Como o nojo é processado no cérebro?

março 14, 2020
Muito se fala sobre como a felicidade, a tristeza e o medo se desenvolvem, mas o que acontece com o nojo? Esta emoção tão básica e esquecida nos ajudou a sobreviver ao longo dos anos. Falaremos sobre como ela é processada no cérebro a seguir.

O nojo é uma das emoções básicas e nos ajudou a sobreviver ao longo da nossa evolução. Embora tenha sido relativamente esquecido pela psicologia, já dispomos de informação suficiente a respeito de como o nojo é processado no cérebro: uma sensação de forte desagrado em relação a algumas substâncias ou objetos, que provoca em nós a necessidade de expulsá-los, afastá-los ou rejeitá-los.

Esta emoção é considerada universalmente como uma das seis emoções básicas, identificadas em todas as culturas e pessoas com limitações sensoriais. Ela tem uma expressão facial característica: elevação do lábio superior, franzimento do cenho e descenso dos ângulos da boca.

Além disso, é acompanhada por uma diminuição da tensão, redução da resposta galvânica da pele, náusea, queda da frequência cardíaca, sentimento de aversão, distanciamento do objeto, alterações respiratórias e vocalizações características (por exemplo, “ughh!”).

Mulher sentindo nojo

Natureza do nojo

É importante levar em conta que o cérebro foi modelado pela nossa experiência – como espécie e como indivíduos. Assim, antes de ter um sistema imunológico desenvolvido, contávamos com uma espécie de sistema imunológico comportamental.

Este sistema mais básico atuava como uma barreira que nos protegia do contato com parasitas e outros danos potenciais para o nosso organismo.

A vantagem que o nojo nos deu foi principalmente a possibilidade de evitar doenças. Assim, embora existam diferenças culturais em relação ao que é o nojo, os principais gatilhos desta emoção são:

  • Secreções e partes do corpo: fezes, saliva, sangue, feridas, vômito, pés, etc.
  • Comida podre.
  • Alguns seres vivos, como insetos, minhocas, aranhas…
  • Algumas características de pessoas desconhecidas ou diferentes.
  • Violações de normas sociais ou morais.

Embora seja uma emoção de caráter inato, é preciso levar em conta que alguns aspectos do nojo são aprendidos, decorrentes de diferenças culturais ou do desenvolvimento. As crianças não parecem sentir nojo até completarem dois anos, por exemplo.

No entanto, isso poderia ser explicado pelo fato de que, até esta idade, elas estão sob os cuidados de seus pais, especialmente porque a nossa espécie nasce bastante imatura e vulnerável. Assim, por observação do comportamento dos pais, a criança começa a desenvolver esta emoção.

O nojo no cérebro

Para saber como o nojo é processado no cérebro, é preciso levar em conta duas regiões principais: a ínsula e o sistema límbico (amígdala e hipocampo).

  • A ínsula recebe informação das vias sensoriais e envia informação ou estímulos a outras estruturas, como o sistema límbico, o corpo estriado e o córtex orbitofrontal. Esta região parece ser a encarregada de experimentar o nojo, bem como de reconhecer expressões de novo em outras pessoas. Pessoas com doença de Hungtington, que afeta a ínsula, apresentam alterações nesta emoção. Além disso, a estimulação da ínsula provoca náusea.
  • O sistema límbico, e especificamente a amígdala, está relacionado com o processamento emocional negativo, como o medo e o nojo, e com a aprendizagem. Recentemente, um grupo formado por membros da Universidade de Granada e da Universidade Autônoma da Baja Califórnia identificou a região específica da amígdala que provoca a rejeição a sabores desagradáveis.

Como o nojo é processado no cérebro?

Até agora, os estudos científicos haviam relacionado o nojo com determinadas áreas cerebrais, capturando imagens de regiões implicadas na manifestação desta emoção. Agora, graças a novas tecnologias como a ressonância magnética funcional, é possível observar como o nojo é processado no cérebro de uma forma dinâmica.

É isso que um grupo de pesquisadores da Catalunha, Espanha, fez há um ano. No estudo em questão, 30 pessoas fizeram uma ressonância magnética, durante a qual foram apresentados seis minutos de vídeos de alimentos deliciosos, seguidos por seis minutos de alimentos e outros objetos desagradáveis (baratas ou homens comendo minhocas, entre outros).

Os resultados mostraram que, mesmo 40 segundos depois de ter observado as imagens desagradáveis, o cérebro continuava processando esta emoção. Além disso, as imagens cerebrais demonstraram que, diante de uma cena ou objeto asqueroso, não se ativa apenas uma parte do cérebro entre as que indicamos anteriormente, mas se ativa quase metade do cérebro.

Quanto ao processamento, os cientistas explicaram que existem três fases:

  • Surge o estímulo e o cérebro começa a ativar mecanismos de defesa e proteção, sem que a pessoa seja consciente dos mesmos.
  • Tem início uma segunda fase de alerta consciente, na qual a pessoa começa a avaliar o estímulo como negativo de forma consciente.
  • A próxima é uma terceira fase de assimilação, na qual a pessoa sente a emoção do nojo e isso faz com que a experiência seja armazenada na sua memória. Essa fase pode ocorrer cerca de 26 segundos depois.
Homem com ânsia de vômito

Transtornos do nojo

Pode acontecer que a pessoa sinta um nojo excessivo ou relacionado a estímulos que, inicialmente, não teriam motivo para provocá-lo. Existem vários transtornos psicopatológicos que estão relacionados ou têm um componente específico de nojo.

Exemplos disso são alguns transtornos de ansiedade, como o transtorno obsessivo-compulsivo de limpeza e ordem, no qual há uma preocupação excessiva com a sujeira e a possibilidade de contágio por germes.

Em algumas fobias, o componente do nojo é crucial, como na fobia de sangue ou na fobia social. Nesta última, em alguns casos a pessoa afetada sente uma certa repulsa ou aversão a se relacionar com outras pessoas. Também há estudos a respeito do papel que o nojo desempenha nos transtornos alimentares.

Bunmi O. Olatunji y Dean McKay. (2009) Disgust and Its Disorders: Theory, Assessment, and Treatment Implications. Washington, D.C.: American Psychological Association.