Os abraços deixam uma marca em nossos genes

Os abraços deixam uma marca em nossos genes. Este gesto de afeto sincero não só nutre o nosso coração e atua como um remédio para a alma, mas também imprime na nossa epigenética, favorecendo o bem-estar psicológico...
Os abraços deixam uma marca em nossos genes
Valeria Sabater

Escrito e verificado por a psicóloga Valeria Sabater em 15 Novembro, 2021.

Última atualização: 15 Novembro, 2021

Os abraços deixam uma marca em nossos genes. A ciência acaba de nos mostrar algo maravilhoso: o contato físico, o conforto dos bebês com a nossa pele, com nossas carícias e afetos constantes deixa uma marca em seus cérebros. Essa impressão digital molecular é impressa em seus genes como tinta inapagável, mediando assim sua personalidade e seu sistema imunológico e metabólico.

Os seres humanos precisam do contato de seus entes queridos para atingir seu pleno potencial. É claro que ninguém morre por falta de afeto, que o fato de não ser tocado com amor não fará com que percamos a vida de um dia para o outro. No entanto, e dito de alguma forma, vamos murchar, vamos sofrer daquela fome de validação e de nutrientes com os quais nos sentimos mais seguros e realizados como pessoas.

Corpo, mente e pele compartilham uma conexão que vai além de nossos centros neuronais ou receptores sensoriais. São aqueles cenários em que marcadores biológicos como a ocitocina orquestram processos básicos e essenciais. Assim, embora se diga frequentemente que o abraço é o remédio para a alma, na verdade poderíamos ir mais longe ao afirmar que tocar e ser tocado melhora a nossa epigenética.

São marcas de amor que uma geração pode deixar na outra. Uma declaração dessa profundidade pode despertar nosso ceticismo. À sua frente, existem estudos que a sustentam além dos ditames da intuição. É uma evidência que nos convida à reflexão, gerando a necessidade de estabelecer aquela base onde assumir que o afeto constante no recém-nascido irá mediar a sua capacidade de cuidar dos que o rodeiam.

“Se você encontrar essa pessoa, alguém que possa abraçar e com quem possa fechar os olhos para tudo o mais, você pode se considerar muito sortudo. Mesmo que dure apenas um minuto, ou um dia”.
-Patrick Rothfuss-

Pai com filha bebê

Os abraços marcam nossos genes, e também a falta deles

Existe uma realidade tão dramática quanto triste, da qual nem sempre se fala. Nos referimos a crianças que crescem em orfanatos. Os especialistas em desenvolvimento infantil sabem que, nos países mais desfavorecidos, existem locais onde os bebês não emitem nenhum som. Essas salas de silêncio revelam a reação de algumas crianças que aprenderam desde cedo que chorar não vai ajudá-las.

Nesses mundos subterrâneos ninguém vem para confortá-los, para mantê-los em seus braços, para alimentá-los com aquele carinho onde eles podem aliviar os medos e atender às necessidades emocionais. Algo assim acaba impactando suas vidas inevitavelmente. Estudos, como o realizado na Universidade de Wisconsin pelo psicopatologista Seth Pollak, mostram que seu desenvolvimento cognitivo apresentará deficiências, que ficarão mais vulneráveis ​​ao estresse e à ansiedade, afetando indireta e negativamente o sistema imunológico.

Crescer com abraços ou crescer com a falta desse contato físico afeta a nós como seres humanos. A chave para tudo isso está em nosso DNA e no mecanismo marcante que constitui o que é chamado de ‘epigenética’. Vamos aprender mais sobre isso a seguir.

Como eles deixam uma marca em nossos genes?

Foi na revista científica Development and Psychopathology que foi publicado um estudo realizado pela Universidade de British Columbia, no Canadá. Nele, a Dra. Sarah Moore falou pela primeira vez sobre um fato fascinante. A quantidade de contato próximo, afeto reconfortante, abraços, toques e palavras que os bebês recebem não os ajuda apenas a se sentirem seguros e amados:

  • Os abraços deixam uma marca em nossos genes e o fazem por causa das mudanças moleculares geradas pelo contato físico.
  • O toque afeta o epigenoma. Ou seja, o fato de receber carinhos, abraços e contato constante nos primeiros meses de vida induz alterações químicas em nossas proteínas e DNA.
  • Tudo isso se reverte no comportamento subsequente da criança: menos choro, melhor nutrição, melhor comportamento, melhor desenvolvimento motor e psicológico…
  • Além disso, há um fato muito surpreendente. Foi visto que essas mudanças iniciais no epigenoma alteram a estrutura da cromatina, produzindo, assim, mudanças no próprio genoma. O que significa isso? Basicamente, que as condições ambientais em que crescemos também afetarão a nossa prole.

A importância do afeto

E quanto aos adultos? Como os abraços nos beneficiam?

Os abraços que recebemos nos primeiros meses consolidam uma marca profunda em nós. Tanto é que essa cota de mimos, carinhos, carícias e contato pele a pele não determina apenas o bom desenvolvimento neurológico de um bebê.

Além disso, aquela manifestação precoce de amor sincero se reverte até mesmo nas gerações posteriores, algo que, de alguma forma, já havíamos comprovado com estados de fome. Ou seja, os traumas vividos por uma geração podem passar para a próxima, como pôde ser constatado em um estudo realizado pela equipe do Dr. Torsten Santavirta, da Universidade de Uppsala, onde foram avaliados os efeitos da Segunda Guerra Mundial em várias famílias.

Agora, o que acontece na idade adulta? Talvez os abraços tenham o mesmo efeito? Os abraços na maturidade continuam a se reverter de forma muito saudável em nosso cérebro. O gatilho para esse bem-estar, capaz de aliviar o estresse e a ansiedade, está em um neurotransmissor que também atua como hormônio: a ocitocina.

Todos nós precisamos tocar e ser tocados. Nossa pele, seja qual for nossa idade, precisa daquela linguagem que, em muitos casos, está acima das palavras. As carícias e os abraços agem como aquela seiva que nutre nossas raízes para entrelaçar laços, extinguir incertezas e construir ambientes mais felizes onde possamos nos desenvolver como pessoas.

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  • Moore, SR, McEwen, LM, Quirt, J., Morin, A., Mah, S.M., Barr, RG, Kobor, M.S. (2017). Correlatos epigenéticos del contacto neonatal en humanos. Desarrollo y psicopatología , 29 (5), 1517-1538. https://doi.org/10.1017/S0954579417001213