A terapia cognitiva no transtorno de personalidade esquizoide

A terapia cognitiva para o transtorno de personalidade esquizoide se apresenta como um modelo que, por meio de métodos socráticos clássicos e objetivos modestos, tenta fazer com que o paciente abandone, na medida do possível, suas crenças sobre um mundo hostil.
A terapia cognitiva no transtorno de personalidade esquizoide

Última atualização: 24 Junho, 2021

Quando pensamos em um paciente com transtorno de personalidade esquizoide, podem vir à mente personagens como “o avô eremita de Heidi” ou “o típico vizinho nerd e estranho que não sai de casa”.

Isso acontece porque a característica fundamental do transtorno é o desapego nas relações sociais e a baixa expressão e variação emocional nos contextos interpessoais. É um transtorno que começa nos primeiros estágios da idade adulta e se manifesta por meio de quatro dos seguintes sintomas ou características, de acordo com o DSM5:

  • Não deseja ou não gosta de relacionamentos íntimos, incluindo fazer parte de uma família.
  • Quase sempre opta por atividades solitárias.
  • Mostra pouco ou nenhum interesse em ter experiências sexuais com outra pessoa.
  • Diverte-se com poucas ou nenhuma atividade.
  • Não tem amigos próximos ou confidentes além de seus parentes de primeiro grau.
  • É indiferente a elogios ou críticas de outras pessoas.
  • É emocionalmente frio, desapegado ou com afetividade plana.

Como podemos ver, as pessoas esquizoides demonstram muito pouco interesse em ter contato com outras pessoas, exceto aqueles do contexto familiar mais próximo.  Ainda assim, o padrão é passar a maior parte do tempo em solidão, fazendo tarefas que não envolvam interação com outras pessoas.

Seu afeto é muito restrito. Parecem pessoas lentas e letárgicas. Sua fala, quando ocorre, também é lenta e monótona, e se questionadas sobre as suas emoções, raramente afirmam ter alguma emoção intensa, como “alegria” ou “ódio”. O ambiente acaba, por fim, ignorando ou deixando de lado essas pessoas Isso implica que o paciente permanece degenerado em termos de habilidades sociais, em grande parte devido à falta de prática.

Jovem vendo o pôr do sol

Subtipos do transtorno de personalidade esquizoide

Alguns autores propuseram subtipos dentro do transtorno de personalidade esquizoide. Millon e Davis (1996), por exemplo, apresentaram os seguintes:

  • Desafetado. O esquizoide desafetado é um indivíduo carente de paixões, sem resposta, que demonstra pouco afeto, é frio e pouco preocupado com os outros, sem humor e difícil de emocionar ou imperturbável. Como o nome sugere, “nada o afeta”. Ele continua sendo um bloco de gelo diante das circunstâncias da sua vida.
  • Distante. É um indivíduo distante, quase impossível de acessar. Ele gosta de ficar isolado e sozinho, sem lar e sem rumo. Mostra-se ocupado apenas com algumas atividades que não lhe interessam muito.
  • Lânguido. São pessoas muito preguiçosas, com um nível de ativação muito baixo. Inerentemente fleumáticos, letárgicos, cansados e fracos. Muitas vezes, sentem-se exaustos e negligenciam tudo relacionado a si mesmos e suas vidas por falta de iniciativa e ação.
  • Despersonalizado. Desinteressado pelos outros e por si mesmo. Seu ego o sente fora de seu próprio corpo ou como um objeto distante. Percebe a mente e o corpo como divididos ou dissociados.

Como ele se desenvolve?

O transtorno esquizoide pode se desenvolver por meio de uma combinação de genética e ambiente. Quanto ao ambiente, geralmente crescem em lares onde se sentem rejeitados ou diferentes. Essas pessoas acabam vendo a si mesmas como “menos” que os demais membros da família e, por isso, passam a ter a ideia de que são diferentes, estranhas, de que as pessoas ao seu redor são desagradáveis ​​ou vão rejeitá-las.

