Uma pessoa nasce ou se torna narcisista? Veja o que a ciência diz

07 Junho, 2020
Pesquisas recentes falam de um aumento dos perfis narcisistas. O efeito desse tipo de comportamento é, sem dúvida, muito prejudicial. No entanto, qual é a sua origem? O narcisista chega ao mundo assim ou a educação é o elemento diferencial?

Uma pessoa nasce ou se torna narcisista? Essa é uma pergunta que muitos se fazem com frequência dado o impacto que os narcisistas têm na nossa sociedade. Ainda assim, sabemos que o transtorno de personalidade narcisista afeta apenas 1% da população. No entanto, há subtipos e diferentes tipologias que definiriam um número muito maior de homens e mulheres. O que a ciência tem a dizer sobre o tema?

Um ar de superioridade, manipulação, baixa empatia, comportamentos de soberba, necessidade de ser admirado… A maioria de nós conhece em primeira mão essa constelação de características que marcam o perfil narcisista.

Chefes, companheiros de trabalho, amigos e até mesmo um parceiro amoroso… Conviver com um narcisista pode ser muito lesivo, e sobreviver a eles, tentar virar a página após ter sido lesado, envolve curar diferentes feridas.

O doutor Theodore Millon, pioneiro no estudo da personalidade, já afirmou há um tempo que esse tipo de comportamento poderia aumentar na nossa sociedade com o passar do tempo.

Ele também indicou que há narcisistas mais e menos lesivos, sendo os narcisistas pró-sociais os que mais se adaptam. Ao contrário, os antissociais seriam aqueles que mostram maior arrogância, agressividade, sendo assim um risco social para os demais.

Agora, por que o doutor Millon disse no seu livro Transtornos da personalidade da vida moderna que o número de narcisistas cresceria no futuro? É por uma questão genética? Ou talvez seja o ambiente que acaba criando esse tipo de comportamento danoso? Analisemos algumas questões a seguir.

Mulher gritando com colegas de trabalho

O narcisista segundo a ciência

Diante da pergunta uma pessoa nasce ou se torna narcisista, a ciência tem uma resposta bem clara: se torna. Há décadas suspeitava-se que a educação das crianças e o contexto social mediavam a aparição desse perfil. Não obstante, com o passar do tempo parece que estamos compreendendo um pouco mais que dinâmicas, situações e circunstâncias cumprem um papel importante no processo.

Para começar, ao longo do século XX, acreditava-se que um estilo parental deficitário, sem proximidade, sem apego e sem segurança, fazia com que a criança desenvolvesse sentimentos narcisistas. Foi a psicanálise que, de algum modo, nos fez acreditar que aquele que não recebeu amor na infância busca na idade adulta o reforço alheio e quer focar todos os olhares, afetos e admiração na sua própria pessoa.

Agora, o doutor Eddie Brummelmah e sua equipe da Universidade de Utrecht fizeram um interessante experimento científico em que demonstraram algo muito diferente. Não é a falta de amor parental que gera um comportamento narcisista, muito pelo contrário. A superproteção, o consentimento excessivo e a falta de limites fazem a criança acreditar que ela está acima de qualquer coisa.

Esse tipo de educação coloca a criança em um pedestal no qual ela assume que é um ser com direitos exclusivos, uma criatura privilegiada. E mais, essa pesquisa também demonstrou que já é possível medir e observar o comportamento narcisista em uma criança entre os 7 e 12 anos. Nesse instante, quando emerge o sentido do eu e a percepção de se conceber como um menino ou menina muito especial, a pessoa passa a acreditar que merece mais do que o resto.

O perigo da supervalorização parental

A maior parte da sociedade pensa que os narcisistas são um produto do ambiente. Nesse sentido, frequentemente surge a polêmica de colocar toda a responsabilidade sobre os ombros dos pais e mães dos narcisistas.

  • Há algum problema em fazer os filhos saberem que são amados? Que são especiais e que merecem o melhor? A resposta é não. De fato, educar nossos filhos por meio do afeto, do reforço constante e das melhores intenções gera bem-estar.
  • Agora, o problema está na supervalorização. Em fazer a criança acreditar que ela é melhor que todo mundo e merece mais coisas que todas as outras pessoas. Aí está o perigo.
  • Por outro lado, há também outro fator. Os próprios pais e mães podem apresentar traços e comportamentos narcisistas. As crianças acabarão imitando esses mesmos padrões, internalizando-os e tornando-os seus para o bem e para o mal.
Criança narcisista

Uma pessoa nasce ou se torna narcisista? Lembremos que a sociedade também educa

O psicólogo W. Keith Campbell escreveu um trabalho muito interessante intitulado The narcissism epidemic: living in the age of entitlement (A epidemia do narcisismo: vivendo na era do direito próprio). Algo que é bastante conveniente entender em primeiro lugar é que o narcisismo é, na verdade, um espectro. Haverá pessoas que apresentam apenas um traço narcisista e outras que terão todas as características e farão parte daquele 1% que define o transtorno narcisista de personalidade.

É importante entender que não só a família influencia, mas também a sociedade, que educa e nos molda. Nos últimos anos houve um crescimento do culto ao ‘eu’, da busca constante pelos likes para reforçar o ego e autoestima. Muitas dessas questões geram um campo fértil para criar narcisistas, com uma frequência que chega a ser alarmante.

Tenhamos claro que os narcisistas não são pessoas felizes. Eles não só geram sofrimento para os outros, mas são eternamente insatisfeitos, pessoas que se maltratam uma vez ou outra por causa da sua própria frustração.

Para concluir, diante da questão de se uma pessoa nasce assim ou se torna narcisista, a ciência e todos nós sabemos a resposta. Por isso, procuremos educar todas as novas gerações de maneira correta. A empatia, o respeito e o altruísmo serão sempre boas dimensões por onde começar.