Coesão grupal: a relação entre coesão e rendimento

novembro 16, 2019
A coesão grupal é um dos elementos mais importantes para entender como se forma um grupo, como ele influencia os seus membros e as consequências desse pertencimento em diferentes variáveis, como o rendimento. Assim, neste artigo apresentamos estudos, como o paradigma do grupo mínimo, para explicar o que é a coesão, o que a motiva e como ela se relaciona com o rendimento total do grupo.

São muitos os elementos que caracterizam a estrutura de um grupo, desde a ordem e a distribuição hierárquica até as relações de poder, influência, prestígio e diferenciação. Embora a maior parte das pessoas saibam disso, a verdade é que o funcionamento do grupo é baseado na distribuição e configuração de certos elementos, como os papéis, as normas e a coesão grupal, cujo papel é mais encoberto, mas que é considerada o “molho” que transforma um mero aglomerado de pessoas em um grupo.

Assim, as pessoas podem se unir, formar um aglomerado de pessoas e se intitular um grupo. Isso, no entanto, não as transforma em um grupo, visto que para isso é necessário ter uma identidade compartilhada, uma estrutura e uma interdependência.

Com base nessas variáveis, a coesão grupal será diferente. Portanto, a coesão é a “cola” do grupo. Existem vários tipos de coesão que podem aparecer em um grupo:

  • Coesão por atração pessoal: essa coesão se baseia na característica de interdependência, definida como a força que mantém unidos os membros do grupo por causa do interesse e da atração recíprocos dos seus integrantes. Essa coesão pode se dar entre amigos de escola, por exemplo.
  • Coesão por metas: esse tipo de coesão é fundamentado na ideia de querer permanecer em um grupo devido à sua capacidade de facilitar a conquista de objetivos. Esses objetivos costumam ser considerados difíceis de conquistar estando fora do grupo. Nesse caso, as pessoas permanecem no grupo enquanto existem determinadas tarefas e interesses. Essa coesão pode existir em ambientes de trabalho, por exemplo.
  • Coesão por atração grupal: em outros grupos, a coesão pode se basear em quanto as atividades realizadas por esse grupo parecem ser interessantes ou atrativas. Nesse caso, não importa a familiaridade que se tenha com o grupo ou as metas que possam ser conquistadas com ele. Existe coesão porque as pessoas gostam da organização do grupo, do seu trabalho… e querem permanecer por causa disso. Essa coesão pode aparecer em empresas de que gostamos, para além das metas ou dos objetivos pessoais, em ONGs… etc.
Grupo de trabalho unido

Os paradigmas da coesão grupal

Sendo o mundo um lugar muito globalizado, com grandes empresas se desenvolvendo a passos de gigante, o certo é que às vezes alguns elementos importantes da psicologia individual e grupal se perdem em favor de benefícios maiores.

A empresa e seus dirigentes buscam o maior rendimento possível de seus trabalhadores, mas às vezes o fazem por meio de ferramentas ou em cenários que não funcionam, em que não se termina de aperfeiçoar ou incorporar os elementos que devem ser potencializados. Esse poderia ser o caso da coesão grupal.

A pressa e a má organização podem contribuir para que um aglomerado de pessoas trabalhe de forma conjunta até obter os melhores resultados.

Embora seja possível oferecer incentivos para que seja assim, parece uma solução acertada estudar a relação existente entre coesão grupal e rendimento para saber se essa variável independente modificaria a dependente.

Para isso, vamos falar da coesão grupal a partir da interdependência, da identidade compartilhada e da estrutura.

Existem paradigmas que dão forma à ideia de coesão grupal, conseguindo explicá-la por meio de experimentos que podem nos ajudar a concluir que a coesão é muito relevante para prever o comportamento e, portanto, o rendimento das pessoas.

O paradigma do grupo mínimo: a identidade compartilhada

No paradigma do grupo mínimo (Tajfel et al., 1971), foi feita a seguinte pergunta:

Qual é a condição mínima para que um grupo de indivíduos isolados se considere um grupo?

