Violência filioparental: quando os pais são vítimas dos próprios filhos

Meu filho me humilha, não respeita a minha autoridade e às vezes me insulta quando não consegue o que quer. Sou vítima de violência pelo meu filho?
Violência filioparental: quando os pais são vítimas dos próprios filhos

Última atualização: 23 Dezembro, 2021

“Sinto medo e angústia, não sei o que fazer”. “O meu filho é o meu agressor? “. “O que eu fiz de errado?”. “Eu sou o culpado pelo que está acontecendo, não sabia como fazer melhor”. “Me sinto frustrado, sou um pai/ uma mãe ruim”. Esses são alguns dos testemunhos de pessoas que sofrem violência filioparental, um problema que afeta mais pessoas a cada ano. Neste artigo abordaremos do que ela se trata e como podemos evitar que ela aconteça.

Atualmente a violência está muito presente na nossa sociedade; existe um grande número de vítimas em diferentes contextos. Há mulheres vítimas de violência de gênero, crianças vítimas de bullying, trabalhadores vítimas de abuso no local de trabalho, além de inúmeros outros exemplos.

Em 2002, a Organização Mundial da Saúde (OMS) definiu a violência como “qualquer ato ou omissão intencional que, dirigida a uma pessoa, tende a causar danos físicos, psicológicos, sexuais ou econômicos”. Nesse sentido, o conceito de violência abrange diferentes áreas, incluindo a familiar. Neste artigo discutiremos um tipo específico de violência, que é exercida pelos filhos sobre os pais e é praticamente invisível. Esse é o conceito da violência filioparental.

O que é a violência filioparental?

Pereira (2006) define violência filioparental como “comportamentos repetidos de violência física (agressões, empurrões, espancamentos), verbal (insultos, ameaças) ou não verbal (gestos ameaçadores, objetos quebrados) dirigidos aos pais ou aos adultos que atuam como responsáveis”.

A violência filioparental (abreviada como VFP) se refere à violência ou ameaça de abuso de um filho contra seu pai e/ou sua mãe, com o intuito de diminuir a autoridade destes. Desta forma, o filho apresenta comportamentos abusivos, agressivos e intimidadores, incluindo atos de violência física e táticas de chantagem emocional. Também estão incluídas ameaças de automutilação, quando usadas como forma de exercer poder e controle sobre os pais.

“A violência filioparental é definida como os atos cometidos por um filho ou filha para causar intencionalmente danos físicos, psicológicos ou econômicos, ou para obter controle e poder sobre os pais”.
-Cottrell-

Como se comporta a criança que ataca?

  • Insulta e humilha os pais continuamente.
  • Sente pouca empatia pelos pais.
  • É impulsiva, com baixa tolerância à frustração.
  • Se irrita constantemente e possui dificuldades em controlar a raiva.
  • Bate em objetos quando está nervosa.
  • Às vezes agride fisicamente os pais (empurrando, batendo, chutando).
  • Exige e impõe regras na casa.
  • Recorre a ameaças e chantagens para conseguir o que deseja.

Como se comporta um pai e/ou mãe vítima de VFP?

  • Evitam situações que incomodam o filho.
  • Se sentem envergonhados em reconhecer o problema para os outros e frustração pela situação que estão vivendo.
  • Os comportamentos da criança os deixam intimidados ou amedrontados.
  • Se sentem frustrados e confusos, não sabendo como agir.
  • Se sentem ameaçados e compelidos a dar ao filho o que ele deseja.

Prevenção da violência filioparental

Estilo educacional

Pesquisas recentes relacionam um estilo parental excessivamente permissivo como fator de risco para VFP (Coogan, 2012; Garrido, 2005; Tew & Nixon, 2010). O estilo parental permissivo se refere à ausência de normas e regras, no qual os pais não assumem seu papel de educadores, de forma que eles não são percebidos como figuras de autoridade a serem respeitadas, fazendo com que a criança pense que pode fazer tudo o que deseja sem nenhum tipo de limite.

É fundamental ter em mente que o “NÃO” de hoje é o “OBRIGADO” de amanhã.

Portanto, segundo os estilos parentais de Baumrind, o estilo educacional mais saudável é o democrático. Os pais democráticos são firmes e estabelecem limites claros, mas também levam em consideração o ponto de vista dos filhos e demonstram carinho e afeto. Eles explicam as consequências negativas das atitudes indesejadas e reforçam o comportamento dos filhos de forma positiva quando eles agem da forma desejada.

