A última entrevista com Carl Gustav Jung

Carl Gustav Jung foi um dos psiquiatras e pensadores mais proeminentes da história. Em sua última entrevista, ele revelou algumas das chaves da sua perspectiva.
A última entrevista com Carl Gustav Jung

Última atualização: 16 Abril, 2021

A última entrevista com Carl Gustav Jung nos ajuda a entender a profundidade do seu olhar, a base das suas crenças e os meandros das suas teorias.

Jung foi um psiquiatra e psicólogo suíço nascido em 1875. Preocupações e divergências com a psicanálise o levaram a fundar a escola analítica. Foi aluno e colaborador de Sigmund Freud, de quem discordou ao fundar a sua escola. Ela foi fortemente influenciada por outros ramos do conhecimento, como a antropologia.

Em 7 de junho de 1960, Georg Gerster entrevistou Jung para um programa de rádio suíço por ocasião do seu 85º aniversário. Essa entrevista adquiriu uma especial relevância, pois a eminência suíça faleceu quase um ano depois, em 6 de junho de 1961.

Convidamos os leitores a mergulhar no universo desse autor peculiar e fascinante do século XX.

Uma visão peculiar de Deus

Jung e sua visão peculiar de Deus

Na entrevista, o autor expressa que os fenômenos religiosos não escapam a basicamente ninguém. As expressões mais simples em que a palavra Deus é usada têm um significado psicológico para quem a diz.

O desconhecido, o inexplicável ou o que nos transcende tem um significado especial a nível antropológico e psicológico.

“Observamos essas manifestações religiosas principalmente em momentos de emergência ou em circunstâncias muito emocionais."
-Carl Gustav Jung-

Os arquétipos

O conceito de arquétipo tem uma grande ligação com o de Deus. Para compreendê-lo, é necessário se desvincular do sentido eclesial que estes podem ter para as pessoas de acordo com a sua cultura ou religião. Jung vai além disso, ele fala de um sentido emocional muito mais antigo do que podemos imaginar.

Os arquétipos são, então, padrões de comportamento que se repetem ao longo da história, bem como a necessidade do homem de encontrar na fé as respostas ao inexplicável. Tudo isso parte de uma necessidade psicológica básica e inconsciente.

“Tal arquétipo, como a noção de um Deus ou um poder sobrenatural, aparece em situações altamente emocionais."
-Carl Gustav Jung-

Os momentos limitantes

Na entrevista, Jung fala sobre os momentos em que o homem é dominado pelas emoções. O medo e a incerteza são as mais comuns.

É nesses momentos que, espontaneamente e sem reflexão, o ser humano evoca “orações” que escapam à razão e se entregam ao desconhecido.

Os fenômenos relativos à alma na entrevista com Carl Gustav Jung

A entrevista com Carl Gustav Jung deixou reflexões importantes sobre a alma, uma vez que o autor falou dos fenômenos “religiosos" como fenômenos da alma. Estes, longe de serem tabus, fazem inevitavelmente parte da natureza humana.

Quando a alma nos resgata

Quando o homem está em uma emergência, o instinto vem ao seu auxílio. É assim que nos referimos às formas de ação, pensamento e sentimento que assumimos nessas situações. Para Jung, essas formas estão sempre lá e são evocadas automaticamente, como outros animais fariam.

Um fenômeno psíquico

Nesta entrevista, Jung revelou que os fenômenos da alma moldam a psique. Eles fazem parte de um sistema de modos de comportamento instintivos. Podemos encontrar vários exemplos na vida cotidiana:

  • Incerteza: quando desejamos fortemente algo ou não sabemos o que vai acontecer. Aqui, usamos desde rituais até pequenos amuletos, como levantar pisando com o pé direito ou vestir certas roupas.
  • Perigo: quando nos colocamos em uma posição defensiva e fazemos orações. As promessas que fazemos internamente são um exemplo claro disso.
  • Decisões: diante de uma escolha difícil de especial importância. Nossos desejos incondicionais muitas vezes aparecem em sonhos.

“De certa forma, os poderes inconscientes vêm nos ajudar quando nossa consciência está oprimida, subjugada."
-Carl Gustav Jung-

Os sonhos de acordo com Jung

Na entrevista com Carl Gustav Jung, podemos observar suas diferenças com seu professor, Freud.

Para Jung, os sonhos cumprem uma função mais complexa do que a mera satisfação do inconsciente. Em vez disso, eles podem ter um propósito orientador ou social, exigindo uma compreensão da cultura.

Uma troca produtiva com o inconsciente

Longe de apenas satisfazer desejos não realizados, os sonhos podem guiar a cura. Todo psicólogo encontra problemas que não consegue resolver. É aqui que o inconsciente do paciente pode se manifestar em sonhos e orientar a terapia. Surgem, por exemplo, sonhos lúcidos, de sentido transcendente, que o autor descreve em inúmeros exemplos de sociedades primitivas.

Um horizonte ilimitado

Na entrevista, Jung declarou que as pessoas muitas vezes sofrem por terem concepções muito tendenciosas e distorcidas. Na verdade, ele afirmou que uma visão extremamente cética pode levar ao abandono da esfera sentimental.

Nessas situações, o sofrimento surge da limitação da experiência e da pouca ou nenhuma atenção às questões da alma e dos sentimentos. Negar os sonhos é, para Jung, tentar silenciar a alma.

Um horizonte ilimitado

Entrevista com Carl Gustav Jung: uma visão crítica da cultura

Podemos dizer que Jung é uma referência em psicologia que se destaca por não ser determinista. Ao contrário dos seus predecessores e sucessores, não limita o estudo dos fenômenos humanos a uma única visão ou método. Além disso, o autor tem uma faceta crítica ao analisar a nossa cultura.

  • Falta de conexão com o inconsciente: a relação com o incompressível se tornou um tabu. Para Jung, a necessidade de se conectar com o desconhecido de maneiras espirituais havia se perdido.
  • Ruptura de uma tradição espiritual: o intelectualismo da época abandonou a espiritualidade. Hoje, ela é culpada pelas atrocidades que muitos fizeram em seu nome.

“Fomos muito persuadidos pela ciência da nulidade da vida humana."
-Carl Gustav Jung-

Um homem que não perdeu a esperança

A última entrevista com Carl Gustav Jung termina com uma análise da solução dos problemas colocados. Para o autor, é impossível mudar o curso das coisas, mas ele nutria esperança ao afirmar que o homem moderno pode viver experiências contemplativas questionando até onde vão as suas certezas.

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