Terapias sistêmicas: suas origens, princípios e escolas

Terapias sistêmicas: origens, princípios e escolas

Janeiro 28, 2018 em Psicologia 106 Compartilhados
Terapias sistêmicas: origens, princípios e escolas

As terapias sistêmicas têm suas raízes na terapia familiar. Hoje em dia não é necessária uma família como foco de atenção para que o olhar seja sistêmico. Nessa perspectiva, o que importa é a relação, ou seja, o processo de interação entre as pessoas, e não tanto a observação do indivíduo isolado.

Foi o biólogo e filósofo austríaco Ludwig von Bertalanffy que formulou a Teoria Geral dos Sistemas em 1968. Ele utilizou o conceito de sistema como “um complexo de elementos em interação” para, mais tarde, aplicá-lo no âmbito terapêutico até se transformar no modelo predominante nos estudos de família e relacionamentos.

No entanto, a perspectiva sistêmica se nutre também de contribuições de outras disciplinas, principalmente em relação ao âmbito teórico. Algumas delas são a cibernética, os desenvolvimentos pragmáticos da comunicação e da psicoterapia familiar. Essa integração de perspectivas permitiu o desenvolvimento de um amplo âmbito de aplicação que abarca desde tratamentos individuais até grupais, de casais e, obviamente, de famílias (Hoffman, 1987).

O ponto de junção das diversas abordagens é o conceito de sistema, a partir do qual se deduz que o todo é maior que a soma das partes. O que quer dizer que a partir da abordagem sistêmica dá-se ênfase às propriedades do todo que resulta da interação dos diferentes elementos do sistema. Se traduzirmos, em termos gerais, isso significa que o que importa é a relação que surge da interação entre as pessoas.

Assim, os psicólogos sistêmicos adotam uma ideia geral: um sistema, seja ele qual for, familiar, de um casal ou social, é formado por um ou mais elementos ligados entre si de tal maneira que uma mudança no estado vai ser seguida por uma mudança do sistema, podendo chegar a conhecer aspectos fundamentais da patologia individual de um dos membros do sistema.

Antecedentes das Terapias Sistêmicas

Os antecedentes mais importantes das terapias sistêmicas podem ser encontrados na psicanálise. Um exemplo disso são os termos “mãe esquizofrenógica” de Frieda From-Reichman, “mãe perversa” de Rosen ou o uso de entrevistas familiares de Bell.

Contudo, os primórdios mais evidentes dessa terapia surgiram com o antropólogo Gregory Bateson e sua equipe de veteranos na “Administration Hospital de Palo Alto”. Bateson se uniu a outros pesquisadores como Jackson, Haley e Weakland para analisar o sistema comunicativo das famílias esquizofrênicas.

Gregory Bateson

Gregory Bateson

Uma das teorias mais interessantes que surgiu a partir das pesquisas foi a teoria do vínculo duplo. Essa teoria explica como a contradição entre duas ou mais mensagens pode induzir ao delírio para fugir da realidade, já que a contradição implica receber ordens simultâneas impossíveis de cumprir, pois a realização de uma implica desobedecer a outra. Um exemplo pode ser a expressão “te amo” para uma filha de sua mãe, que a nível gestual transmite rejeição.

Paralelamente, em 1962, Jackson e Ackerman fundaram a revista Family Process e Bertalanffy formulou a Teoria Geral de Sistemas, sendo esta última a teoria que desenvolve uma série de fatores comuns a todas as terapias sistêmicas.

Aspectos comuns das terapias sistêmicas

Apesar de as terapias sistêmicas serem muito amplas e abarcarem, como dissemos anteriormente, um grande grupo de disciplinas, existe uma série de aspectos comuns a todas elas. O mais importante é o conceito de sistema que já mencionamos como “um conjunto de objetos ou elementos que se relacionam entre si”.

Na sua Teoria Geral de Sistemas, Bertalanffy também destacou o conceito de interação, pressupondo dessa maneira que um sistema implica uma interdependência entre as partes, ou no caso das terapias sistêmicas, das pessoas envolvidas na relação.

Além disso, na Teoria Geral de Sistemas defende-se que cada uma das partes que formam um sistema pode ser considerada um subsistema. Dessa maneira, a família pode ser o sistema e a relação entre mãe e filho um subsistema.

Também é importante diferenciar os sistemas abertos dos fechados, apesar de não existir um critério unificado entre os pesquisadores para diferenciar os mesmos. Seguindo a conceitualização de Bertanlaffy, um sistema fechado é aquele que não realiza nenhum tipo de troca com o meio, ao passo que um sistema aberto está em constante intercâmbio com o meio e com outros sistemas.

Por exemplo, os sistemas fechados de família não mantêm nenhum tipo de troca com o meio. O estado final depende das condições iniciais de tal sistema e existe um empobrecimento de energia progressivo na união e no sistema familiar.

