O cérebro pode ressuscitar sem o corpo?

O cérebro pode ter vida própria após a atividade do corpo parar? A neurocientista Raquel Marín fala sobre duas pesquisas que nos convidam a refletir sobre o assunto.
O cérebro pode ressuscitar sem o corpo?

Última atualização: 19 maio, 2020

O cérebro não pode ser transplantado, ou pelo menos ainda não. Ele é o “centro de operações” do nosso organismo, e é a partir dele que surgem muitas das funções conscientes e inconscientes que realizamos. No entanto, estudos recentes começaram a questionar se o cérebro pode ter vida própria após a atividade do corpo parar. Afinal, o cérebro pode ressuscitar?

Conexões cerebrais

Os neurônios permanecem vivos por um certo tempo após a morte

Uma pesquisa realizada por laboratórios de Berlim e diversos centros dos Estados Unidos estudou a atividade dos neurônios de pessoas com danos irreversíveis no cérebro e daquelas que tiveram a respiração assistida interrompida alguns momentos antes.

Em outras palavras, eram pessoas que estavam clinicamente mortas. Os cientistas observaram que, como era de se esperar, os neurônios pararam de funcionar por falta de oxigênio.

No entanto, o surpreendente foi observar que mesmo sem oxigênio, os neurônios mantiveram uma certa atividade (denominada despolarização dispersal) que se prolongou durante um tempo similar sem causar danos irreversíveis aos neurônios. Posteriormente, entravam em uma situação crítica na qual os danos se tornaram irreversíveis.

Isso indica que os neurônios mantêm uma sobrevivência mesmo na ausência de oxigênio durante um lapso de tempo bastante elevado, apesar dos registros do eletroencefalograma não darem sinais de atividade cerebral e do coração estar parado para sempre.

Esta informação nos convida a refletir sobre os limites da vida após a morte.

O cérebro pode ressuscitar fora do corpo?

Uma nova pesquisa publicada pela revista Nature conseguiu manter vivos os cérebros de porcos fora do seu corpo. Os pesquisadores retiraram e isolaram os cérebros de porcos que haviam sido sacrificados e, após quatro horas fora do corpo, os colocaram em um sistema que permitia manter os nutrientes e o oxigênio por meio dos vasos sanguíneos cerebrais.

Seis horas após essa ação, observaram que os neurônios recuperaram suas funções metabólicas, consumiram açúcar, e o sistema imunológico começou a trabalhar novamente.

Mais tarde, conseguiram inclusive estimular eletricamente os neurônios e eles recuperaram sua capacidade de comunicação entre si.

Seria possível ressuscitar o cérebro após uma parada cardiorrespiratória e, indiretamente, recuperar a atividade corporal? Poderíamos estar prestes a conseguir viabilizar, no futuro, os transplantes de cérebro?

Um aspecto fascinante foi observar que o comportamento dos neurônios no cérebro não era simultâneo. Isso seria indicativo de que os neurônios agiam de forma autônoma com independência dos estímulos seletivos, ou seja, da recuperação de uma certa “consciência”.

Imagem do cérebro humano

O debate ético está aberto

Os pesquisadores encerraram a atividade dos cérebros ao completar seis horas por questões éticas. Sua intenção não era obter a ressurreição da consciência, e sim conseguir um modelo de estudo complexo sobre o qual poderiam analisar os efeitos de fármacos e outros tratamentos na atividade cerebral.

No entanto, estes acontecimentos iniciaram um debate sobre onde começa a consciência além da morte do indivíduo. Na maioria dos países, uma pessoa é considerada legalmente morta quando sua atividade cardíaca e dos pulmões cessa.

O cérebro precisa de uma quantidade considerável de oxigênio, sangue e energia, por isso sua ressurreição é considerada inviável até o momento.

Seria possível ressuscitar o cérebro após uma parada cardiorrespiratória e recuperar indiretamente a atividade corporal? Existem mais possibilidades para descobrir como realizar transplantes de cérebro no futuro? Estas fascinantes perguntas estão, agora, abertas ao debate…


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