Nesse sentido, criam uma série de normas de segurança que as conduzem a um estilo de vida solitário e garantem, ou assim elas acreditam, que terão que enfrentar as opiniões ou rejeições de outras pessoas. Parece que, com essa armadura, elas se livram da dor que a vida poderia lhes trazer.

Na terapia cognitiva para o transtorno de personalidade esquizoide, podemos encontrar diferentes crenças alojadas nas mentes desses pacientes: “Eu sou um desajustado”, “Eu sou metade de uma pessoa”, “Eu sou estranho”, “Estou sozinho” ou “As pessoas são cruéis”,“ As pessoas decepcionam”.

Portanto, a partir dessas crenças, são desenvolvidas diversas premissas que as mantêm em uma falsa segurança: “Se eu falar com outras pessoas, elas vão perceber como sou estranho e vão me rejeitar”, “Quando você não se encaixa, não pode ter amigos “, etc.

Terapia cognitiva no transtorno de personalidade esquizoide

Como a relação terapêutica já é, por si mesmo, um contexto interpessoal, é provável que o sujeito com transtorno esquizoide tenha dificuldades para participar da terapia.  Também é muito normal que se sinta ambivalente ao longo do processo sobre se deve ou não continuar o tratamento.

Dependendo do paciente, alguns objetivos ou outros serão definidos. É importante que os objetivos sejam definidos pelo próprio paciente em ordem de importância, e não pelo terapeuta.

Paciente fazendo terapia

A razão é que o terapeuta, que não tem esse problema em suas relações sociais, pode pensar que os objetivos são muito limitados ou “preguiçosos”, mas ele deve entender que para um paciente esquizoide, são praticamente a conquista máxima no nível de sociabilidade que vai conseguir ter em toda a sua vida. Então, é necessário que o terapeuta se adapte ao paciente, e não o contrário.

Com a terapia cognitiva no transtorno de personalidade esquizoide, vão ser trabalhadas fundamentalmente as crenças e suposições disfuncionais da pessoa que comentamos anteriormente. Por meio de técnicas como o questionamento socrático, a reatribuição verbal ou os experimentos comportamentais, tentaremos fazer a pessoa esquizoide perceber que “o mundo hostil” que reside em sua mente está apenas em sua mente.

Através da técnica da “metáfora do preconceito de Padesky” (1993), o paciente é incentivado a coletar todas as informações possíveis que contradizem suas crenças de “Eu não sou normal” ou “Eu sou estranho”. O objetivo é que a pessoa veja que não é 100% esquisita, ou seja, que apesar do seu transtorno, às vezes ela faz coisas iguais às que as outras pessoas fazem.

Para isso, pode-se entregar a ela, como dever de casa, um caderno para registrar tudo que faz dela uma “pessoa normal”. Por exemplo, algumas anotações poderiam ser: fiz café para minha mãe, falei com um vizinho na fila do supermercado, vim para a sessão terapia cognitiva, etc.

Outro objetivo que podemos realizar com o paciente, desde que ele se sinta preparado, é tentar estimulá-lo a fazer uma amizade, mesmo que virtualmente. A ideia é que, por meio do contato com outras pessoas, suas suposições e crenças sejam confrontadas.

Como é comum que esses pacientes abandonem a terapia antes da sua conclusão, é conveniente estar um passo à frente e criar um relatório-resumo para dar ao paciente caso ele queira, no futuro, continuar seu trabalho pessoal, indicando pontos em que ele poderá se beneficiar.

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  • Beck, A., Freeman, A., Davis, D. Terapia cognitiva de los trastornos de personalidad. Paidós. 2º edición (2015)
  • American Psychiatric Association (APA) (2014). Manual de Diagnóstico y Estadísitico de los Trastornos Mentales, DSM5. Editorial Médica Panamericana. Madrid.