O viés de publicação na construção do conhecimento científico

· abril 23, 2019
Por que o viés de publicação ocorre? Na literatura médica, acredita-se que o viés de publicação de resultados positivoos ocorra por causa dos revisores das revistas

Em estatística, entende-se como viés o erro sistemático que pode ser produzido nos resultados de estudos ou pesquisas. Quando acontece um viés, o que ocorre na verdade é a produção ou seleção de certas respostas em detrimento de outras (1). Curiosamente, esse viés acontece em uma grande parte das pesquisas, em maior ou menor medida. No entanto, como ocorre o viés de publicação?

A questão fundamental é conhecê-lo para assim evitá-lo, minimizá-lo ou então corrigi-lo (2). Os vieses podem ser produzidos em qualquer etapa do processo de pesquisa. Ou seja: no planejamento, na condução, na análise, na apresentação dos resultados, ou na posterior publicação destes (3).

Dessa forma, o viés de publicação é definido como a tendência a publicar pesquisas com resultados positivos – onde encontramos associações ou diferenças entre grupos – e a tendência a deixar de fazê-lo com aquelas pesquisas que mostram resultados negativos – onde não são encontradas associações, não são encontradas diferenças.

Essa questão se dá em relação à publicação de artigos e trabalhos por parte dos pesquisadores por alguns motivos, como uma pesquisa positiva ser muito mais lida pelos pares e também por ser mais facilmente publicada, de forma que o autor privilegia esse tipo de resultado na hora de enviar para um editor ou revista para ser publicado (4).

Gráficos e planilhas

Em meados do século passado, Sterling definiu o viés de publicação. Afirmou que os estudos que apresentam resultados estatisticamente significativos têm uma maior probabilidade de serem publicados. Pelo contrário, os estudos com resultados não significativos são menos publicados (5).

Dados sobre o viés de publicação

Como comentamos, um dos primeiros autores que chamou a atenção sobre o viés de publicação foi Sterling. Esse autor revisou todos os artigos publicados em 4 revistas durante um ano (1955 ou 1956). Dessa maneira, ele comprovou que 97% dos artigos que usavam o parâmetro estatístico da significância rechaçavam a hipótese nula (9).

Segundo os resultados das pesquisas sobre o tema, os estudos publicados referem-se àqueles não significativos em uma razão entre 128:1 e 1:1. A maioria dos estudos tem uma razão de citação entre 10:1 e 1:1 (7).

Fatores que causam o viés

Segundo a autora Maria Carmen Rosa Garrido, atualmente existem vários fatores que incidem sobre o viés de publicação (5):

  • Primeiro, a decisão dos autores de não publicar os resultados de seu estudo por não serem estatisticamente significativos.
  • A rejeição por parte dos editores das revistas de publicar um estudo com resultados negativos. E isso acontece mesmo tendo em conta a qualidade metodológica, ainda que seja suficiente para dar confiabilidade aos resultados.
  • A exclusão desse tipo de estudo das buscas bibliográficas de outros pesquisadores.

Eliminar ou prevenir o viés de publicação

Com o objetivo de prevenir e eliminar o viés de publicação, alguns autores (6) propõem:

  • Eliminação das provas estatísticas as partir de hipóteses
  • Uma revisão a priori por pares e a não publicação de estudos com tamanho de amostras inadequadas
  • Desenvolvimento de uma atitude mais positiva em relação aos resultados não significativos
  • Melhora dos processos de revisão e publicação por pares

A avaliação do viés

Já foram desenvolvidos diversos procedimentos estatísticos para avaliar se uma amostra de um determinado estudo está enviesada, ou também para avaliar o impacto de dito viés.

A maioria se baseia na suposição de que, para qualquer área em questão, os estudos com amostras pequenas devem produzir um alcance relativamente falho do tamanho de efeito, enquanto os estudos com amostras grandes devem produzir um dado de tamanho de efeito mais próximo do efeito real da população (6).

Análise de dados estatísticos

Os editores de revistas e o viés de publicação

Por que o viés de publicação acontece? Parece que, pelo menos no que diz respeito à literatura médica, acredita-se que o viés de publicação de resultados positivos tenha sua origem nos revisores das revistas (7).

Essa suspeita tem alguma base. Em 1980, a revista British Medical Journal indicou que seu artigo ideal descrevia “resultados que afetem a prática clínica… E descobertas que melhorem o prognóstico ou simplifiquem o tratamento de doenças comuns”. Dessa forma, faziam alusão ao viés de publicação, ainda que não intencionalmente.

A medida mais eficaz para prevenir o viés de publicação é o registro de todos os ensaios clínicos (7).  A prevenção pode ser, assim, a meta em direção à qual deveríamos avançar (7).

É importante entender a importância que esse viés tem na comunidade científica. Ao fazer uso de uma evidência enviesada, as decisões tomadas ao analisar os resultados de algumas pesquisas podem não ser as melhores (4). Isso poderia desencadear decisões de prescrição inadequadas que podem não ser as melhores para o paciente, e tampouco para a comunidade científica no geral.

  1. ASALE, R. (2018). sesgo, ga. Retrieved from https://dle.rae.es/?id=XipMgHq
  2. Bonita, R., Beaglehole, R., & Kjellström, T. (2008). Epidemiologia básica. OPS.
  3. Manterola, C., & Otzen, T. (2015). Los sesgos en investigación clínica. International Journal of Morphology, 33(3), 1156-1164.
  4. Gómez-Restrepo, C. (2008). Acerca del sesgo de publicación en literatura sobre antidepresivos. Revista Colombiana de Psiquiatría, 37(1), 8-10.
  5. Garrido, R., & ª Carmen, M. (2016). Sesgo de publicación:¿ existe también en estudios de metanálisis?. Index de Enfermería, 25(1-2), 7-8.
  6. Vevea, J. L., & Woods, C. M. (2005). Publication bias in research synthesis: sensitivity analysis using a priori weight functions. Psychological methods, 10(4), 428.
  7. Dickersin, K. (1994). Sobre la existencia y los factores de riesgo del sesgo de publicación.
  8. “The editor regrets . ..” [Editorial]. Br Med J 1980;280:508.
  9. Sterling, T. D. (1959). Publication decisions and their possible effects on inferences drawn from tests of significance—or vice versa. Journal of the American statistical association, 54(285), 30-34.