Transtornos de comportamento alimentar e emoção expressa de familiares

julho 28, 2019
Os transtornos de comportamento alimentar (TCA) têm uma prevalência na população jovem e feminina. Muitos têm sido os estudos que se concentraram nas pessoas com TCA, mas poucos o fizeram com seus familiares. Este artigo tem como objetivo apresentar o construto de Emoção Expressa dos familiares de pessoas com TCA e sua influência no decorrer do transtorno psicopatológico.

Os transtornos de comportamento alimentar (TCA) são definidos como distúrbios ou alterações do comportamento vinculado à alimentação e, portanto, à ingestão, que se mantêm a longo prazo e que implicam um desgaste na saúde física da pessoa, assim como uma deterioração de seu âmbito psicológico, social e muito possivelmente familiar.

Apesar de ser um transtorno psicopatológico de muito interesse sócio-sanitário por sua prevalência na população, e mais especificamente por sua incidência sobre o coletivo adolescente — estima-se que até 4% das mulheres adolescentes e jovens adultas apresentem esta patologia no mundo ocidental , os estudos sobre familiares de pessoas com transtornos de comportamento alimentar ainda são muito escassos.

Isso se torna um desafio inevitável e urgente, uma vez que dada a enorme porcentagem de adolescentes em risco de desenvolver um distúrbio alimentar, é uma problemática que pode ser transferida para o âmbito familiar e repercutir de forma significativa dentro deste.

É também muito relevante, pois os familiares também podem influir de forma rigorosa durante o curso do distúrbio.

Mulher com transtorno alimentar

Fatores que desencadeiam e mantêm os transtornos de comportamento alimentar

Muitos são os estudos que buscam encontrar não apenas os fatores que desencadeiam o TCA, mas também os que o mantêm. Modelos como o multifatorial Vohs, Bardone, Joiner, Abramson e Heatherton (1999) já demonstraram o papel do perfeccionismo no desenvolvimento da sintomatologia da anorexia nervosa

Esse perfeccionismo, em estudos mais recentes, como o realizado pela Universidade Nacional Autónoma do México em 2010, é definido como uma preocupação extrema por cometer erros, ou como indecisão diante da necessidade de ação.

Também salientam a insatisfação corporal e um autoconceito negativo, o início de uma dieta rigorosa, o ganho de peso, conflitos familiares ou críticas constantes ao peso e ao físico como fatores de risco para o desenvolvimento de um TCA.

Em relação aos fatores de manutenção da patologia, há a restrição alimentar, os comportamentos purgativos e um ambiente social muito reduzido, no qual figuram as atitudes dos familiares.

O que é a emoção expressa em familiares de pessoas com transtornos de comportamento alimentar?

A emoção expressa (EE) é definida como o estilo de comunicação emocional dentro da família, e também é postulado como um fator de manutenção dos transtornos de conduta alimentar. A EE é uma construção que começou a tomar forma nos anos 1950 no Instituto de Psiquiatria Social de Londres.

Em um primeiro estudo, observou-se que a maioria das recaídas de pessoas com esquizofrenia ocorriam naquelas que, após serem internadas por uma temporada, retornaram aos seios familiares nos quais se incluíam seus pais ou seus parceiros.

Como resultado disso, foram realizadas pesquisas para elucidar quais eram os elementos do seio familiar que tinham relação com as recaídas daqueles que voltaram para suas casas. Brown, Birley e Wing encontraram três aspectos relacionados ao desenvolvimento e à manutenção da patologia:

  • Hostilidade
  • Sobreimplicação emocional.
  • Comentários críticos

Outros autores, como Muela e Godoy, incluem também a ternura e os comentários positivos. Nos familiares de pessoas com TCA, o construto de EE apresenta aspectos semelhantes aos encontrados em pesquisas anteriores sobre a esquizofrenia.

Componentes da emoção expressa

  • Comentários críticos: avaliação negativa por parte de um familiar do comportamento da pessoa com TCA (o conteúdo não denota apenas crítica, mas também entonação).
  • Hostilidade: repúdio por parte de um membro da família da pessoa com TCA. Não é apenas uma crítica a algo que faz, é em geral à pessoa.
  • Sobreimplicação emocional: resposta emocional intensa por parte dos familiares na tentativa de controlar o comportamento da pessoa com TCA. A resposta emocional pode variar desde soluços e choros constantes por causa da situação até sacrifícios devido à exigência da patologia ou superproteção excessiva.
  • Ternura: resposta emocional adequada por parte dos familiares que envolve empatia, afeto, interesse.
  • Comentários positivos: comentários verbais de afeto à pessoa.

Todos esses componentes parecem exercer um papel essencial no curso da patologia da pessoa ou membro da família com TCA.

Quando existem altos níveis de, por exemplo, comentários críticos, hostilidade e sobreimplicação emocional, o contexto familiar da pessoa com o transtorno é um contexto mais coercitivo, mais vigiado e muito menos flexível.

Estudos longitudinais do âmbito mostram que existem diferenças entre os TCA que duram menos, comparados àqueles que se tornam crônicos. Observou-se que apenas 6% dos familiares daquelas pessoas que se recuperaram rapidamente de um transtorno alimentar apresentaram altos níveis de Emoção Expressa (EE).

Muitos autores estudaram também a relação da emoção expressa em familiares e o desenvolvimento da patologia, não apenas a manutenção, uma vez desenvolvida. Os resultados mostraram que 55 a 60% dos familiares de pessoas com transtornos de comportamento alimentar apresentavam uma alta EE.

Jovem com transtorno alimentar

A relevância dos familiares nos transtornos de comportamento alimentar

Reitera-se, por todo o exposto anteriormente, a necessidade de incluir no tratamento psicológico dos TCA (anorexia nervosa, bulimia nervosa e transtornos de compulsão alimentar) uma parte de psicoeducação e, se necessário, a intervenção nos familiares da pessoa com o transtorno.

Um bom ajuste emocional familiar, em que todos os membros sejam capazes de controlar suas emoções e contem com uma ventilação emocional nos momentos adequados, parece ser de vital importância para a melhora das pessoas com patologias alimentares.

O envolvimento dos familiares é de suma importância, especialmente quando a maioria dos afetados por um TCA são adolescentes.

Não é de se esperar, no entanto, que eles saibam como lidar com um TCA, e por isso enfatiza-se a ideia de incluir membros da família durante todo o tratamento, já que não apenas o EE será objeto de intervenção.

Assim, torna-se necessário desculpabilizar os familiares, que precisam aprender a parar de rotular a pessoa com um transtorno alimentar, reforçar os comportamentos alternativos e as melhoras da pessoa com TCA e a emanar calma e paciência diante de uma doença que pode perdurar.

  • Franco, K., Mancilla, J., Vázquez, R., Álvarez, G. y López, X. (2011). El papel del perfeccionismo en la insatisfacción corporal, la influencia sociocultural del modelo de delgadez y los síntomas de trastorno del comportamiento alimentario. Universitas Psychologica, 10(3), 829-840.
  • Adrados, V. (2014). Emoción expresada familiar en los trastornos de la conducta alimentaria. Tesis doctoral. Universidad de Chile, Chile.
  • March, J. (2014). El papel del perfeccionismo en la insatisfacción corporal, la influencia sociocultural del modelo de delgadez y los síntomas de trastorno del comportamiento alimentario. Tesis doctoral. Universidad Autónoma de Barcelona, España.
  • Moraleda, S., González, N., Casado, J., Carmona, J., Gómez, R., Aguilera, M. y Orueta, R. (2001). Aten Primaria, 28(7), 463-467.