Transtorno de acumulação: no que consiste?

· julho 27, 2018

O transtorno de acumulação poderia ser confundido com a síndrome de Diógenes. Porém, não estamos falando da mesma coisa.

A pessoa que sofre da síndrome de Diógenes se caracteriza por seu isolamento social, chegando a se recolher em sua própria casa, além de abandonar completamente a limpeza da mesma e toda a sua higiene pessoal. Neste caso, a pessoa não acumula apenas objetos imprestáveis, ela também acumula lixo.

No transtorno de acumulação existem dificuldades persistentes para se desfazer ou se separar das posses. Não importa o valor real destas posses; podem ser objetos de baixo valor financeiro ou sentimental.

A dificuldade para se desfazer desses bens pode aparecer de muitas formas, incluindo vender, jogar fora, presentear ou reciclar. As principais razões que as pessoas alegam para estas dificuldades estão na utilidade ou valor estético dos elementos, ou em um forte apego sentimental em relação às posses.

Outra razão tem a ver com o “e se”. Compram um computador novo, mas não se desfazem do antigo caso o novo falhe. Quando compram um novo, continuam sem se desfazer do anterior, porque e se os dois falharem? E assim sucessivamente.

Algumas pessoas se sentem responsáveis pelo destino de seus bens e, frequentemente, fazem tudo que está em suas mãos para evitar desperdiçar algo. Além disso, o medo de perder informações importantes também é comum nas pessoas com transtorno de acumulação.

Quantidade exagerada de coisas

Como o transtorno de acumulação é diagnosticado?

O Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM-5) enumera uma série de critérios diagnósticos para este transtorno. São os seguintes:

  • A. Dificuldade persistente de se desfazer ou renunciar às posses, independentemente de seu valor real.
  • B. Esta dificuldade é decorrente de uma necessidade percebida de guardar as coisas e do mal-estar que a pessoa sente quando alguém se desfaz delas.
  • C. A dificuldade de se desfazer das posses dá lugar ao acúmulo de coisas que congestionam e lotam as áreas habitáveis e alteram muito seu uso previsto. Se as regiões habitáveis estiverem livres, será apenas devido à intervenção de terceiros (por exemplo, membros da família, pessoal da limpeza, autoridades).
  • D. A acumulação causa mal-estar clinicamente significativo ou deterioração no âmbito social, de trabalho ou em outras áreas importantes do funcionamento (incluindo a manutenção de um entorno seguro para si mesmo e para os demais).
  • E. Dita acumulação não pode ser atribuída a outro problema médico (por exemplo, lesão cerebral, doença vascular cerebral, síndrome de Prader-Willi).
  • F. Esta acumulação não se explica melhor pelos sintomas de outro transtorno mental (por exemplo, obsessões no transtorno obsessivo-compulsivo, diminuição da energia no transtorno de depressão maior, delírios na esquizofrenia ou outros transtornos psicóticos, déficit cognitivo no transtorno neurocognitivo maior, diminuição do interesse nos transtornos do espectro autista).

Uma casa cheia de objetos imprestáveis

Os objetos que se acumulam mais comumente são jornais, revistas, roupas velhas, bolsas, livros, material eletrônico e papéis… Praticamente qualquer coisa pode ser guardada na casa dessas pessoas.

A natureza dos artigos não se limita a possessões que a maioria das pessoas definiria como inúteis ou de pouco valor. Muitas pessoas recolhem e guardam um grande número de coisas de valor. Estas coisas frequentemente se encontram acumuladas misturadas com outros elementos de menor valor.

Armário cheio de roupas

As pessoas com transtorno de acumulação guardam voluntariamente suas posses. Sentem angústia quando enfrentam a possibilidade de jogá-las fora. Assim, a armazenagem é intencional.

Esta característica diferencia o transtorno de acumulação de outras formas de psicopatologia. Outros transtornos se caracterizam pela acumulação passiva de artigos ou pela ausência de angústia quando se desfazem das posses. Por isso são diferentes.

As pessoas que acumulam um grande número de artigos abarrotam e desorganizam as regiões de vida ativa da casa. Por exemplo, é possível que a pessoa não possa cozinhar na cozinha, dormir na cama ou se sentar em uma cadeira.

Dificuldade para usar os espaços da casa

Quando o espaço pode ser usado, isso só é possível com uma grande dificuldade. A desordem se define como um grande grupo de objetos, em geral não relacionados. Também podem estar marginalmente relacionados empilhados juntos, de uma forma desorganizada em espaços desenhados para outras finalidades.

Como víamos nos critérios diagnósticos, o critério C incide nas áreas ativas da vida da casa, e não em áreas periféricas, como garagens, sótãos ou porões. Estes lugares, às vezes, também estão desorganizados nos casos de pessoas sem transtorno de acumulação.

Os indivíduos com transtorno de acumulação costumam ter posses que ocupam mais do que as regiões de vida ativa de sua própria casa, e podem ocupar e impossibilitar o uso de outros espaços. Estes espaços podem ser veículos, pátios, lugares de trabalho e casas de amigos ou familiares.

Em alguns casos, as regiões de vida ativa podem não estar alteradas graças à intervenção de terceiros, como membros da família ou autoridades locais. As pessoas que foram obrigadas a limpar suas casas ainda têm sintomas que cumprem com os critérios para o transtorno de acumulação.

A gravidade do transtorno aumenta com o passar dos anos e, frequentemente, especialmente sem a intervenção adequada, o problema se torna crônico.