A falsa paz da zona de conforto

29 Julho, 2020
A falsa paz da zona de conforto tem a ver com o autoengano. Pensamos que, se não nos expusermos ao novo e/ou ao incerto, nos sentiremos mais calmos. Na verdade, ao não fazermos isso, acabamos superdimensionando os nossos medos.

É chamado de zona de conforto todo aquele conjunto de circunstâncias às quais nos adaptamos passivamente e que, portanto, exercem um grau mínimo de exigência sobre nós. Embora aparentemente isso nos dê tranquilidade, o que a zona de conforto proporciona é uma falsa paz, porque a vida é dinâmica e, mais cedo ou mais tarde, teremos que enfrentar as mudanças, mesmo que resistamos a elas.

O mais problemático é que a zona de conforto não é um espaço para desenvolver a capacidade de se adaptar ao novo. Muito pelo contrário. Quanto mais repetimos as rotinas e nos movimentamos apenas em terrenos conhecidos, mais difícil será visualizar e abordar as variações.

É por isso que se diz que a zona de conforto gera uma falsa paz. Não é a tranquilidade de quem confia em si mesmo, mas a de alguém que tem a fantasia de estar controlando tudo. Ao sair dessa zona de conforto, a suposta paz desaparece e se transforma em insegurança e angústia. A tranquilidade nesse caso não depende da pessoa, mas da estabilidade das circunstâncias, por isso é tão frágil.

A única possibilidade de descobrir os limites do possível é se aventurar um pouco além deles, em direção ao impossível“.
-Arthur Clarke-

A falsa paz da zona de conforto

A zona de conforto e o medo

Um dos aspectos mais preocupantes da zona de conforto é que ela é construída em função do medo. O que a pessoa que se instala no contexto das circunstâncias que lhe são familiares busca é, principalmente, sentir segurança. Ela quer reduzir ao mínimo a incerteza e, portanto, demarca um território subjetivo e não sai de lá.

A zona de conforto é configurada a partir do medo. Assim, o objetivo de não sair de lá também é ditado pelo medo. Qualquer coisa que não esteja dentro desse território conhecido é sentida como uma ameaça. O novo, o diferente e o desconhecido são tratados como ameaças. A falsa paz que você experimenta termina quando surge algum imprevisto.

Devido a essa presença latente do medo, muitos pensam que a zona de conforto é, na verdade, uma zona de perigo. E realmente é uma zona de perigo, pois quem se instala ali se torna progressivamente vulnerável, pois a sua segurança e tranquilidade dependem exclusivamente de fatores externos, que podem mudar a qualquer momento.

A falsa paz da zona de conforto custa caro

Além de todos os itens acima, aqueles que permanecem na sua zona de conforto nem ao menos se sentem completamente tranquilos por estarem ali, mesmo que não haja mudanças. Eles são tão dependentes de certas circunstâncias que não é incomum que vivenciem episódios de muita ansiedade e falsas crenças. Embora não corram riscos, eles fantasiam sobre os possíveis problemas que podem ocorrer. Isso causa angústia e acaba com a falsa paz que supostamente deveria prevalecer.

Um preço alto também é pago quando alguém se recusa a atravessar a barreira da zona de conforto. O exemplo mais comum é o do funcionário que odeia o emprego, mas que não o abandona por nada nesse mundo. Certamente, não é reconfortante viver fazendo algo que você não gosta. No entanto, em alguns casos, o medo de enfrentar algo novo e incerto é maior.

Quem se mantém na zona de conforto não está mais tranquilo nem mais feliz. O que eles fazem é criar um esconderijo para lidar com o medo. Com isso, eles não resolvem suas inseguranças; pelo contrário, maximizam a sua intensidade.

A única maneira de superar os medos

A única maneira de superar os medos é enfrentá-los. Todos sabemos disso, mesmo que às vezes tentemos ignorar esse fato. Encarar o medo não é agradável, pelo menos no começo. É algo que nos leva aos nossos próprios limites e que, a princípio, gera sensações que não são nada agradáveis. Sentimos o medo, por um momento, na sua maior intensidade.

A única maneira de superar os medos

No fundo, permanecer na zona de conforto é uma maneira de declarar que nos sentimos incapazes de muitas coisas. É verdade que há muitas coisas que não somos capazes de fazer, porque a realidade nos impõe limites. Não somos capazes de ser imortais ou de prevenir situações que nos causem dor. No entanto, podemos encontrar o caminho para recuperar o equilíbrio.

Quando conseguimos confiar em nós mesmos de uma maneira razoável, os medos retornam à sua verdadeira dimensão. Há também um sentimento de tranquilidade que não se compara a essa falsa paz da zona de conforto, mas a uma melhor expectativa do nosso próprio desempenho. É preciso ter essa confiança para deixar a nossa vida do jeito que queremos, em vez de reduzi-la a um cantinho que nos protege, mas que também nos aprisiona.

  • Forés Miravalles, A., Sánchez i Valero, J. A., & Sancho Gil, J. M. (2014). Salir de la zona de confort. Dilemas y desafíos en el EEES. Tendencias pedagógicas.