Mãos segurando recortes de família

Dessa observação, autores como Watzlawick, Beavin e Jackon da escola de Palo Alto, e da derivação do estudo de outros conceitos da Teoria Geral de Sistemas, surge a “teoria da comunicação humana”. Essa teoria proporciona aspectos e ideias comuns a todos os modelos sistêmicos como:

  • É impossível não comunicar. Essa teoria parte da ideia de que toda conduta é comunicação, incluindo o silêncio. Além disso, ela considera que em situações o “sintoma” pode ser a forma de comunicação.
  • Os mecanismos dos sistemas vão se autorregulando por meio de feedbacks.
  • Existem dois níveis de comunicação: o nível digital ou de conteúdo e o nível analógico ou relacional. Se houver incongruência entre ambos os níveis, surgem as mensagens paradoxais.
  • A interação está condicionada pelas pontuações que os participantes introduzem. Isso quer dizer que dependendo da versão que construímos daquilo que vemos e sentimos, estabeleceremos a relação com as outras pessoas e vice versa. Dessa forma, a ausência de concordância em relação à maneira de pontuar os acontecimentos é a causa de vários conflitos nas relações.
  • Existe um sistema de regras que o terapeuta sistêmico deve conhecer: as regras conhecidas, as regras simétricas, as regras secretas e as metarregras.

Além disso, cada escola sistêmica conta com uma série de peculiaridades. Vamos ver algumas delas com mais detalhes.

Escola interacional do MRI: Watzlawick, Wakland e Fisch

Essa escola sistêmica se identifica com a segunda geração de pesquisadores de Palo Alto (Watzlawick, Weakland & Fisch, 1974; Fisch, Weakland & Segal, 1982).

Algumas das máximas dessa escola são:

  • As tentativas de solução apenas mantêm os problemas. Ou seja, aquilo que a pessoa faz para remediar o acontecimento às vezes só estimula a sua manutenção.
  • As intervenções têm o objetivo de identificar os circuitos que intervêm na relação e nas tentativas de solução. O objetivo é modificar as bases interacionais, o que se conhece como Mudança 2, pois as tentativas de solução fracassadas são Mudança 1 ou “mais do mesmo”.
  • Uma das estratégias utilizadas são as intervenções paradoxais. Ou seja, estipular tarefas ou passar ideias muito distantes do sistema comum, mas de acordo com o quadro referencial do sistema. Para isso se utiliza “falar a linguagem do paciente” e “fazer uma sugestão em vez de estipular”.
Paul Watzlawick

Paul Watzlawick

Escola estrutural e estratégica: Minuchin e Haley

Minuchin e Haley são os principais representantes dessa escola. Para eles é indispensável analisar a estrutura do sistema para saber o tipo de relações que seus membros têm e, assim, aplicar o tratamento.

Ambos defendem que as famílias se organizam ao redor de alianças e coalizões. Por exemplo, uma aliança se define pela proximidade de dois membros em contraste com um terceiro mais distante. Ao passo que uma coalizão consiste na união de dois membros em oposição a um terceiro. As coalizões de diferentes gerações são chamadas de triângulos perversos (a mãe e o filho contra o pai, por exemplo).

Nessa perspectiva, o terapeuta utiliza uma série de técnicas para modificar a estrutura familiar, desafiando as definições da família e realizando uma redefinição positiva do sintoma. Também se aposta na prescrição de tarefas a certos membros da família, a desestabilização – na qual o terapeuta se alia com um subsistema – para provocar uma reestruturação de limites ou as intervenções paradoxais de Haley.

Escola sistêmica de Milão: Selvini-Palazzoli, a psicose na família

Essa escola surge dos trabalhos de Mara Selvini-Palazzoli e sua equipe. Eles se concentram nos transtornos como a anorexia ou os transtornos psicóticos que surgem em famílias de transação rígida.

A escola sistêmica de Milão mostra especial atenção aos dados recolhidos desde o momento da derivação e do primeiro contato. A partir de então, constroem uma hipótese de trabalho que vão contrastando no desenvolvimento da primeira sessão. Trabalham principalmente com os significados da família em relação ao sintoma e do paciente identificado com o objetivo de encontrar a presença e a ausência de consensos.

Uma das intervenções criadas por essa escola é a prescrição invariável. Um programa específico para trabalhar com famílias psicóticas que consiste em dar a mesma tarefa a toda a família, tentando aliar os pais por meio de um segredo, que favorece a separação dos subsistemas, principalmente o formado pelos filhos.

As terapias sistêmicas oferecem outra perspectiva dos problemas e das dificuldades. Uma perspectiva que prima pela relação acima do indivíduo como foco de trabalho para ajudar a melhorar a vida das pessoas. Um caminho curioso e interessante que cada vez está recebendo mais importância no âmbito terapêutico.

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