Nesse estilo parental filhos e pais expressam o que sentem e as próprias emoções, ao mesmo tempo que estabelecem limites claros do que é certo e errado, além das respectivas consequências. Em suma, o estilo democrático é caracterizado pela comunicação adequada aliada a disciplina correta, além de um ambiente em que prevalecem a confiança e a compreensão.

Resolução de conflitos

Geralmente o conflito é percebido como algo negativo que deve ser evitado, sendo entendido como sinônimo de confronto. É fundamental mudar a forma de perceber os conflitos e aprender a vê-los como uma situação em que se torna visível uma diferença que temos de solucionar para chegar a uma situação em que as duas partes envolvidas se beneficiem.

Nesse sentido, a fórmula usada para solucionar os conflitos com os filhos nos ajudará como pais. As crianças são esponjas que absorvem tudo, de forma que, dependendo de como resolvemos um problema, elas aprenderão a agir da mesma forma. Por isso é fundamental usarmos da negociação em situações de conflito, ou seja, chegar a um acordo sem vencedores ou perdedores, sem usar a autoridade como o único argumento mas sim levando em consideração as necessidades e emoções dos filhos.

“Quando duas pessoas se enfrentam é fundamental chegar a um acordo para não perpetuar o conflito, de forma a purificar a relação”.
-Roger Fisher e William L. Ury-

Fatores individuais dos pais

A violência exercida pelos filhos causa nos pais uma perda de autoridade, autoestima e gera uma frustração em relação às aspirações deles enquanto educadores. Segundo a pesquisa de Molla-Esparza e Aroca-Montolío (2018), quanto maior o nível de frustração e confusão por parte dos pais, maior o risco de perpetuar o ciclo da violência, uma vez que essas emoções os levam a ceder perante os filhos com mais facilidade.

Esse é um dos motivos pelos quais é fundamental que a autoestima não seja afetada pelo comportamento dos filhos, e que a frustração não domine a situação a ponto de que os pais cedam a tudo o que os filhos desejam.

Fator social e de trabalho

Atualmente o trabalho ocupa grande parte do nosso dia. Por isso, o número de horas de contato com os filhos diminui. Os pais chegam em casa cansados ​​e no pouco tempo que passam com os filhos procuram evitar, na medida do possível, situações de tensão e angústia. Desta forma, ficar pouco tempo em casa faz com que as situações geradoras de frustração sejam evitadas, deixando-as passar sem dar importância e gerando um estilo educativo permissivo, como explicamos anteriormente.

Em relação ao fator social, um estudo do CSIF indica que, atualmente, os jovens têm acesso a todo tipo de conteúdo violento nas redes sociais e na internet, fator fundamental que influencia na manutenção das dinâmicas de violência. Esse fato, aliado à falta de autoridade e ao pouco reconhecimento dado aos professores no ambiente escolar, faz com que a transmissão de valores seja afetada negativamente. Por isso, os jovens acabam não conseguindo identificar a diferença entre o que é certo ou errado.

Ajuda Profissional

Para concluir, as estratégias de prevenção e intervenção dos profissionais são necessárias para quebrar a dinâmica da violência. É importante destacar que, em países como a Espanha, existe uma Sociedade Espanhola para o Estudo da Violência Filioparental (Sevifip), cujo objetivo é promover o estudo, ensino, pesquisa, regulação deontológica e intervenção da Violência Filioparental.

Esta sociedade (Sevifip) destaca a importância de buscar ajuda profissional para administrar essa situação e, se possível, procurar um especialista no momento em que o primeiro sintoma deste tipo de dinâmica seja identificado. Lembre-se de que você não está sozinho, e de que existem instituições dedicadas a ajudar as pessoas que se encontram nessa situação. 

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  • Pereira, R. (2006). Violencia filio-parental: un fenómeno emergente. Revista Mosaico, 36, 27-32.
  • Pereira, R. y Bertino, L. (2009). Una comprensión ecológica de la violencia filio-parental. Redes, 21, 69-90.
  • Pereira, R., Bertino, L. Romero, J.C. y Llorente, M.L. (2006). Protocolo de intervención en violencia filioparental. Revista Mosaico, 36, 1-11.