Os participantes foram divididos em dois grupos – o grupo Klee e o grupo Kandinsky – sem que se conhecessem previamente. O experimento queria observar se as pessoas, apesar de não se conhecerem, favoreceriam os membros desse grupo simplesmente por terem sido colocadas no mesmo grupo, por terem ativado sua identidade social, sua identidade dentro do grupo.

A resposta foi afirmativa. 77% das pessoas escolheram a opção que beneficiava seu grupo em oposição ao outro. 15% agiram com equidade. No entanto, observou-se como a tendência geral era a de favorecer sistematicamente as pessoas do grupo, independentemente de o outro ser prejudicado.

Por meio do paradigma do grupo mínimo, explica-se a coesão a partir da categoria social. Nesse sentido, o fato de que várias pessoas que pertencem a um conjunto se vejam como parte deste já parece ser um elemento suficientemente diferenciador para que um grupo seja formado.

Teoria da identidade social: o autoconceito como regulador de tudo

Tajfel voltou a estudar a coesão grupal a partir da análise desempenhada por outra variável importante dentro da psicologia pessoal: o autoconceito. O autoconceito se define pelo significado que temos de nós mesmos. Esse autoconceito pessoal tem duas vertentes:

  • A identidade pessoal: parte do autoconceito que deriva dos significados e das emoções, da experiência pessoal emocional e dos aspectos mais íntimos de cada um.
  • A identidade social: relaciona-se com a parte do nosso autoconceito que deriva do pertencimento a grupos sociais, junto com o significado valorativo e o significado emocional associados a ele. Entendido de outra forma, alguns aspectos da imagem ou do significado que as pessoas têm de si mesmas provêm de seu pertencimento a certos grupos ou categorias sociais.

Sendo uma necessidade básica manter uma identidade social o mais positiva possível, o pertencimento grupal também é definido pela busca de aspectos positivos para a nossa identidade.

Os aspectos do grupo que contribuem para ter uma identidade adequada não são positivos nem negativos em si mesmos, mas podem ser em comparação com os atributos de outros grupos.

Nessa teoria, a coesão grupal emanaria da necessidade de manter o autoconceito e de saber que o grupo nutre esse autoconceito de forma positiva.

Trabalho em equipe

A relação entre coesão e rendimento grupal

A partir dos estudos e experimentos realizados pela psicologia social, e sabendo o porquê da existência da coesão grupal em certos grupos, podemos chegar a algumas conclusões sobre a relação entre coesão e rendimento grupal.

De acordo com o modelo de satisfação de necessidades, a coesão grupal não é anterior ao rendimento no trabalho realizado pelo grupo. Na verdade, parece funcionar ao contrário. O rendimento favorece a coesão.

Se um partido político ganhas as eleições em um país, é provável que aumente a coesão nesse grupo a partir dos bons resultados.

Existe, portanto, uma relação entre ambos?

Os dados sugerem as seguintes conclusões:

  • Há uma relação significativa entre coesão e rendimento ou produtividade.
  • Tal relação se dá especialmente em grupos naturais ou em grupos pequenos.
  • Os grupos que requerem um alto nível de interação para realizar uma execução eficaz não são aqueles que mostram uma maior relação entre coesão e execução.
  • O compromisso com a tarefa é o componente que melhor explica a relação entre coesão e produtividade. A atração interpessoal e a atração pelo grupo desempenham um papel mais secundário.
  • A direção do efeito é maior partindo do rendimento para a coesão do que ao contrário – como foi explicado anteriormente.

A coesão grupal se encontra na base de fenômenos grupais, tais como a interação, as normas, a pressão, a conformidade, a identidade grupal, o pensamento grupal, o rendimento, poder e liderança ou a atmosfera grupal.

Quanto maior a coesão, parece que maior é a pressão ou a influência do grupo sobre seus membros, tanto nos aspectos socioemocionais quanto naqueles relativos às tarefas.

Por outro lado, a atração que dá lugar à coesão, e depois à capacidade de influenciar, pode ser uma atração alimentada pelas características pessoais dos membros, pelos objetivos ou pelas tarefas grupais.