não os reconheceriam quando fossem buscá-los na escola. Portanto, há muitas áreas especializadas do cérebro que trabalham como “módulos”. Exemplos disso são as regiões específicas que processam as cores, as formas, o movimento, a fala, etc.

Críticas à teoria modular da mente

Há muita gente que vê na teoria modular ou na teoria do canivete suíço uma abordagem muito simplista, ao mais puro estilo darwiniano, na qual não se exclui, por exemplo, a ideia da seleção natural.

Essa perspectiva entende, por exemplo, que nossas condutas são quase como se fossem programas que vamos adquirindo à medida que progredimos como espécie. Assim, cada processo, cada função, vai se desenvolvendo e se especializando de maneira autônoma e separada do resto.

Estudos, como o publicado pela revista PLOS Biology, mostram o risco de assumir esse tipo de abordagem modular sobre a cognição humana. Assim, não podemos falar do cérebro como uma entidade fragmentada. Não se encaixa na metáfora do celular, ao qual vamos acrescentando aplicativos com base em nossas necessidades cotidianas. É algo mais complexo do que tudo isso.

Embora seja verdade que existem áreas do cérebro que não se comunicam com outras, não é verdade que a mente trabalha através de diferentes setores especializados e separados entre si. O cérebro foi projetado para compartilhar informações e trabalhar de maneira unitária, todas as áreas estão interconectadas e compartilham informações de maneira constante.

Nosso raciocínio, por exemplo, longe de ser modular, é holístico. Fazemos uso de vários conceitos, inferências, processos, induções, etc. Portanto, o cérebro e os processos cognitivos não podem ser entendidos sob a clássica metáfora de um computador. Somos muito mais complexos, fascinantes e imprevisíveis…

  • Fodor, Jerry (1983) La modularidad de la mente. Madrid: Morata
  • Arbib, M., 1987. Modularity and interaction of brain regions underlying visuomotor coordination. In J. L. Garfield (ed.), Modularity in Knowledge Representation and Natural-Language Understanding, Cambridge, MA: MIT Press, pp. 333–363.
  • Bacáicoa Ganuza, F. (2002). La mente modular. Revista de Psicodidáctica, 13: 1-24.